Uma mesa com café e bolo no Cruzeiro, um jogo de cartas na Rodoviária do Plano Piloto, flores distribuídas em paradas de ônibus da W3 Norte e ações organizadas por moradores de Santa Maria. No Distrito Federal, voluntários têm recorrido a diferentes estratégias para conversar com eleitores sobre a democracia e o que está em disputa no 2º turno da eleição entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
As iniciativas são organizadas por grupos de moradores, movimentos populares e jovens que decidiram participar da mobilização eleitoral por conta própria. As atividades incluem distribuição de panfletos, visitas de porta em porta, conversas em espaços públicos e materiais que apresentam propostas dos candidatos. As ações também envolvem a disputa pelo governo do Distrito Federal, entre Leandro Grass (PT) e Celina Leão (PP).
Café e conversa
A iniciativa “Café com Diálogo” surgiu após o primeiro turno, quando moradores do Cruzeiro decidiram se reunir para discutir formas de participar da disputa eleitoral. Cerca de 50 pessoas participaram de uma reunião para apresentar propostas de mobilização. Entre as ideias estavam visitas de porta em porta, distribuição de panfletos e uma mesa de café aberta a quem quisesse conversar.
As atividades começaram com cerca de dez participantes e passaram a ocorrer em diferentes pontos do Cruzeiro, além de áreas próximas, como Sudoeste e Octogonal. Os voluntários procuram locais de maior circulação, como pontos de ônibus, e alternam entre mesas fixas e abordagens com bandejas de café.
Um cartaz escrito “Você tá indeciso? Vem tomar um café e conversar” facilita a abordagem.
A mobilização também ganhou alcance nas redes sociais. Um dos vídeos publicados pelo grupo ultrapassou 500 mil visualizações. A repercussão levou outras pessoas a participarem ou reproduzirem a experiência em outros locais.

A mobilização também integra o trabalho do grupo Vira Votos, que reúne voluntários em diferentes regiões do Distrito Federal. Moradora do Lago Norte, Rayssa Lamounier participa de atividades no Cruzeiro, na Octogonal e no Sudoeste, com abordagens de porta em porta e iniciativas como o “Café com Diálogo”.
Para Rayssa, o objetivo das ações não é apenas convencer eleitores, mas estabelecer um espaço de escuta e troca de ideias. “O nosso trabalho não é pedir voto. Queremos ouvir as pessoas, entender suas preocupações, conhecer suas percepções sobre o cenário político atual e criar espaços para conversas respeitosas e esclarecedoras”, explica.
A voluntária também destaca a importância de respeitar as opiniões dos interlocutores e conduzir as abordagens com responsabilidade. “A gente acredita que a política também se constrói a partir da escuta, da troca de ideias e do contato direto com a realidade da população”, afirma.
Jogo de cartas
Na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, perto do Teatro Nacional, integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e de outros movimentos populares organizam a “Banquinha do Brasil”. A iniciativa utiliza materiais impressos e atividades interativas para iniciar conversas com passageiros, especialmente aqueles que ainda estão indecisos sobre o voto.
A proposta inclui uma identidade visual em verde e amarelo e o uso de roupas comuns. Segundo Isabela Avon, integrante do MAB, a estratégia busca evitar que as pessoas associem imediatamente a iniciativa a uma candidatura e se afastem da conversa.
“A gente está nesse esforço de tentar uma banquinha que se chama Banquinha do Brasil, em que a gente vai descaracterizado, de roupas normais, com uma estética meio verde e amarela, mais neutra, para não parecer que a gente está do lado do Flávio Bolsonaro”, afirma.
Entre os materiais utilizados está um jogo de cartas com afirmações sobre temas políticos e sociais. A pessoa avalia uma proposta e, ao virar a carta, encontra informações sobre quem a defende e um código QR. Um dos exemplos citados por Isabela é a redução da jornada de trabalho com dois dias de folga por semana, sem diminuição salarial.
A banquinha também distribui um jornal produzido pela Comunicação do MAB, intitulado “O Brasil não é quintal de ninguém”, além de materiais sobre a escala de trabalho 6×1. Os voluntários permanecem junto à mesa e também circulam pelas filas para convidar passageiros a participar do jogo.
Para Isabela, a abordagem permite desenvolver assuntos por mais tempo do que em ações de rua voltadas à divulgação de bandeiras e palavras de ordem.
“É muito importante essas mobilizações. A gente acredita que elas se somam às estratégias de agitação com bandeira para a campanha ser vista na rua e animar as pessoas. Mas também são importantes as campanhas que conversam com as pessoas. Às vezes você conversa com menos gente, mas por mais tempo”, diz.

Flores, música e cobrança
Na W3 Norte, um grupo de quatro pessoas organizou uma ação que combinou panfletagem, distribuição de flores, música e brincadeiras nas paradas de ônibus. O relato foi enviado ao Brasil de Fato DF por um participante que preferiu não se identificar.
Segundo o depoimento, os participantes foram às ruas fantasiados e distribuíram materiais com diferenças entre as propostas dos candidatos. A atividade também buscou chamar a atenção para a proposta mencionada por Lula de abrir os sigilos bancários e telefônicos dos candidatos à Presidência da República antes de domingo (25).
“Os manifestantes chegavam às paradas de ônibus e chamavam a atenção para um cartaz com a frase ‘1 dia e Flávio Bolsonaro ainda não quebrou o sigilo #AbreOSigiloFlavio’”, relata o participante.

A mobilização também acontece nas redes sociais. Aos 16 anos, Anne Guidorizzi, que vai votar pela primeira vez, criou com amigos a página “bora.jovens”, no Instagram, que reúne mais de 2 mil seguidores. O perfil divulga conteúdos favoráveis à candidatura de Lula, vídeos informativos e edições sobre a disputa eleitoral, além de abordar dúvidas de quem ainda está indeciso.
Nas ruas, os jovens costumam preparar café e bolo e convidar as pessoas a conversar sobre o segundo turno, principalmente na Rodoviária do Plano Piloto. “A gente pergunta se as pessoas querem tomar café com a gente e começamos a conversar sobre o voto no segundo turno”, conta Anne Guidorizzi.
Para a jovem, participar da mobilização é uma forma de estimular a reflexão sobre a escolha eleitoral e os direitos da população. “Eu acho que é importante para as pessoas terem a consciência e votarem pela garantia de seus direitos”, afirma.
Santa Maria
Em Santa Maria, moradores também formaram um grupo voluntário para mobilizar eleitores em torno das candidaturas de Lula à presidência e de Leandro Grass ao governo do DF. A articulação reúne estudantes e trabalhadores e, segundo a professora e bióloga Maria Eduarda Alves, organiza atividades de forma independente.
Entre as ações realizadas estão panfletagens, bandeiraços e uma carreata O grupo também utiliza materiais de campanha, jogos de cartas com afirmações e dinâmicas sobre propostas políticas, além de conversas com eleitores indecisos.
“De forma orgânica e voluntária, a população de Santa Maria se uniu em um grupo para eleger Leandro Grass e Lula. Coletivamente, criamos um espaço que une ideias e ação, sem partidarismo e independente. Realizamos juntos diversas atividades, como panfletagem, bandeiraço e inclusive uma carreata com mais de 80 carros”, relata.

Maria Eduarda afirma que as conversas partem de questões vividas pelos próprios moradores, como o acesso à saúde, à educação e ao transporte público.
“Estamos conversando com nossa população com muito respeito e verdade sobre os governos e as propostas dos candidatos. Sabemos exatamente onde dói, nós somos a população local de estudantes e trabalhadores, usuários da saúde, educação e do transporte público”, destaca Maria Eduarda.
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