A nova e grande onda de protestos que eclodiu na Europa em outubro de 2026 guarda paralelos visuais e simbólicos com o Maio de 1968, mas uma análise mais atenta revela que estamos diante de um fenômeno essencialmente diferente. E novo.
Não se trata de um “Maio de 1968 2.0”, mas sim de um “Outubro de 2026” marcado pela ansiedade e pela defesa de direitos básicos, e não pela utopia revolucionária.
Os protestos começaram na França, inicialmente liderados por estudantes do ensino médio (lycéens) que bloqueiam escolas para denunciar a precariedade do sistema educacional e a falta de recursos públicos.
O movimento, que já durava cerca de quatro semanas, ganhou uma dimensão nacional em 17 de outubro de 2026 ao se fundir com uma insatisfação socioeconômica muito mais ampla.
No dia 17, uma vasta coalizão que incluía os “Coletes Amarelos” (Gilets Jaunes), sindicatos, agricultores e ativistas climáticos foi às ruas.
O mote unificador passou a ser o “stop à vida cara” (stop à la vie chère), denunciando a alta do custo de vida, a inflação, a crise habitacional e a degradação dos serviços públicos.
As estimativas apontam para centenas de milhares de manifestantes em toda a França (entre 550 mil e 800 mil), com episódios de violência, centenas de feridos e mais de mil detenções.
A “chama” francesa rapidamente cruzou fronteiras, com protestos e confrontos similares ocorrendo na Itália (Milão), Portugal (Lisboa), Bélgica e Espanha, todos com pautas semelhantes ligadas ao custo de vida e à moradia.
O “Outubro de 2026” não é uma repetição do passado, mas um sintoma de um novo tempo.
Enquanto 1968 foi um grito de otimismo e rebeldia por um futuro diferente, os protestos atuais são um grito de ansiedade e sobrevivência por qualquer futuro viável.
A energia é a mesma, mas a direção mudou: de “transformar o mundo” para “não ser esmagado por ele”.
A grande questão que fica não é se veremos barricadas como as de 68, mas como as democracias europeias responderão a essa ansiedade generalizada. A comparação com o passado serve menos como um espelho e mais como um alerta sobre a profundidade do descontentamento atual.
Os protestos de massa tensionam a relação Europa/Estados Unidos
Os protestos não são a causa da mudança, mas sim o sintoma mais visível de uma tensão que já está fraturando a relação transatlântica e forçando as elites a recalcular sua posição.
A pressão das ruas pode transformar o que era um debate elitista sobre “autonomia estratégica” numa exigência popular, ao mesmo tempo que a própria natureza da relação com Washington se torna insustentável.
A onda de protestos de 2026 não é apenas sobre o custo de vida. É, na sua essência, uma revolta contra as escolhas geopolíticas que produziram esse custo de vida. A ligação entre a política externa e a crise interna é agora explícita. Uma evidência solar.
A inflação e a crise energética na Europa foram exacerbadas por decisões alinhadas com Washington, como o corte com a energia russa e o apoio a conflitos no Médio Oriente que perturbaram o fornecimento global de petróleo.
O dinheiro que deveria financiar o Estado social tem sido desviado para o “Estado de guerra”, com pressões dos EUA para que os membros da OTAN aumentem os gastos com defesa para 5% do PIB, enquanto os serviços públicos são cortados.
Em Madrid, manifestantes foram às ruas com palavras de ordem como “Não queremos ser uma colônia dos EUA”, exigindo a saída de Espanha da OTAN e o fechamento das bases militares americanas no país. Em Bruxelas, a mensagem projetada num edifício foi ainda mais direta: “Lutem por nós, não pelos bilionários de Trump!”, denunciando a dependência tecnológica e a subserviência aos interesses americanos.
Analistas de esquerda descrevem este momento como uma “luta sistêmica pela soberania” entre os que tentam sabotar a “Autonomia Estratégica” europeia e o status quo atlanticista que mantém a Europa subordinada e à beira de um neocolonianismo século 21.
A crise de legitimidade das elites políticas mainstream é alimentada pela sua incapacidade de responder a esta contradição, abrindo espaço para movimentos populares radicais.
As elites tentarão gerir o declínio da hegemonia americana enquanto, ao mesmo tempo, usam o discurso da “autonomia estratégica” para acalmar as ruas na Europa.
A verdadeira questão é se conseguirão fazê-lo antes que a ira popular se volte contra elas próprias, acusando-as de serem cúmplices de um sistema que já não entrega prosperidade, mas apenas subserviência e indeterminação acerca do futuro coletivo.
O que difere a revolta popular de hoje com a de 1968?
A mudança na composição social e na localização geográfica dos protagonistas não é um detalhe, mas sim o que define a natureza profundamente diferente dos dois momentos.
Se em 1968 a revolta partiu do centro do sistema (as universidades de elite) para contestar a autoridade e os valores, em 2026 ela parte da periferia (as banlieues) para exigir inclusão material e o direito a ter um futuro. A ausência de uma ideologia totalizante como o marxismo não é um vazio, mas sim o sintoma de uma crise de expectativas muito mais visceral e imediata.
A diferença de origem é o ponto de partida. Em 1968, os protagonistas eram estudantes universitários vindos das classes médias e altas, filhos de cidadãos inegavelmente franceses, que agiam no coração de Paris. A revolta era contra o conservadorismo de uma sociedade que os incluía, mas cujos valores eles rejeitavam.
Em 2026, a dinâmica se inverteu. O epicentro do movimento são os liceus das periferias pobres e etnicamente diversas, como Seine-Saint-Denis, Saint-Denis e Créteil.
Os protagonistas são jovens de 15 a 18 anos, moradores dessas banlieues (periferia), muitos deles filhos e netos de imigrantes, que se veem tratados como “imigrantes” mesmo sendo cidadãos franceses.
A revolta não é contra a autoridade paternalista do Estado, mas contra o abandono e a desigualdade estrutural que ele produz.
O movimento estudantil de 1968 era profundamente ideológico, imerso em debates sobre o marxismo, o trotskismo, o maoísmo e a psicanálise freudiana. Havia um programa, ainda que utópico, de transformação total da sociedade. A palavra de ordem era a “libertação”.
O movimento atual não tem uma ideologia unificadora. Suas demandas são, antes de tudo, materiais e concretas: a reposição de professores ausentes, a reforma de prédios escolares em ruínas, o fim da violência policial e a igualdade de oportunidades. É uma política que nasce da experiência vivida da precariedade e do racismo, e não de uma ideologia.
No entanto, isso não significa que o movimento seja despolitizado.
Ele se conecta a causas globais de forma espontânea e simbólica, como a solidariedade à Palestina, e expressa uma ansiedade existencial sobre o futuro em um mundo de IA e crise climática. A ideologia não é um a priori teórico, mas uma composição de significantes que refletem a indignação imediata daqueles que se sentem abandonados pelo sistema.
O “Maio de 1968” foi uma revolta de inclusão pelo questionamento: jovens que já estavam dentro do sistema (na universidade, na classe média) usaram essa posição para tentar derrubar suas paredes e transformá-lo.
O “Outubro de 2026” é uma revolta de inclusão pela demanda: jovens que sempre estiveram do lado de fora, nas periferias, e que agora exigem entrar e ser reconhecidos como parte legítima da sociedade francesa, com direito a escolas dignas, segurança e um futuro.
A ausência de uma ideologia totalizante não os torna menos políticos. Pelo contrário, torna sua política mais direta, urgente e ancorada na cruel realidade material da exclusão.
Onde há poder, há resistência
A epígrafe de Foucault – “onde há poder, há resistência” – pode ilustrar de forma muito precisa o atual fenômeno de massa na Europa, especialmente à luz da distinção entre 1968 e 2026.
A máxima foucaultiana não só descreve o que está acontecendo agora, como oferece um leque de leitura que explica a forma e a localização dessa resistência, mesmo que não antecipe o seu conteúdo ou desfecho.
Para Foucault, a frase não é um slogan otimista, mas uma afirmação analítica sobre a natureza do poder.
O poder não é uma coisa que se possui, como um cetro, mas uma relação que se exerce em todos os pontos da sociedade: na família, na escola, na polícia, nas instituições. O poder vem de baixo e circula pela rede social.
A resistência não é algo que vem de “fora” do sistema para o derrubar. Ela é o “outro termo” da relação de poder, a contraface que o poder precisa contornar para se exercer. Poder e resistência são indissociáveis.
Não existe “A” resistência, um grande levante unificado. Existem resistências, no plural: focos móveis, transitórios, espontâneos, que se disseminam de forma irregular pelo tecido social – sempre no sentido dado por Foucault.
É o que testemunhamos hoje, também no Brasil, mas sobretudo na França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, etc.
O próprio Foucault admite que, para que uma resistência se torne um movimento transformador, é necessária uma “codificação estratégica” desses pontos dispersos.
O “Outubro de 2026” é, até agora, uma constelação de focos de resistência. A questão política central é se eles conseguirão ou não se codificar numa estratégia comum capaz de forçar uma mudança sistêmica, ou se permanecerão como erupções dispersas que o poder contorna e absorve. Esse é o ponto.
A frase de Foucault é uma bússola extremamente eficaz para orientar a análise do “Outubro de 2026”.
Ela explica por que a revolta surge ali (nas periferias, onde o poder da exclusão é mais capilar), assim (de forma plural, espontânea e sem uma ideologia unificadora) e por que é inevitável (porque não há relação de poder sem resistência).
No entanto, ela não é um mapa que nos diga para onde o movimento vai.
A máxima descreve a condição permanente da política – a tensão irredutível entre poder e resistência.
O que está em jogo em 2026 não é a existência dessa tensão, mas sim a capacidade de os pontos de resistência se articularem para transformar a sua energia dispersa numa força capaz de reconfigurar as próprias relações de poder que os oprimem.
Para concluir, quero manifestar a satisfação de ver no Brasil, nas últimas semanas, a juventude retomar as ruas em protesto pelo risco que corremos de cair nas garras do protofascismo entreguista e delinquencial.
As considerações acima – faço votos – servem certamente para identificar esse fenômeno de massa no Brasil como algo inserido no contexto internacional anti-sistêmico e anti-Império.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

