Cinco anos antes de assumir o comando da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, o policial Edson Raimundo dos Santos foi agraciado com uma homenagem na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O autor da moção de louvor foi o então deputado Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República pelo PL.
O policial foi um dos principais condenados pela morte do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, em julho de 2013, na Rocinha. Quando recebeu a moção pelos serviços prestados ao estado do Rio, em 2008, Raimundo dos Santos era capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope).
A prática de homenagear policiais marcou a trajetória de Flávio no parlamento fluminense. Um levantamento realizado pela revista Piauí nos registros da Alerj revelou que Flávio Bolsonaro aprovou moções e medalhas para pelo menos 23 policiais civis, militares e integrantes das Forças Armadas que se tornaram réus ou foram condenados na Justiça por crimes que vão de homicídio a corrupção e desvio de verbas públicas.
Caso Amarildo
Na época do desaparecimento, Flávio acusou o ajudante de pedreiro de tráfico com base em uma escuta forjada. O trecho do discurso foi recuperado pelo advogado e ex-Ouvidor-Geral da Defensoria Pública, Guilherme Pimentel, que atuou no caso Amarildo.
“Se o Amarildo não tivesse sumido, era pra ele estar preso. […] Entre dezenas de outras provas, há escutas mostrando conversas de traficantes com Amarildo. Em um dos vários grampos, um traficante comenta ‘o boi [Amarildo] tá falando demais’”, disse Flávio.
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A perícia depois revelou que o áudio citado na tribuna da Alerj se tratava de um policial fazendo uma encenação. O objetivo era transferir para supostos traficantes a responsabilidade pela morte.
“Já naquela época ele disseminava fake news de uma escuta forjada. A aliança bolsonarista não é sobre segurança pública. É sobre aparelhar o Estado brasileiro para lucrar com dinheiro, votos e poder em cima do derramamento de sangue nas periferias e do sofrimento das famílias brasileiras”, afirma Pimentel.
Relembre
Amarildo foi sequestrado, torturado e assassinado por policiais militares da UPP em 14 de julho de 2013. O caso mobilizou a sociedade civil e marcou o início da derrocada da política de segurança no Rio de Janeiro baseada no modelo das UPPs.
Segundo reportagem do jornal O Globo, de julho deste ano, o major Edson Santos cumpre em regime aberto as penas de 16 anos e três meses pelos crimes de tortura seguida de morte e ocultação de cadáver e quatro anos por corrupção de testemunhas. Em setembro de 2024, ele foi transferido para a reserva e recebe aposentadoria pelo Estado.
Já o tenente Luiz Felipe de Medeiros terminou de cumprir a pena de dez anos e sete meses a que foi condenado e voltou a trabalhar. A corporação informou que ele “atua na área administrativa” e não participa de operações.
Uma motociata de campanha de Flávio Bolsonaro depois do 1º turno, realizada em São Gonçalo, na região metropolitana, teve como um dos puxadores o ex-soldado da Polícia Militar Douglas Vital, conhecido como Douglas Macaco, também condenado no caso Amarildo. A informação foi divulgada pelo portal 247 no dia seguinte ao ato, em 11 de outubro.

