Democracia e soberania foram as palavras que mais se repetiram na tarde desta segunda-feira (19), em Porto Alegre, nas falas de manifestantes, de lideranças políticas e do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Em torno delas, milhares de pessoas ocuparam as ruas da capital gaúcha, a seis dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Para as lideranças que discursaram, a dimensão do público expressa o desejo de continuidade de um projeto de governo voltado ao povo, à defesa dos direitos conquistados e ao lugar do Brasil no mundo. Com bandeiras, música e cantoria, a multidão saiu do largo dos Açorianos em direção ao Mercado Público.

Um mar de gente de vermelho
Ainda não há estimativa oficial de público. Na comparação com as maiores mobilizações das últimas três décadas na Capital, a caminhada desta segunda foi a maior e teve mais gente do que a do Fórum Social Mundial de 2003, que reuniu 100 mil pessoas. Como referência, na caminhada de Lula pelo centro da Capital em 19 de outubro de 2022, a organização estimou 70 mil participantes, e reuniu mais pessoas.
O próprio Lula levou a avaliação ao microfone, ao final do percurso. “Essa possivelmente seja a maior manifestação já feita na história de Porto Alegre”, disse, ao relatar que ouvira a mesma leitura de Olívio Dutra (PT) e de Tarso Genro (PT).
O presidente lembrou o coro “o Lula é gaúcho”, que, segundo ele, os gaúchos cantavam em outras ocasiões, e recordou sua primeira visita ao estado, em 1975. “Eu vim a Porto Alegre conhecer o estado mais progressista deste país”, afirmou. Também estiveram no ato Manuela d’Ávila (Psol), Paulo Pimenta (PT), Edegar Pretto (PT) e Juliana Brizola (PDT), assim como parlamentares estaduais e federais.
No primeiro turno, Lula foi o candidato mais votado em Porto Alegre, com 48,57% dos votos válidos, contra 41,86% de Flávio Bolsonaro (PL).

Quem foi à rua
Entre os caminhantes estava Jana Alexandra, nascida em Porto Alegre e moradora de Ivoti. Ela contou ter crescido na periferia da Capital e ficado órfã, junto com a irmã. “Vivi uma história de vida um pouco mais difícil, mas consegui superar, estudar muito, em função de políticas públicas que são destinadas para pessoas como eu”, relatou.
Sobre o momento eleitoral, disse: “É um momento muito importante para todos nós. A gente tem que estar mobilizado tanto na rua quanto nas redes sociais, quanto na família”. Para ela, “a reeleição do Lula significa travar um pouco esse extremismo, essa extrema direita que está aí hoje governando em vários lugares do mundo, principalmente na América Latina”.

A assistente social Luciana Braz Nunes, natural de Alegrete e há 50 anos em Porto Alegre, resumiu o que a levou ao ato: “A democracia, a soberania, a liberdade, a dignidade do povo brasileiro, sempre”.
Segundo ela, a reeleição de Lula “significa garantia da soberania, garantia da dignidade, dos direitos adquiridos, da nossa vida plena, da democracia”. Já uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, na avaliação dela, “significa o retrocesso, perda de direitos, repressão, volta do autoritarismo do Estado”.

A aposentada Maria de Lourdes Vedói, ex-metalúrgica e moradora do bairro Sarandi, em Porto ALegre, foi atingida pela enchente e disse não ter recebido auxílio federal. Mesmo assim, chegou cedo ao ato. “Estou aqui para batalhar. O Lula tem que ganhar para nos dar as coisas, porque se outro entrar nós seremos ralados”, afirmou.

Gicelda Rodrigues de Morais, de 68 anos, aposentada e moradora do Partenon, contou que veio “para ver o Lula”. “Eu votei nele e vou votar domingo de novo. Ele é a paixão da minha família todinha”, disse.
Ela afirmou ter convencido uma filha a mudar o voto. “Eu disse pra minha filha: ‘Vai criar vergonha na cara, porque eu sou pobre, eu sou do Lula e tu também vai ser’. Ela votou no Lula e vai votar de novo.”

A estudante de Relações Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Zandria Sanchez, de 27 anos, ingressou em 2022 pelo sistema de cotas e está em fase de formatura. Para ela, a política de cotas é garantia de acesso.
“As cotas são muito importantes, elas fazem a gente ter acesso às universidades públicas. Isso é muito importante, precisa continuar. É o único jeito da gente conseguir acessar esses espaços”, afirmou. “Por isso a importância do Lula continuar conosco, para continuar mantendo as políticas públicas.”
Sanchez contou que a militância vem de casa. “Desde o berço a gente sempre veio nas militâncias juntas. Ela sempre me trouxe e hoje quem traz ela sou eu.” E completou: “Nós precisamos estar nas ruas. Eu estou aqui pelas minhas filhas”.

Silvia Lourenço, técnica de enfermagem de Alvorada, definiu a presença no ato como “a maneira de brigar para não perder o que foi conquistado durante tanto tempo”. Segundo ela, se o governo Lula continuar, ainda pode haver “prosperidade pela frente”. Caso não se reeleja, disse: “não sabemos o que vamos fazer, vamos perder um monte de coisas”.
Ela tem uma filha que estuda na UFRGS e relatou que a família sempre foi aos protestos. “A gente sempre foi em busca não só do que é bom para a gente, mas do que é bom para todo mundo, porque a gente está do lado do povo, porque a gente é o povo.”
Palanque, música e memória
No carro de som, lideranças políticas se revezaram. O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra, de 85 anos, convocou o eleitorado de todas as idades. “Eu sou um jovem de 85 anos. Quero que os jovens da minha idade estejam todos votando agora, no dia 25, no 13”, disse, antes de puxar vivas a Lula, à democracia e ao povo de Porto Alegre.
O senador Paulo Paim (PT) abriu a fala saudando a Capital. “Boa tarde, Porto Alegre. Essa é a caminhada da virada. É a caminhada da vitória.”
Em seguida, falou da relação com o presidente, que se estende por décadas: “Quarenta anos voltando para casa com o presidente Lula, o presidente que foi fundamental para aprovar as 40 horas”. E completou: “É bom voltar para casa, Lula, numa festa como essa ao teu lado”.
Rui Costa (PT) também discursou e destacou a tradição política gaúcha. “É uma alegria imensa estar aqui no Rio Grande do Sul, com esse povo extraordinário que é amante da democracia, que teve aqui o Getúlio Vargas, que teve o Brizola, que lutou contra o golpe militar, criando a campanha da Legalidade”, afirmou.
Sobre o que está em jogo na eleição, disse: “Além de estar garantida na Constituição, a democracia tem que estar na vida, através de políticas públicas”.
O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), reeleito no primeiro turno, em 4 de outubro, também falou ao público. “Boa tarde, Porto Alegre. Quem é Lula levanta a mão, minha gente. Essa é a caminhada da virada”, disse.
Em seguida, fez um apelo específico: “Quero fazer um pedido especial aos descendentes de nordestinos que moram aqui no Rio Grande do Sul”. E concluiu pedindo voto em “Lula, grande presidente do Brasil”.
O que Lula disse da tribuna
No discurso, Lula citou a visita a Porto Alegre em que, recém-eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, esteve na posse de Olivio Dutra no Sindicato dos Bancários. Falou também do convívio com Paim, que conhece desde os anos 1980, quando o senador presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas.
Sobre o Rio Grande do Sul, o presidente afirmou: “Lamentavelmente, teve um tempo em que a direita ganhou o espaço desse estado. Esse estado é um símbolo da resistência brasileira, o símbolo da resistência contra a ditadura militar”.
No encerramento, disse: “Hoje vocês mostraram que esse Rio Grande do Sul não é de direita. Esse Rio Grande do Sul não é conservador. Esse Rio Grande do Sul é de mulheres, de homens trabalhadores, de estudantes que querem um futuro melhor e de um estado que depende da soberania desse país”.
O presidente também se referiu à própria projeção internacional. “Com o apoio de vocês, me transformei num presidente muito respeitado no mundo”, disse, ao lembrar que já se reuniu com três presidentes americanos, dois chineses, dois russos e três franceses.
O pedido de abertura de sigilo
Lula anunciou que assinou uma procuração para abrir os sigilos bancário e telefônico dele, da mulher e dos cinco filhos, e que a entregaria nesta terça-feira (20) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele cobrou do adversário a mesma atitude.
“Eu fiz questão de colocar meus cinco filhos, porque eu sei que toda eleição se inventa uma coisa contra a minha família e eu resolvi não ficar quieto”, afirmou. “A única coisa que eu estou pedindo é que ele tenha coragem de provar que é honesto.”
O presidente disse que quer saber “onde estão os 134 milhões” e questionou: “como o adversário comprou uma casa de 10 milhões à vista, com o salário que ele ganha, que é igual ao meu?” Lula afirmou ainda que essa é a última disputa eleitoral dele. Referiu-se a Flávio Bolsonaro como “miliciano” ao comentar o debate realizado na Band entre os dois, neste domingo (18)
O tema dos sigilos já circulava na campanha. Em 9 de setembro, Lula defendeu a abertura dos sigilos de todos os envolvidos no caso Banco Master. Flávio Bolsonaro, que é alvo de apuração da Polícia Federal sobre repasses do banco aos Estados Unidos, afirmou que uma contratação não chegou a ser realizada e negou irregularidades.
Propostas anunciadas no palanque
Lula também falou de medidas de governo. Segundo ele, o Congresso aprovou a anistia de uma dívida ativa da União que as os microempreendedores individuais (MEIs) não teriam como pagar.
O governo, disse, enviou uma proposta para comprar essas dívidas em leilão, com expectativa de desconto de cerca de 95%, e anunciará um Pix de R$ 5 mil para quem se livrar da dívida. “Não é empréstimo, é o Estado garantindo que essas pessoas comecem uma nova vida sem ficar devendo”, declarou.
O presidente mencionou ainda o fim da escala 6×1, que, segundo ele, vai garantir dois dias de descanso por semana. A proposta de emenda à Constituição foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 14 de outubro de 2026.
Lula disse também que enviará ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição para garantir transporte gratuito nas cidades que têm o serviço, financiada, nas palavras dele, pelas emendas parlamentares. “Eu acho que cada deputado, cada senador vai ter o privilégio de abrir um pouco da sua emenda para que o povo possa passear de graça”, afirmou.
O pedido final
Ao se despedir, Lula pediu que os presentes visitem as casas de quem não votou no primeiro turno, incluindo as pessoas com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo. “Essa luta não é minha, não é do PT, não é dos partidos que nos apoiaram. Essa luta é de cada homem e de cada mulher deste país que defende a nossa pátria”, disse.
Ele pediu votos “pela dignidade e honra desse Brasil, que não será quintal de ninguém” e citou entre as bandeiras da campanha o fim da escala 6×1 e o combate ao feminicídio.
Lula disse sair de Porto Alegre “com a certeza absoluta de que é humanamente impossível alguém tirar essa eleição de nós”. Seguiu para Brasília e, nesta terça-feira (20), cumpre agenda no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia.
Antes da caminhada, Lula concedeu entrevista coletiva em Porto Alegre, quando destacou que entregará ao Tribunal Superior Eleitoral uma autorização para abrir os sigilos bancário e telefônico dele e da família, cobrando a mesma atitude de Flávio Bolsonaro.

