Imperialismo

Cuba denuncia pressões dos EUA para que países não votem contra o bloqueio na ONU

Chanceler Bruno Rodríguez denuncia ameaças de sanções e chantagem contra governos às vésperas da votação na ONU

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, gesticula durante coletiva de imprensa em que denunciou as “ações extremas” dos Estados Unidos para enfraquecer o apoio à votação na ONU contra o bloqueio, em Havana, em 21 de outubro de 2026.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, gesticula durante coletiva de imprensa em que denunciou as “ações extremas” dos Estados Unidos para enfraquecer o apoio à votação na ONU contra o bloqueio | Crédito: Yamil Lage/AFP

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, afirmou que o governo dos Estados Unidos vem ameaçando outros países há meses para impedir que votem a favor da resolução que exige o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba.

Durante uma coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (21), Rodríguez classificou as ações de Washington como “extremas e inéditas”. Também afirmou que o governo cubano tem provas de que os Estados Unidos vêm ameaçando diferentes delegações há meses, para que mudem sua posição em relação à resolução.

Segundo o chanceler, as “pressões e ameaças” são “conduzidas pessoalmente pelo secretário de Estado e por seu representante na ONU”, em referência direta a Marco Rubio e Mike Waltz.

Rodríguez advertiu que o debate e a votação, previstos para os dias 27 e 28 de outubro, ocorrerão em “condições incomuns”. Por um lado, mencionou a asfixia energética e o aumento das chamadas “sanções secundárias” que Cuba enfrenta desde o início do ano.

Por outro lado, denunciou a “ofensiva de pressões políticas, intimidações, coerção e chantagem que o governo dos EUA desencadeou para mudar o voto de muitas delegações ou obrigá-las a votar contra suas próprias posições”.

Segundo Rodríguez, Washington pretende quebrar o apoio histórico e quase unânime da comunidade internacional a Cuba. Desde 1992, Havana apresenta ininterruptamente à Assembleia Geral da ONU a resolução sobre a “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro” ao país. Desde então, a iniciativa foi aprovada em 33 ocasiões consecutivas por ampla maioria da comunidade internacional.

Os Estados Unidos e Israel são os únicos dois países que mantêm um voto contrário de forma permanente e invariável. Israel, além disso, é o Estado-membro da ONU que acumula o maior número de resoluções da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança descumpridas ou desrespeitadas na história da organização, relacionadas à situação dos territórios ocupados, aos assentamentos e ao direito internacional.

Terceirizar as ameaças

“Por mais ridículo que possa parecer, chegou ao ponto de sugerir a alguns países que se abstenham ou, em última instância, deixem de comparecer à votação caso não possam votar contra Cuba”, afirmou Rodríguez.

O chanceler classificou essas manobras como “uma nova e perigosa forma de interferir na diplomacia multilateral” e as considerou um reflexo “da impotência de alguém que está errado, cuja única opção disponível é o uso da força”.

Como prova de suas denúncias, Rodríguez mostrou um documento que, segundo afirmou, teria sido colocado em circulação pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, embora não o tenha distribuído à imprensa. Segundo sua descrição, o texto instaria os governos a rejeitar a “propaganda cubana” e responsabilizaria o governo de Havana pelos danos humanitários causados pelo bloqueio.

Rodríguez também afirmou que vários países foram ameaçados com possíveis sanções caso apoiassem a resolução cubana. Segundo o chanceler, essas medidas poderiam ser dirigidas contra governos, empresas e até mesmo indivíduos.

Além disso, denunciou que Washington tentou convencer vários países a assumir um papel de liderança na tentativa de persuadir outros governos a mudar sua posição em relação à resolução. Essas declarações coincidem com recentes contatos diplomáticos de Washington com governos latino-americanos, nos quais a coordenação na ONU aparece entre os assuntos discutidos.

Na terça-feira, 13 de outubro, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, conversou por telefone com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, para “reafirmar a sólida aliança entre os dois países”.

Segundo o comunicado publicado pelo Departamento de Estado, a conversa incluiu a coordenação diplomática nas Nações Unidas em torno da resolução sobre Cuba. O documento afirma que Rubio pediu a Bukele que El Salvador se unisse aos Estados Unidos e a seus “parceiros que compartilham das mesmas ideias”, para promover prioridades comuns.

O secretário de Estado argumentou que Cuba “não faria as reformas que seu povo merece” enquanto contasse com o apoio da comunidade internacional.

Mudanças no voto contra o bloqueio

Não é a primeira vez que Cuba denuncia esse tipo de hostilidade. Em 2025, Rodríguez já havia alertado que Washington buscava impedir, por meio de pressões, a votação sobre o bloqueio contra Cuba, sob o argumento de que a ilha representava uma “ameaça aos Estados Unidos”.

Em outubro daquele ano, a resolução apresentada por Havana recebeu 165 votos a favor, sete contra e 12 abstenções. O resultado representou uma mudança significativa em relação ao ano anterior, quando a iniciativa havia obtido quase a totalidade dos votos favoráveis.

Entre os países que votaram contra estavam Paraguai e Argentina, que mudaram pela primeira vez suas posições históricas em relação à iniciativa.

O governo paraguaio justificou a mudança de posição argumentando que as resoluções anuais “não haviam produzido resultados” em favor da abertura democrática em Cuba. Apresentou sua decisão como uma posição “contra o regime e a favor do povo cubano”.

A Argentina, por sua vez, rompeu com uma posição que havia mantido por mais de três décadas. A mudança teve um antecedente em 2024, quando o presidente Javier Milei destituiu a chanceler argentina Diana Mondino, que havia votado a favor do fim do bloqueio, mantendo assim a posição histórica do país sul-americano.

Milei justificou a decisão afirmando que a política externa argentina deveria “se alinhar estritamente aos Estados Unidos e a Israel”.

Editado por: Rodrigo Gomes

|

Newsletter