O pensamento dos funcionários deve estar voltado para “as soluções”, e não para as “justificativas”, afirmou, nesta quarta-feira (21), o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, durante a terceira edição do programa de rádio Criterio Compartido.
Durante o programa, o presidente recebe reclamações e ouve as preocupações da população, em um esforço para estabelecer um diálogo direto com o povo. Esta edição foi dedicada à atenção às pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade, bem como às transformações pelas quais o país vem passando na área da seguridade social.
Díaz-Canel abordou o caso de uma mãe cujo filho tem deficiência e necessita de cuidados especiais. A mulher havia telefonado para o programa anterior para relatar sua situação e explicar que, devido a problemas burocráticos e à má gestão, não conseguia ser reconhecida como cuidadora do filho.
Em Cuba, o Estado não apenas oferece subsídios assistenciais às pessoas com deficiência, mas também reconhece o cuidado de pessoas com deficiência severa como um trabalho formal remunerado. Dessa forma, um familiar direto pode ser “contratado” pelo Estado para se dedicar aos cuidados da pessoa que necessitar desse acompanhamento.
No caso de idosos ou de pessoas com deficiência que não contam com familiares em condições de cuidar deles, o Estado oferece o Serviço de Assistente Social em Domicílio, regulamentado no âmbito do Sistema Nacional de Cuidado Integral.
Após a participação da mulher no programa, representantes do Ministério do Trabalho e da Seguridade Social a visitaram e aprovaram a prestação do serviço de assistente social em domicílio, o que permitirá que ela se dedique formalmente aos cuidados do filho. A criança também recebeu uma cadeira de rodas doada pelo projeto sociocultural Quisicuaba.
Burocracia estatal
Díaz-Canel afirmou que o governo e o Estado deveriam se empenhar em encontrar mecanismos que permitissem responder aos problemas da população. “Se existe uma norma que nos impeça de atender a uma situação específica, é preciso buscar uma exceção à norma, a partir de sua interpretação, ou mudar a norma”, declarou.
A burocracia estatal é um dos graves problemas que Cuba enfrenta há anos e faz parte de uma realidade cotidiana que, por vezes, torna o dia a dia sufocante. A cultura cubana retratou essa realidade com excepcional eloquência: desde “A Morte de um Burocrata”, comédia de humor negro de 1966 dirigida pelo genial Tomás Gutiérrez Alea, que narra a história de uma viúva que precisa obter um documento de seu falecido marido, até “Conducta”, drama comovente de 2014 no qual uma professora luta contra um diretor que pretende enviar uma criança para um centro correcional.
Nos últimos tempos, diante das sérias dificuldades enfrentadas pela ilha, Díaz-Canel tem insistido na necessidade de ampliar a participação popular, tanto na tomada de decisões quanto na busca e implementação de possíveis soluções. Juntamente com as visitas semanais que realiza a diferentes comunidades para dialogar com a população, o programa de rádio faz parte desses esforços do governo.
Nesse contexto, o presidente afirmou que o caso da mulher que solicitava ser reconhecida como cuidadora do próprio filho deveria ser “um chamado à sensibilidade diante dos problemas que afetam uma pessoa ou uma família, e isso precisa ser feito com agilidade, sem entraves, com o pensamento voltado para as soluções, e não para as justificativas”.
Uma vulnerabilidade crescente
Durante o programa, Díaz-Canel conversou com o ministro do Trabalho e da Seguridade Social, Jesús Otamendiz Campos, que informou que, até o fim de setembro de 2026, mais de 883 mil pessoas estavam registradas em situação de “vulnerabilidade”.
O governo cubano utiliza a categoria “pessoas em situação de vulnerabilidade” para se referir a idosos que vivem sozinhos, mães de famílias numerosas sem renda suficiente, pessoas com deficiência severa e famílias que vivem em moradias precárias e necessitam de subsídios ou assistência.
Embora exista um debate na ilha sobre se essa metodologia subestima a pobreza existente, os números oficiais indicam que aproximadamente uma em cada dez pessoas vive atualmente em situação de pobreza extrema. Trata-se de uma transformação muito significativa para um país que historicamente manteve alguns dos mais altos níveis de proteção, integração e igualdade social da América Latina e do Caribe.
Campos afirmou que atualmente são implementados, em Cuba, cerca de 32 programas sociais voltados para pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade.
Embora tenha sido reconhecido que esses programas são insuficientes para enfrentar as carências que o país atravessa, em grande medida decorrentes da guerra econômica, também foi anunciada a criação de três grupos de trabalho, coordenados por vice-ministros, para atender casos em Havana e entregar alimentos às pessoas identificadas como em situação de maior vulnerabilidade.

