O debate de domingo (18) produziu muitas acusações, mas deixou uma questão que somente o exame dos documentos poderá esclarecer: o que os sigilos bancários, fiscais e telefônicos poderiam revelar? Depois dos ataques de Flávio Bolsonaro contra ele e sua família, Lula (PT) propôs que ambos abrissem seus sigilos, incluindo familiares e empresas. Nesta terça-feira, protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma autorização condicionada à reciprocidade do adversário. O confronto eleitoral tornou-se um compromisso formal, diante do qual Flávio precisa se posicionar.
A proposta abrange os últimos oito anos. Em uma campanha na qual acusações circulam mais depressa que suas verificações, importa saber se as afirmações dos candidatos resistem ao exame dos registros. Lula deslocou a disputa do terreno das suspeitas para o da prestação de contas. Flávio aceitará acompanhá-lo?
Há razões para que essa resposta desperte especial interesse. As rachadinhas e as relações políticas de Flávio com personagens ligados às milícias já suscitam questões sobre sua trajetória. Somam-se a elas as controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro e o advogado Willer Tomaz, além de possíveis vínculos com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), preso nas investigações sobre o Banco Master.
Que relações Flávio manteve com essas pessoas? Houve negócios, empréstimos, benefícios financeiros ou participações societárias não declaradas? E se os documentos revelassem que ele foi ou continua sendo sócio de algum desses personagens? Como os eleitores avaliariam essa informação diante dos negócios e interesses envolvidos?
As perguntas alcançam também a família e seu patrimônio. Como foram constituídos seus bens? Que relações econômicas mantiveram com empresas e pessoas envolvidas nessas controvérsias? Houve transferências de recursos, intermediação de negócios ou beneficiários desconhecidos? O exame dessas movimentações poderia revelar interesses patrimoniais por trás de vínculos apresentados como pessoais.
O financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro torna essa distinção especialmente importante. A negociação envolvendo R$ 134 milhões suscita perguntas incontornáveis: por que um valor tão elevado e quais seriam os interesses de Daniel Vorcaro? De onde viriam os recursos, por quais empresas passariam e quanto foi efetivamente transferido? Quem recebeu, quem se beneficiou e qual teria sido a participação de Flávio e de seus familiares?
Conhecer a origem, a movimentação e o destino do dinheiro permitiria esclarecer a natureza dessa operação. Até aqui, o candidato não respondeu satisfatoriamente a essas perguntas. Sem esclarecimentos documentais, a discussão permanece prisioneira de versões que levantam suspeitas de lavagem de dinheiro e de desmentidos que não enfrentam as questões essenciais.
Flávio declarou que nada tem a esconder, mas não assumiu o compromisso proposto. Segundo a imprensa, integrantes de sua campanha classificaram a iniciativa como uma armadilha eleitoral. Onde estaria a armadilha, se ambos fossem submetidos aos mesmos critérios, respeitados os direitos legais dos envolvidos? Se há objeções legítimas, que sejam apresentadas com clareza. Estaria Flávio enganando seus eleitores e o Brasil?
A resposta exige fatos verificáveis, não impressões ou suspeitas. A democracia não exige que ninguém prove inocência diante de acusações sem fundamento, mas exige responsabilidade de quem acusa e disposição de quem pretende governar para esclarecer questões de interesse público.
A confiança dos eleitores não substitui o exame das relações financeiras e dos interesses que podem alcançar o exercício do poder.
Lula lançou o desafio e formalizou sua parte. Flávio precisa responder sem desculpas ou manobras destinadas a esvaziar a proposta. Se aceitar a reciprocidade, que cumpra integralmente o compromisso, abrangendo os oito anos, os familiares e as empresas previstos. A sociedade tem o direito de exigir essa resposta antes de decidir nas urnas. O voto é secreto. A responsabilidade de quem pretende governar não pode ser.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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