Entre músicas e palavras de ordem em defesa da democracia, milhares de pessoas tomaram as ruas de Porto Alegre neste domingo (18) em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). A mobilização começou pela manhã, no Largo Zumbi dos Palmares, com oficina de cartazes e concentração de apoiadores. De lá, os participantes seguiram em caminhada até o parque da Redenção lotado para o Ato Musical pela Democracia.
A mobilização, que reuniu integrantes de movimentos sociais e sindicais, parlamentares gaúchos e demais manifestantes, integrou a agenda nacional de atos realizados na semana que antecede o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
A abertura do ato musical ficou por conta do Bloco da Laje. A defesa da cultura como forma de resistência esteve entre as mensagens que marcaram a mobilização.
Nesta segunda-feira (19), Lula virá a Porto Alegre para um ato de campanha no Centro Histórico. A concentração está marcada para as 16h, no largo dos Açorianos, junto à avenida Borges de Medeiros. No sábado (17), foram realizados o ato Mulheres com Lula e o Corre com Lula.

Cultura como instrumento de resistência
Integrante do movimento Cultura com Lula, Mari Martinez destacou o protagonismo da cultura e da organização popular na mobilização. “Estamos aqui junto com toda a frente progressista, neste Ato Musical pela Democracia, que está seguindo essa maré da virada por todo o Brasil, com a cultura protagonista, mas mais protagonista ainda é o povo brasileiro, organizado em defesa da democracia e da reeleição do presidente Lula, porque o Brasil está pronto para mais.”
Para Martinez, a disputa eleitoral representa projetos distintos para o país. “Os brasileiros já sabem que, com a família Bolsonaro, é só corrupção, é só destruição, é desmonte dos serviços públicos e a vida do povo fica pior.”
A integrante do movimento também ressaltou a importância das políticas culturais implementadas pelo governo Lula. “A eleição do Lula para a cultura significa seguir avançando, porque o Lula, o seu primeiro ato deste mandato, foi recriar o Ministério da Cultura, que havia sido destruído. Artistas perseguidos, Lei Rouanet desmontada, Fundação Palmares desmontada. Foram os servidores públicos que mantiveram o pouco que restou, e a gente construiu junto com o povo o Ministério da Cultura forte, com recursos chegando em todos os municípios brasileiros.”
Ela resumiu a diferença entre os projetos políticos em disputa: “Lula é seguir em frente e avançar. Bolsonaro é voltar atrás e retroceder.”
O músico Frank Jorge também participou do ato e destacou a defesa da diversidade e da ciência. “É um ato muito importante, afirmativo, pela democracia, pela diversidade, pela ciência. Então, me orgulho muito de estar aqui em Porto Alegre, junto a muitos músicos, muitos artistas, batalhando por isso. E é 13 no dia 25.”

A cantora Marietti Fialho, que dedica 36 anos à música, ressaltou a cultura como espaço de resistência e parte fundamental da qualidade de vida. “A cultura é uma resiliência, é uma resistência a todo esse sistema. A primeira coisa que faz é acabar com a cultura, que alimenta não só o bolso do trabalhador, mas também a alma de quem ouve. Então, a cultura tem que prevalecer. A cultura é importante para nossas vidas, para a qualidade de vida.”
Nascida durante a ditadura e criada na zona norte da Capital, a artista relatou a emoção de participar da manifestação. “Eu que nasci na ditadura, via a ditadura terminar, e olhar esse mar de gente, esse mar vermelho, me dá uma emoção muito grande. E é isso aí, temos que ir para frente, porque a gente tem que lutar e vencer.”
Fialho também falou sobre os desafios enfrentados na trajetória. “É uma resistência total. A dia a dia, lutando, a cada batalha. Mas, a cada batalha, como eu digo, eu me sinto cada vez mais forte. E com a certeza que estou do lado certo.”
Ao se dirigir à juventude, defendeu que as novas gerações valorizem a trajetória de quem lutou por direitos. “Que a juventude valorize todo esse esforço que a gente está deixando presente para vocês, que é o futuro que a gente está trabalhando. Porque nós tivemos que passar por isso para que vocês não possam passar.”
A artista também ressaltou a importância do conhecimento, da igualdade e da liberdade de expressão. “Compreendam, pesquisem, estudem para saber o melhor. E o melhor para o nosso país é sempre, de qualquer maneira, a igualdade, a liberdade de expressão com respeito. E é isso que a gente quer.”
Periferia e políticas culturais
A rapper Negra Jaque, artista de Porto Alegre ligada à cultura hip hop, afirmou que a defesa da cultura está conectada a outras lutas sociais. “É a defesa das nossas vidas. É um ato em que a gente está falando de cultura, mas a cultura é transversal por todas as lutas que a gente presencia, de saúde, cuidados para diversas comunidades que se conectam e se identificam com a gente. Então, o artista se colocando ao lado do povo e lutando para que seus direitos sejam garantidos é fundamental.”
Na avaliação de Negra Jaque, a alternativa representada por Bolsonaro ameaça direitos e a diversidade. “Representa tudo aquilo que é corte de direito, desqualificação de pessoas, morte, assassinato de pessoas, luta armada, coisas que a gente sempre foi contra. Inclusive, uma religião só para um Brasil inteiro desse tamanho, diverso. Então, não nos representa.”
A rapper também destacou políticas culturais implementadas nos governos do PT. “Foram muito importantes vários projetos, principalmente os Pontos de Cultura, outras políticas digitais e fomentos que foram responsáveis por ampliar, inclusive, o movimento da cultura no Brasil, fortalecer as nossas bases e, principalmente, colocar centros culturais dentro das comunidades, fazendo a periferia ao centro.”
Negra Jaque relacionou essas políticas à própria trajetória. “Eu sou uma artista de rua, uma artista de periferia, da cultura hip-hop, e não teria outro lado para eu estar senão esse político.”

Fundador do Afro-Sul Odomodê, que tem mais de cinco décadas de existência, Paulo Romeu da Cruz Deodoro, o Paulinho, também ressaltou a importância da cultura para a sociedade. “A cultura não é um segmento só. A cultura está dentro da educação, da saúde. Se não tiver cultura, a gente não tem nada. A gente não tem árvore, não tem planta, nem ar, nem água, nem nada. Isso é a cultura. Então, é importante a gente estar aqui nesse momento.”
Para ele, a mobilização também é uma oportunidade de reafirmar a participação dos trabalhadores na disputa política. “É muito importante se manifestar e virar esse jogo. Mostrar que, como tem mais trabalhador que patrões e empresários, a lógica seria ter mais votos dos trabalhadores. Então, é isso que a gente tem que provar, a lógica.”
Paulinho criticou a desigualdade no exercício da democracia e defendeu a reeleição de Lula. Também manifestou preocupação com a violência política e com os impactos que uma eventual vitória de Bolsonaro poderia ter sobre as famílias e a população negra.

Soberania e participação popular
Durante a intervenção, o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (PT) defendeu um modelo de desenvolvimento que tenha a população como principal beneficiária e relacionou a defesa da democracia à soberania nacional.
Ao abordar o crescimento econômico, Dutra afirmou que diferentes setores precisam avançar de forma articulada para que os resultados beneficiem a população. O ex-governador também alertou para os riscos de novas tentativas de golpe e criticou a influência do imperialismo sobre a política brasileira.
“Nossos adversários, que não são muitos, mas têm poder econômico, buscam inclusive estratégias internacionais do imperialismo para tentar repetir o golpe de 1964, que nos apoiaram, e repetir o golpe que nós, o povo, impedimos no dia 8 de janeiro de 2023”, afirmou.

Ao convocar a militância para a disputa eleitoral, Dutra relatou que tem encontrado apoiadores na Capital, nas periferias, nos bairros e no interior do Rio Grande do Sul, mobilizados para garantir a eleição de Lula pela quarta vez à Presidência da República.
“Mais do que nunca, o povo brasileiro merece”, disse. Em seguida, ressaltou a origem operária do presidente e a ligação com a classe trabalhadora. “Luta pela classe trabalhadora. É originário dela. Nunca perdeu a consciência de classe. Faz da política a construção do bem comum, com o protagonismo das pessoas.”
Para Dutra, a democracia precisa ser fortalecida pela participação popular e não pode ser ameaçada por rupturas institucionais. O ex-governador defendeu que ela esteja presente tanto na Constituição quanto na vida cotidiana da população.
Ao criticar os setores que apoiaram a ditadura e que, segundo ele, têm torturadores como heróis, Dutra contrapôs esse pensamento a um projeto de sociedade baseado na convivência, na pluralidade e na paz. “O nosso projeto de mundo e de vida é de paz, de alegria, de convivência harmoniosa e amorosa entre nós e com a Mãe Natureza.”
Dutra também defendeu a reeleição de Lula para dar continuidade a um projeto de desenvolvimento e fortalecer a posição do Brasil no cenário internacional. Ressaltou a importância da convivência com outros países e da solidariedade aos povos que sofrem intervenções e opressão do imperialismo.

Ao final da intervenção, Dutra declamou o poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht. A obra questiona quem construiu as grandes cidades e os monumentos celebrados pela história, chamando a atenção para os trabalhadores que realizaram essas construções, mas nem sempre tiveram seu papel reconhecido.
O poema começa com os versos: “Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas? Nos livros estão nomes de reis; os reis carregaram as pedras? E Babilônia, tantas vezes destruída, quem a reconstruía sempre? Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a construíram? No dia em que a Muralha da China ficou pronta, para onde foram os pedreiros?” E termina: “A cada página uma vitória. Quem preparava os banquetes? A cada dez anos um grande homem. Quem pagava as despesas? Tantas histórias, tantas questões.”


Arte e memória na defesa da democracia
A atriz, diretora e atuadora Tânia Farias, integrante do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, destacou a importância de manter viva a memória das vítimas da ditadura militar. Durante o ato, o grupo apresentou a peça “Ação nº 2”, uma performance sobre os desaparecidos políticos do regime, em frente aos arcos da Redenção.
“Essas brasileiras e brasileiros que defenderam o Brasil contra uma ditadura, buscavam um projeto de país mais justo, solidário, de justiça social e foram perseguidos, aprisionados, torturados, mortos e desaparecidos. Brasileiras e brasileiros que ainda hoje não têm sepultura dada pelos seus entes mais queridos”, expôs.
Para Farias, a lembrança desse período ganha ainda mais importância às vésperas do segundo turno. “Estamos diante de uma possibilidade de, numa eleição, perder a democracia. É importante lembrar dessas lutadoras e lutadores que tombaram defendendo o país de uma ditadura e um projeto de Brasil mais justo e solidário para toda a gente.”

A artista também relatou o envolvimento do público nas apresentações realizadas nos últimos domingos. Segundo ela, as pessoas têm participado da performance, lido as microbiografias dos desaparecidos políticos espalhadas pelo chão e compartilhado reflexões sobre a conjuntura política.
Farias alertou ainda para os possíveis impactos de uma vitória da extrema direita sobre mulheres, população negra e periférica e comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, pessoas não binárias e outras identidades de gênero e orientações sexuais (LGBTQIAPN+). Na avaliação da artista, a presença de um governo de extrema direita, somada a uma maioria parlamentar desse campo político, poderia enfraquecer espaços institucionais importantes para a defesa de direitos.
Para ela, a reeleição de Lula é importante para preservar a democracia e criar condições para enfrentar a extrema direita. A artista também manifestou a expectativa de que o processo eleitoral fortaleça a esquerda e abra caminho para a construção de alternativas políticas nos próximos anos.
O músico Nelson Coelho de Castro também participou da mobilização e chamou a atenção para o que considera um momento decisivo para o país.
“Estamos em um momento crucial da nossa vida mais uma vez e mais uma vez precisamos de uma lucidez nesse momento das mais nítidas possíveis, porque estamos arriscando a nossa soberania, arriscando uma nação não ser soberana. Precisamos dessa soberania, desse sol que nos ilumina, e temos que respeitar a nossa luta e trajetória na conquista da soberania”, afirmou.

Manifestantes defendem direitos e alertam para riscos da extrema direita
Durante a mobilização, manifestantes de diferentes setores sociais também falaram sobre a importância do ato e os motivos para votar em Lula no segundo turno.
Marcela Azevedo, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), afirmou que a organização decidiu pelo voto crítico no candidato do PT, apesar de manter oposição de esquerda aos governos Lula. “Nós sempre fomos oposição de esquerda ao governo Lula em todos os seus mandatos, mas, nesse momento, nós decidimos pelo voto crítico no 13. Mesmo enxergando todos os problemas do governo Lula, a conciliação com a burguesia e, invariavelmente, os ataques ao conjunto dos trabalhadores, nós sabemos que, com o Bolsonaro e a extrema direita, inclusive o direito de criticar o governo, nós vamos perder.”
Segundo ela, uma eventual vitória de Bolsonaro poderia restringir a organização política e a mobilização popular. “Será um governo que vai tentar impedir os trabalhadores e a juventude de se organizar e de se manifestar. Por isso, nesse momento, nós votamos 13 para garantir inclusive o nosso direito de seguir sendo oposição, de seguir organizando manifestações, mobilizações contra qualquer ataque que se dê ao conjunto dos trabalhadores e da juventude.”

A estudante indígena Gabriele Salles do Nascimento, que cursa Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integra o território Kaingang Fag Nhin, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, destacou a importância de ampliar a mobilização para além das ruas.
“Esse ato não só é importante para a gente demonstrar a nossa força, a gente se unir e demonstrar que a gente está aqui, mas também para a gente movimentar. E não basta só os atos na rua, a gente precisa virar voto”, afirmou.
Cotista na universidade, Nascimento relacionou a disputa eleitoral à luta por direitos dos povos indígenas. “Eu sou estudante indígena, entrei por cota, sou cotista e estou aqui na rua lutando pelos meus direitos, não só na universidade, mas também dentro do meu território, pela demarcação de território e o quanto vai ser importante pra gente nesse momento.”
A enfermeira Bruna Henke, que trabalha na área da saúde há 15 anos, participou do ato com a preocupação de evitar a repetição dos impactos vividos durante a pandemia de covid-19. “Eu vivenciei a pandemia. Eu sei e posso dizer o quanto que foi difícil, o quanto a gente teve que lutar pelos nossos pacientes, o quanto a gente teve que apoiar os técnicos, apoiar os médicos, porque muitas vezes a gente não tinha apoio.”
Ela afirmou que a experiência foi determinante para a participação na mobilização. “Por isso que eu tô aqui, porque eu não quero viver aquele inferno de novo. Eu quero lutar pelo povo, eu estou aqui pelo povo e é por isso que eu estou aqui lutando.”

O técnico em edificações Eduardo compareceu acompanhado do filho, Declan, para defender a democracia e destacar a importância da educação e do pensamento crítico. “A gente veio aqui pedir pela democracia e a gente sabe do perigo das armas e da importância dos livros, porque é isso que faz a gente ter o pensamento crítico e evoluir como sociedade.”








