Flávio Bolsonaro (PL) disputa o segundo turno da eleição presidencial sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está preso.
O caso teve ampla repercussão ao longo do ano e se soma a outros escândalos na trajetória de Flávio desde sua passagem na política fluminense. A lista inclui vínculos de aliados como Rodrigo Bacellar e Márcio Canella com o crime organizado, defesa de policiais acusados de homicídio e homenagem a miliciano.
Em embate direto no debate da Band no domingo (19), o presidente Lula (PT) propôs ao senador abrir o sigilo bancário e telefônico dos dois candidatos à Presidência da República “para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país”. Nas redes sociais, o tema repercute com a hashtag “Abre o sigilo Flávio”.
“Eu abro da minha família e você abre da sua. Nós entregamos para o presidente da Suprema Corte e do Tribunal Superior Eleitoral o seu documento e o meu para avaliarem antes das eleições, para que o povo saiba quem é corrupto e ladrão, porque, senão, eles vão ser enganados de novo”, disse Lula.
Lula também cobrou explicação sobre a atuação de Flávio no caso do policial militar acusado de matar uma criança de 5 anos no Rio de Janeiro. O episódio ganhou repercussão na série jornalística “Revelando”.
Confira alguns temas que pesam contra o senador no 2º turno:
Vínculos com o crime
No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro teve importantes aliados presos por vínculos com o crime organizado. Um deles foi Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), suspeito de favorecer o bicheiro Adilsinho. Preso na terceira fase da operação Unha e Carne, em março, Bacellar seria o candidato do PL ao governo do Rio.
Outra baixa no grupo político de Flávio no Rio ocorreu com a prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União) na semana passada. A investigação da PF aponta lavagem de R$ 7,6 bilhões em seis anos por meio de postos de combustível, além de supostos acordos com o Comando Vermelho (CV) e vínculos com milicianos.
Canella deixou a prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, em abril para se tornar pré-candidato ao Senado com a mãe de Flávio Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, como primeira suplente na chapa. Os planos foram interrompidos com a primeira prisão do político, em julho, com um fuzil de uso restrito em seu carro.
Caso Ana Clara
Em 2024, Flávio assinou recurso perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ) na condição de defensor do cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público (MPRJ) pela morte da menina Ana Clara Machado, de apenas 5 anos de idade.
A criança brincava com o irmão de dois anos na porta de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, em 2 de fevereiro de 2021, quando foi atingida por um disparo de fuzil efetuado durante patrulhamento policial. De acordo com a acusação da promotoria, o PM atirou em direção à área residencial e de lazer “com vontade livre e consciente, assumindo o risco de matar”, e continuou disparando mesmo após pedestres gritarem “é morador”.
Como advogado, Flávio também integrou a defesa técnica de outros quatro policiais militares denunciados por emboscada e homicídio de quatro pessoas no Morro do Vidigal, ocorrido em janeiro de 2020.
Banco Master
Documentos tornados públicos mostram que Flávio negociou com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, um aporte de US$ 24 milhões, supostamente para a produção do filme sobre o seu pai. O episódio abriu uma sequência de revelações devido à troca de mensagens, áudios e repasses financeiros.
Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, haviam sido enviados para uma estrutura financeira nos Estados Unidos usada pela produção de “Dark Horse”. Nas mensagens, Bolsonaro e Vorcaro se tratam como “irmãos”.
Flávio sustentou que se tratava de “patrocínio privado para um filme privado”. No entanto, a falência do Master por fraude financeira causou prejuízos a diversos fundos públicos de aposentadoria. Só a RioPrevidência teria investido cerca de R$ 970 milhões na instituição.
Fraude do INSS
As relações empresariais de Flávio já haviam chamado atenção no início do ano por outro motivo. Em fevereiro, um requerimento apresentado à CPMI do INSS pediu a convocação do senador para explicar vínculos de seu entorno com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como personagem central das fraudes contra aposentados e pensionistas. O senador negou envolvimento com o esquema.
Em outubro, o portal Uol revelou que mensagens obtidas pela PF indicam que uma conta identificada com o nome do senador esteve vinculada ao perfil administrativo de acesso bancário de uma empresa do advogado Willer Tomaz, alvo de investigação por suspeita de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes contra aposentados do INSS.
A apuração do veículo aponta que os e-mails foram localizados em arquivos armazenados em serviço de nuvem de Tomaz, apreendidos no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga desvios que podem alcançar R$ 6,3 bilhões por meio de cobranças associativas indevidas em aposentadorias e pensões.
Emendas parlamentares
Mensagens obtidas pela PF no celular de Robson Calixto, o Peixe, condenado no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, mostram uma assessora de Flávio tratando da liberação de uma emenda parlamentar. A verba de cerca de R$ 200 mil foi destinada a entidade ligada aos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, apontados como mandantes do crime.
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Os registros mostram Calixto cobrando a liberação do dinheiro e a assessora sugerindo que ele procurasse Flávio pessoalmente para reforçar o pedido. Flávio afirma que seu gabinete indica as emendas, mas não escolhe as empresas contratadas pelos órgãos e entidades beneficiados.
Homenagem a miliciano
Investigações também marcaram a passagem de Flávio pela Assembleia Legislativa (Alerj), onde foi deputado estadual entre 2003 e 2018. São dessa época também as relações com Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como chefe de uma milícia. A mãe e a ex-mulher de Adriano trabalharam no gabinete, e o então deputado concedeu homenagens ao policial.
Rachadinha
Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, Flávio comandava um esquema de recolhimento de parte dos salários de servidores de seu gabinete, operacionalizado por Fabrício Queiroz. O MP denunciou o então deputado por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Loja de chocolate e imóveis
Uma das linhas da investigação atingiu a franquia da Kopenhagen da qual Flávio e Alexandre Santini eram sócios na Barra da Tijuca. O MP sustentava que a empresa havia sido utilizada para inserir no patrimônio do então deputado recursos provenientes da rachadinha, apontando depósitos em espécie e movimentações consideradas incompatíveis com o faturamento. Na época, as transações imobiliárias de Flávio também foram investigadas.
Outro lado
Flávio nega ter cometido crimes nos casos antigos e sustenta que as investigações da rachadinha foram anuladas pela Justiça. Atualmente, a investigação formal que o tem diretamente como alvo no STF é a que apura a origem, o caminho e o destino dos recursos negociados com Daniel Vorcaro para “Dark Horse”.

