A Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem), a União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras 24 organizações estudantis de universidades federais divulgaram, nesta segunda-feira (19), um manifesto em defesa da educação pública e dos hospitais universitários (HUs). O documento critica propostas que, segundo os representantes, podem aumentar a dependência do Sistema Único de Saúde (SUS) em relação à iniciativa privada e comprometer o financiamento da assistência, da formação profissional e da pesquisa científica.
O texto aponta os hospitais universitários como estruturas estratégicas para o funcionamento do SUS e para a formação de profissionais da saúde. As unidades integram atendimento à população, ensino e pesquisa, e o manifesto argumenta que seu enfraquecimento pode afetar pacientes, estudantes, residentes, trabalhadores e pesquisadores.
Ao questionar a possibilidade de substituir investimentos na rede pública pela contratação de serviços privados, os representantes afirmam que essa estratégia pode transferir recursos e capacidade técnica para grandes grupos empresariais da saúde.
“O Estado não pode comprar continuamente a capacidade técnica e científica, transferir recursos, experiência e tecnologia ao mercado e condenar o SUS à dependência dos grandes conglomerados privados da Saúde. Contratar o aparelho privado ocioso não resolve a falta de estrutura do SUS; em contraponto, investir nos HUs cria atendimento, formação, pesquisa e soberania por gerações”, diz o documento.
Críticas, financiamento e autonomia
O manifesto também questiona propostas associadas ao bolsonarismo que prometem modernizar o atendimento por meio de tecnologias, como inteligência artificial, telessaúde e prontuários eletrônicos.
“Sem financiamento, trabalhadores e infraestrutura, o tal ‘hospital inteligente’ que o bolsonarismo promete vira apenas mais um prédio conectado à internet. E o ‘Brasil sem Fila’ pode acabar como um Brasil com a fila digitalizada: mais moderna na tela, igualmente dolorosa na vida real”, afirma o texto.
Os estudantes argumentam que a digitalização dos serviços não garante o aumento do acesso à saúde. O manifesto defende que a modernização seja acompanhada de investimentos capazes de ampliar a estrutura de atendimento e assegurar condições de trabalho às equipes.
O documento também critica a possibilidade de transferir a governança das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Quem pesquisará doenças negligenciadas, saúde indígena, racismo institucional, mortalidade materna, sofrimento mental ou desigualdades territoriais quando o critério dominante for retorno produtivo imediato? Ciência pública existe para enfrentar aquilo que não oferece lucro, mas tritura a vida do povo!”, questiona o manifesto.
Ao abordar a relação entre universidades, ciência e mercado de trabalho, o documento defende que a formação acadêmica não seja limitada às demandas econômicas imediatas. Os representantes sustentam que as instituições públicas devem preservar sua autonomia e produzir conhecimento voltado às necessidades da população.

O manifesto também faz críticas diretas ao bolsonarismo e à sua atuação na área da saúde. “O bolsonarismo está mentindo deliberadamente para o povo brasileiro: como vão fortalecer o SUS se ameaçam as condições que permitem fazê-lo funcionar? O mercado da saúde não quer ninguém saudável, pois ele lucra com a doença!”, afirma o texto.
Outra crítica recai sobre o lema “Mais Brasil, Menos Brasília”, associado à descentralização de responsabilidades. “Descentralizar responsabilidades sem assegurar financiamento transformará a autonomia local em abandono federal. O Brasil precisa de menos desigualdade, não de menos Estado justamente onde a população mais necessita dele”, diz o manifesto.
Mobilização
Como resposta aos riscos apontados, os representantes defendem a recuperação do financiamento das universidades federais, o aumento dos hospitais universitários e o fortalecimento da integração entre assistência, ensino, pesquisa e extensão. O texto também reivindica a valorização de trabalhadores e preceptores, a democratização da gestão e a participação de estudantes e usuários nas decisões.
O manifesto propõe a criação de comitês em defesa dos hospitais universitários nas instituições de ensino e convoca cursos da área da saúde a discutir com a sociedade a importância dessas unidades para o atendimento público e a formação profissional.
Na conclusão, o documento reforça a crítica às promessas de modernização que não venham acompanhadas de investimentos na estrutura do SUS. “Nenhum hospital inteligente sobrevive a uma política insensata, tola e feita por quem não conhece a vida real do povo brasileiro. Nenhum ‘Brasil sem Fila’ nascerá de um SUS enfraquecido e sucateado”, afirma o texto.
Além da Denem e da UNE, assinam o manifesto centros e diretórios acadêmicos de instituições como a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal do Pará (UFPA), entre outras.
Além da Denem e da UNE, o manifesto é assinado por centros acadêmicos, diretórios acadêmicos e diretórios centrais de estudantes de universidades federais, além da Rede Brasileira de Universidades Promotoras de Saúde (ReBraUPS).
Confira a lista completa:
- Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem)
- União Nacional dos Estudantes (UNE)
- Centro Acadêmico XII de Maio (CA XII de Maio), Universidade Federal do Ceará (UFC).
- Centro Acadêmico Carlos Chagas (CACC), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
- Centro Acadêmico de Medicina (Csmed), Universidade Federal de Sergipe (UFS).
- Centro Acadêmico de Medicina Professor Gilberto de Freitas (Camed), Universidade de Brasília (UnB)
- Centro Acadêmico de Medicina do Oeste do Pará (Camopa), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa)
- Centro Acadêmico de Medicina Sérgio Arouca (Camsa), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
- Centro Acadêmico de Medicina (Camufro), Universidade Federal de Rondônia (Unir).
- Centro Acadêmico Pereira Barretto (CAPB), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
- Centro Acadêmico Sarmento Leite (CASL), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
- Centro Acadêmico Sebastião da Hora (CASH), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
- Diretório Acadêmico Hésio Cordeiro (DAHC), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
- Diretório Acadêmico (DAFB), Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
- Diretório Acadêmico (DAFB), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
- Diretório Acadêmico Dr. Francisco Cavalcanti Mangabeira (Dafram), Universidade Federal do Acre (Ufac).
- Diretório Acadêmico de Medicina (DAM), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
- Diretório Acadêmico de Medicina (DAM), Universidade Federal de Sergipe, campus Lagarto (UFS).
- Diretório Acadêmico de Medicina Bettina Ferro de Souza (DAMBFS), Universidade Federal do Pará (UFPA).
- Diretório Acadêmico de Medicina (Damed), Universidade Federal da Bahia (UFBA).
- Diretório Acadêmico de Medicina Umberto Câmara Neto (Damuc), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
- Diretório Acadêmico Nilo Cairo (Danc), Universidade Federal do Paraná (UFPR).
- Diretório Central dos Estudantes (DCE), Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
- Diretório Central dos Estudantes (DCE), Universidade de Brasília (UnB).
- Diretório Central dos Estudantes (DCE), Universidade Federal do Pará (UFPA).
- Rede Brasileira de Universidades Promotoras de Saúde (ReBraUPS).
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