A quatro dias da votação do segundo turno das Eleições 2026, a Bahia encerra três semanas marcadas por intensa movimentação política nas ruas. Em Salvador e em municípios do interior, as mobilizações reuniram movimentos populares, sindicatos, estudantes e artistas em um calendário que articulou a defesa da democracia, da soberania e da educação.
Na última quinta-feira (15), Dia dos Professores, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) sediou uma aula magna sobre os desafios e o futuro da educação, logo após, a comunidade acadêmica realizou uma caminhada unificada da reitoria até a Praça Castro Alves. Já no domingo (18), uma multidão ocupou o circuito Ondina–Barra acompanhada por artistas como Daniela Mercury, Gilberto Gil, BaianaSystem, Rachel Reis, Baco Exu do Blues e O Kanalha.
Para além das manifestações festivas, o setor educacional assumiu papel central nos debates do período. Docentes do ensino superior, da rede básica estadual e lideranças parlamentares recém-eleitas analisam o que está em jogo nas urnas para o orçamento, a autonomia científica e o cotidiano das escolas públicas.
Ciência, soberania e resistência ao obscurantismo
Para a professora Raquel Nery, presidenta da Apub Sindicato, a defesa das instituições públicas de ensino transcende pautas corporativas e incide diretamente sobre o modelo de desenvolvimento soberano do país. “As universidades públicas são responsáveis por mais de 90% da produção científica do país. Essa produção está articulada a demandas fundamentais de uma sociedade moderna e democrática: formação de professores, tecnologias agrícolas para segurança alimentar, infraestrutura, saúde, enfrentamento à emergência climática e artes. Tudo isso fornece sustentação à nossa soberania, que é a capacidade de escolher e determinar o que fazemos para resolver nossas questões, sem dependência de interesses estranhos à nossa realidade. Não existe soberania sem conhecimento”, ressalta Nery.
A dirigente sindical também denuncia a hipocrisia e o avanço de setores reacionários sobre as liberdades individuais e acadêmicas. “Essas forças negam a ciência, embora usufruam continuamente dela: discursam contra vacinas, mas não recusam os tratamentos das doenças que elas evitariam. Negam a ação predatória sobre a natureza, mas empurram os mais vulneráveis para as catástrofes climáticas. Sequestraram a palavra Liberdade para tentar suprimir direitos conquistados em nome dela. Sem liberdade e sem subjetividades emancipadas, não há espaço para a dúvida ou para a autonomia científica”.
Para Nery, a atuação docente na reta final de campanha é pedagógica e cidadã. “A democracia não é um destino, é uma tarefa, e no caso dos professores, certamente a mais importante. Nenhum docente pode impor sua posição política a quem quer que seja, mas é um exercício fundamental tentar, pela palavra e pelo discurso racional e afetivo, disputar consciências para o benefício de toda a sociedade”, destaca.

A escola pública contra a desigualdade
Na educação básica, a percepção de que a atuação profissional não se descola da conjuntura é imediata. Fabio Nunes, professor de biologia da rede estadual, enfatiza que a sala de aula reflete as fraturas econômicas do país e descarta qualquer neutralidade. “A educação nunca foi uma questão neutra, isolada da realidade política e social. Nós convivemos diariamente com as consequências das desigualdades sociais e com as dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora para garantir que seus filhos tenham acesso a uma escola de qualidade. Não podemos ficar indiferentes às decisões políticas que afetam as novas gerações”, comenta.
O docente reforça que ocupar as ruas impede a mercantilização do direito fundamental à educação. “Ocupar as ruas é afirmar que a educação não pode ser tratada apenas como despesa nos orçamentos públicos, nem ficar submetida aos interesses do mercado. A educação é um direito e uma condição básica para a cidadania. Sabemos o que acontece quando setores autoritários tentam deslegitimar o pensamento crítico. Por isso, defender a democracia significa resguardar a liberdade de ensinar e a pluralidade de ideias nas salas de aula”,
Permanência estudantil e representação na ALBA
Recém-eleita deputada estadual, a professora e ex-secretária de Educação da Bahia, Rowenna Brito, aponta a interiorização dos atos como aspecto crucial para confrontar as disparidades regionais. “A defesa da democracia e da educação precisa representar a realidade de toda a Bahia, e não apenas de quem consegue ocupar o centro de Salvador. É nos territórios que encontramos professores enfrentando dificuldades estruturais, estudantes lutando para permanecer na escola e comunidades que dependem dos serviços públicos. Não podemos falar em democracia sem participação popular, nem em educação de qualidade sem encarar essas desigualdades”, pontua.

Ao projetar os desafios, Brito alerta que a prioridade deve ser garantir condições concretas de sobrevivência acadêmica aos alunos mais pobres. “Não estamos tratando de números frios no orçamento, mas de vidas e oportunidades. Não basta garantir a matrícula: precisamos assegurar condições para que cada estudante permaneça na escola, aprenda e tenha a chance de chegar à universidade. Isso exige investimento contínuo e enfrentamento direto às desigualdades”.
Sobre o mandato que assumirá na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), a parlamentar eleita afirma que sua bancada será uma extensão das lutas travadas nas ruas. “Chego à ALBA com a força dos movimentos sociais e o compromisso com a educação pública como direito, não privilégio. As portas do mandato estarão abertas para sindicatos, estudantes e comunidades. A rua mobiliza, a política precisa responder e o mandato tem que transformar. Vou ocupar a tribuna para disputar orçamento e cobrar que os compromissos saiam do papel”, conclui.
Com a votação decisiva marcada para o próximo domingo (25), as categorias educacionais concluem as jornadas de mobilização reafirmando que a vigilância e a organização comunitária permanecerão ativas independentemente do desfecho eleitoral.

