Mulheres maiores de 18 anos que vivem em periferias, quilombos, aldeias e comunidades da Região Metropolitana do Recife podem se inscrever, até 6 de novembro, na formação literária gratuita “As Filhas das Filhas das Filhas”, promovida pela Festa Literária das Periferias de Pernambuco (Flup PE). A iniciativa vai selecionar até 30 participantes para atividades de escrita, palestras e mentorias, com a possibilidade de publicação de textos em uma coletânea de prosa e poesia. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo formulário disponível no site do evento.
Para concorrer a uma das vagas, as interessadas precisam enviar um texto inédito, em prosa ou verso, inspirado na pergunta “Do silêncio à palavra: quantas vozes ecoam em mim?”. O material será avaliado com base na originalidade, criatividade, qualidade literária e relação com o tema proposto. Não é necessário ter experiência prévia com escrita literária ou livros publicados.
O texto deve ser enviado em PDF, sem identificação da autora, com até duas páginas ou mil palavras. O arquivo precisa ser nomeado com um pseudônimo, que também deve aparecer após o título. Trabalhos já publicados ou divulgados, inclusive nas redes sociais, não serão aceitos. A organização também informa que textos com indícios de produção parcial ou integralmente produzidos por inteligência artificial serão desclassificados.
A avaliação dos trabalhos está prevista para ocorrer entre 9 e 20 de novembro. O resultado inicial será divulgado em 23 de novembro, e a lista definitiva das selecionadas está prevista para 30 de novembro de 2026.
As mulheres selecionadas participarão de atividades formativas que incluem encontros de mentoria e produção literária. A proposta prevê a divisão das participantes em três turmas de até dez integrantes, organizadas conforme a escolha entre prosa e poesia. A formação contará com o acompanhamento de Taylane Cruz, Fátima Farias e Eva Potiguara.
O processo de criação culminará em uma publicação coletiva, cujos textos serão escolhidos em conjunto pelas autoras, pelas escritoras-mentoras e pelas avaliadoras. As participantes manterão a autoria de suas produções, cedendo à Flup os direitos necessários à publicação. A inclusão na coletânea exige frequência mínima de 80% nas atividades. Por isso, as candidatas também precisam ter disponibilidade para acompanhar a programação presencial e virtual prevista pelo projeto.
Entre os dias 11 e 13 de dezembro de 2026, a Flup PE realizará um ciclo de palestras, debates, rodas de diálogo e oficinas no Compaz Dom Helder Câmara, equipamento público na rua Lourenço de Sá, nº 140, na comunidade do Coque, na área central do Recife. A programação será obrigatória para as selecionadas, mas também estará aberta ao público em geral.
Os encontros vão abordar temas como feminismo negro, ancestralidade, memória, escrevivências, afrofuturismo e protagonismo negro na tecnologia. As discussões também devem recuperar a história das mobilizações de mulheres negras por direitos, autonomia e melhores condições de vida. Entre os nomes anunciados para a programação estão as escritoras Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Mel Duarte, Lubi Prates e Lu Ain Zaila, além da ativista Mirtes Renata e de outras representantes da cultura, das artes e do pensamento intelectual.
A edição de 2026 tem como referências as trajetórias de Mirtes Renata Santana de Souza e Laudelina de Campos Melo, mulheres que se tornaram símbolos de resistência e luta por direitos das trabalhadoras domésticas.
Mirtes Renata ganhou projeção nacional após a morte de seu filho, Miguel Otávio, de cinco anos, em 2020, quando ele caiu do 9º andar de um edifício no Recife. Na ocasião, ela trabalhava como empregada doméstica e havia saído para passear com o cachorro da patroa. Após a tragédia, ingressou no curso de direito e ampliou sua atuação pública em defesa da justiça e dos direitos das trabalhadoras domésticas. Laudelina de Campos Melo, por sua vez, é uma pioneira na organização política e sindical das trabalhadoras domésticas no Brasil, articulando a luta por reconhecimento profissional e direitos trabalhistas.
Ao aproximar essas histórias da formação literária, a Flup PE propõe uma reflexão sobre as experiências transmitidas entre gerações, as desigualdades sociais e as possibilidades de transformação por meio da educação e da escrita. A iniciativa busca incentivar mulheres de territórios historicamente marginalizados a registrar suas vivências e ampliar sua presença na produção literária.
Para Tarciana Portella, coordenadora da Flup PE, a formação de novos escritores e a abertura de caminhos para o mercado editorial são marcas importantes do festival. “A identificação de potenciais escritores que a Flup vem fazendo ao longo de seus 16 anos de existência, abrindo portas para que muitos deles cheguem ao mercado editorial, é um dos grandes trunfos e diferenciais deste evento. As publicações da Flup já são esperadas por olheiros e curadores de editoras, festivais e eventos, servindo como um termômetro da produção literária e intelectual das periferias do Brasil. Ao longo do ano, a Flup movimenta a cena periférica literária, a partir do Rio de Janeiro, e em 2025 tive a alegria e a responsabilidade de trazer para Pernambuco esta experiência”, comenta.
Criada em 2012, no Rio de Janeiro, a Festa Literária das Periferias desenvolve ações de formação que conectam literatura, memória, território e criação. O Selo Flup reúne mais de 40 publicações realizadas em parceria com diferentes instituições. Em Pernambuco, “As Filhas das Filhas das Filhas” marca o início desse percurso formativo, com a proposta de reunir novas vozes em uma coletânea de poemas e textos em prosa.
A Flup PE é realizada pelo Ministério da Cultura e pelo Instituto Delta Zero para o Desenvolvimento da Economia Criativa, em co-realização com a produtora Suave e a Associação Na Nave. O projeto conta com apoio da Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz.

