Pessoas ligadas aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol), estão engajadas na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência, na reta final do segundo turno.
O advogado Cleber Lopes, que defende Chiquinho, publicou nas redes sociais registros de um evento da campanha com advogados e também uma foto, com a camisa da seleção brasileira, em que defende o voto no senador bolsonarista. Já Kaio Brazão, filho de Domingos, convocou apoiadores para um adesivaço em favor do candidato nesta terça-feira (20) no Rio de Janeiro (RJ).
Advogado em evento da campanha
Em stories publicados no perfil no Instagram, na segunda-feira (19), o Cleber Lopes mostra o encontro “Bate-papo com a advocacia”, com material de campanha de Flávio Bolsonaro e da governadora Celina Leão (PP), candidata ao governo do Distrito Federal. As publicações trazem legendas como “Advocacia firme rumo à vitória” e “Família unida”.
Lopes assumiu a defesa de Chiquinho em março de 2024. Em fevereiro deste ano, o deputado cassado e o irmão Domingos Brazão foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 76 anos e três meses de prisão cada como mandantes do assassinato de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.
O Brasil de Fato procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para comentar sobre os apoios, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto. Já a assessoria do advogado Cleber Lopes se manifestou e a nota pode ser encontrada no final do texto.
Herdeiro político do clã
Também nas redes sociais, Kaio Brazão, filho de Domingos, chamou apoiadores da família para um adesivaço pró-Flávio Bolsonaro na manhã desta terça (20), na Taquara, zona sudoeste do Rio. Apontado como herdeiro político do clã, ele tentou, sem sucesso, uma vaga de vereador na capital fluminense em 2024, pelo Republicanos.
Investigações da Polícia Federal (PF) apontaram que os irmãos Brazão atuavam com milicianos da região de Jacarepaguá em negócios como grilagem de terras. A Taquara, bairro escolhido para o ato, é uma das áreas sob influência dos grupos paramilitares ligados à família.

Quem são os irmãos Brazão
Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou, por unanimidade, Domingos e Chiquinho a 76 anos e três meses de prisão cada como mandantes do assassinato de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018. Os dois foram condenados por organização criminosa armada, duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio contra a assessora Fernanda Chaves, que sobreviveu ao atentado. Eles estão presos desde março de 2024.
Chiquinho, João Francisco Inácio Brazão, era deputado federal quando foi preso e teve o mandato cassado. Domingos foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).
Em julho deste ano, o ministro Flávio Dino, do STF, rejeitou um pedido da defesa de Chiquinho Brazão para anular a cassação de mandato de deputado federal do ex-parlamentar, declarada pela Câmara em 2025. Preso preventivamente à época, Chiquinho perdeu o cargo por abandono de mandato. Na decisão, Dino afirmou que a Constituição prevê apenas duas exceções à perda do mandato por ausência a mais de um terço das sessões ordinárias: licença ou missão autorizada pela própria Casa, situações que não se aplicavam ao caso.
Alianças antigas
A ligação entre Flávio Bolsonaro e o entorno dos Brazão vai além da campanha eleitoral. Flávio Bolsonaro e Domingos votavam com frequência juntos quando ambos eram deputados estaduais na Alerj. Em 2008, os dois foram os únicos votos contrários à criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, presidida por Marcelo Freixo, então no Psol.
Já na Câmara, o PL, partido do senador, se opôs à prisão de Chiquinho mesmo depois das revelações da PF. A maioria dos deputados que a legenda tinha à época votou para soltar o colega.
Emenda para ex-assessor de Domingos
Em 2023, conforme revelou o Estadão em reportagem publicada em setembro deste ano, Flávio Bolsonaro teria destinado quase R$ 200 mil em emendas parlamentares a uma organização não governamental (ONG) a pedido de Robson Calixto Fonseca, o Peixe, ex-assessor de Domingos. Calixto foi condenado no mesmo julgamento do STF a nove anos de prisão por organização criminosa.
De acordo com a reportagem, Calixto negociou a liberação diretamente com uma assessora de Flávio Bolsonaro no Senado, em outubro de 2023. Em novembro, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), ONG controlada por Calixto justamente na Taquara, recebeu os recursos.
Em nota à imprensa, o Ifop disse que “nunca” fez contato direto com Flávio, mas que a “assessoria especializada em gestão de projetos e apresentação” aos parlamentares esteve em “todos os gabinetes dos parlamentares, tanto do Senado quanto da Câmara”. A entidade afirma que os recursos obtidos por emendas vêm desses projetos apresentados, e não do relacionamento com deputados e senadores específicos.
Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda foi destinada “dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte”. Segundo o senador, a entidade apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. Ele também afirmou que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.
Não há declarações públicas da defesa de Robson Calixto Fonseca. O espaço está aberto para manifestação.
O que diz a defesa de Cleber Lopes
Em nota enviada ao Brasil de Fato, a assessoria do advogado Cleber Lopes afirmou que:
“Cleber Lopes atua há anos em defesa da advocacia do Distrito Federal. Disputou a última eleição da OAB/DF, presidiu Tribunal de Ética e Disciplina da instituição e foi professor da Escola Superior de Advocacia. Como a própria consulta registra, o “Bate-papo com a advocacia” foi dedicado às demandas e aos interesses da classe.
Em sua avaliação, os últimos quatro anos trouxeram dificuldades significativas à profissão, como entraves burocráticos e tecnológicos ao acesso à Justiça, especialmente às instâncias superiores, e a tributação da distribuição de lucros aos sócios, instituída no atual governo, com impactos sobre os integrantes de sociedades de advogados.
Essas preocupações fundamentam sua convicção de que é necessário mudar os rumos políticos do país. Seu apoio a Flávio Bolsonaro e Celina Leão expressa uma escolha pessoal e democrática, orientada também pelos interesses da advocacia, sem perder de vista as garantias fundamentais, o direito de defesa e o Estado Democrático de Direito.
Esse posicionamento não guarda relação com a defesa de Chiquinho Brazão nem com os interesses dos irmãos Brazão. O advogado não se confunde com seu cliente, e suas escolhas políticas não podem ser associadas aos crimes imputados às pessoas que representa.
É lamentável que uma manifestação legítima de cidadania receba um enquadramento que sugira culpa por associação, contribuindo para a estigmatização e a criminalização da advocacia criminal.”
