MATRIZ AFRICANA

Saberes ancestrais e ações afirmativas são tema do quinto episódio do podcast Vozes e Territórios

Eliane Almeida de Souza, conhecida como Mãe Negrita de Oyá, aborda a relação entre conhecimento e tradição

Nesta quinta-feira (22), às 19h, programa apresentado por Iya Vera Soares traz conversa com Mãe Negrita de Oyá, nome de terreiro de Eliane Almeida de Souza
Nesta quinta-feira (22), às 19h, programa apresentado por Iya Vera Soares traz conversa com Mãe Negrita de Oyá, nome de terreiro de Eliane Almeida de Souza | Crédito: Katia Marko

O podcast Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios apresenta, em seu quinto episódio, nesta quinta-feira (22), às 19h, entrevista com Mãe Negrita de Oyá, nome de terreiro de Eliane Almeida de Souza. Com atuação junto ao Instituto Apakani, ela fala sobre a relação entre os conhecimentos produzidos na universidade e os saberes desenvolvidos dentro dos terreiros, além de abordar sua trajetória na luta pelas ações afirmativas.

Apresentado por Iyá Vera Soares, o programa pode ser assistido no YouTube da TV Josimo, do Brasil de Fato RS e nacional e no Vida no Sul. O podcast também será exibido nas sextas-feiras, às 11h, na TV Mais.

Negrita de Oyá ressalta que sua educação acadêmica esteve conectada à experiência nas comunidades de matriz africana. De acordo com ela, a universidade proporcionou o acesso a conceitos e teorias que auxiliaram na compreensão e organização dos saberes cotidianos dos terreiros. Com base nessa vivência, conduziu estudos ligados à educação ambiental, à ancestralidade e às práticas das comunidades tradicionais.

Ao longo do episódio, Negrita também apresenta a ideia de “Pedagogia Cosmocena”, proposta que visa valorizar as práticas de compartilhamento de conhecimentos nas comunidades de matriz africana, englobando a conexão entre gerações distintas, a espiritualidade e os saberes ancestrais.

Outro tema destacado é a presença da população negra nas universidades. Negrita relata sua experiência na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde ingressou no mestrado em 2007, período marcado pelas discussões sobre cotas e ações afirmativas. Ela conta que participou do processo de implementação das políticas de acesso e permanência para estudantes negros e outros grupos historicamente excluídos.

A pesquisadora também acompanhou estudantes cotistas ao longo de dez anos. De acordo com a pesquisa apresentada por ela, os alunos entrevistados deram continuidade à formação acadêmica após a graduação, ingressando em cursos de mestrado e doutorado. Ao mesmo tempo, os estudantes relataram ter enfrentado situações de preconceito dentro da universidade.

Para Negrita de Oyá, a presença de estudantes e pesquisadores negros nesses espaços também contribui para mudar a forma como a história e os conhecimentos da população negra são abordados. Ela defende que a academia deixe de apenas falar sobre essas comunidades e passe a dialogar diretamente com elas, reconhecendo seus conhecimentos e experiências.

Registro e valorização dos saberes

A necessidade de registrar os conhecimentos das comunidades de matriz africana também é destacada no episódio. Negrita afirma que a tradição é transmitida principalmente pela oralidade, mas considera importante ampliar esse registro por meio da escrita e de outras formas de documentação.

Ela também defende a valorização de autores e pesquisadores negros na produção acadêmica e a reconstrução da história da população negra a partir de suas próprias perspectivas. “Esse processo está relacionado à preservação da identidade, da cultura e da memória dessas comunidades”, destaca.

Ao abordar as ações afirmativas, a entrevistada afirma que as políticas de cotas representam uma etapa importante, mas não encerram o processo de enfrentamento das desigualdades históricas. Para ela, a discussão precisa avançar para medidas de reparação e para a ampliação da presença da população negra nos diferentes espaços da sociedade.

O projeto Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios é uma realização do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), por meio do Termo de Fomento nº 973281 do Ministério da Igualdade Racial do Governo Federal, com correalização do Brasil de Fato RS. Em 12 episódios, percorre temas como visão de mundo africana, saúde pública, mudanças climáticas, ervas medicinais, economia solidária, cooperativismo negro, cultura ancestral e educação de matriz africana. Cada programa parte de uma conversa com uma convidada ou convidado que atua diretamente com o tema abordado, unindo vivência de terreiro, produção acadêmica e militância política.

Editado por: Katia Marko

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