EDUCAÇÃO SOB PRESSÃO

Professores do DF paralisam atividades e protestam contra governo de Celina Leão

Ato nesta quarta (21) na Praça do Buriti reuniu docentes, estudantes, parlamentares e movimentos sindicais

Participantes acompanharam a mobilização em frente à sede do governo distrital, com cartazes e palavras de ordem em defesa da educação pública
Participantes acompanharam a mobilização em frente à sede do governo distrital, com cartazes e palavras de ordem em defesa da educação pública | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Professores da rede pública do Distrito Federal paralisaram as atividades nesta quarta-feira (21) e realizaram um ato na Praça do Buriti, em Brasília, contra medidas do governo de Celina Leão (PP) na educação. A mobilização, convocada pelo Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), reuniu docentes, estudantes, parlamentares e representantes de organizações sindicais em defesa da gestão democrática, da autonomia pedagógica das escolas e da valorização da carreira do magistério.

Durante a manifestação, participantes entoaram palavras de ordem contra a governadora, entre elas “Celina Leão, seu lugar é na prisão”. A manifestação ocorre quatro dias antes do segundo turno das eleições para o governo do DF, disputado por Celina e Leandro Grass (PT), e também foi marcada por críticas à condução da política educacional e cobranças por diálogo com a categoria.

Entre as principais reivindicações estão o fim das interferências no planejamento pedagógico, o respeito à liberdade de cátedra, a discussão do calendário escolar de 2027, o andamento do concurso de remanejamento e melhores condições de trabalho nas unidades de ensino.

A categoria também critica a orientação para retirar cartazes sindicais relacionados ao caso BRB-Master de escolas públicas. O sindicato considera a medida uma forma de censura e questiona a imposição de um cronograma de atividades pedagógicas sem participação das comunidades escolares.

“Estamos aqui para reivindicar e defender a gestão democrática. Não a esse projeto interventivo que foi colocado à revelia nas escolas e não à censura da afixação de cartazes sindicais. Defendemos o currículo em movimento, a liberdade de cátedra e o respeito ao projeto político-pedagógico das escolas. Não arredaremos o pé até que a gestão democrática seja respeitada”, afirmou Márcia Gilda, diretora do Sinpro-DF.

Márcia Gilda, diretora do Sinpro-DF, defendeu a autonomia pedagógica e a gestão democrática nas escolas públicas
Márcia Gilda, diretora do Sinpro-DF, defendeu a autonomia pedagógica e a gestão democrática nas escolas públicas | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Imposições nas escolas

A secretária da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF), Thaísa Magalhães, afirmou que as medidas adotadas pela Secretaria de Educação desde a chegada do secretário Thiago Peixoto têm provocado preocupação entre os profissionais.

“Quando ele chegou [Secretário de Educação do DF, Thiago Peixoto], a primeira coisa que fez foi extinguir núcleos importantíssimos para os temas transversais da educação, ligados aos direitos humanos, ao meio ambiente e às linguagens. Com muita luta, a gente conseguiu trazer esses núcleos de volta, mas, semana a semana, houve tentativas de retirar direitos”, declarou a secretária.

A sindicalista também apontou atrasos no remanejamento de professores e nas discussões sobre o calendário escolar, além de questionar a imposição de datas e materiais pedagógicos às unidades de ensino.

“As escolas agora estão sofrendo imposições de datas e materiais que passam por cima da liberdade de cátedra e da organização escolar. A organização das escolas é garantida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e pela Lei da Gestão Democrática. Em dois meses, o autoritarismo foi maior do que nos últimos 20 anos”, declarou Thaísa.

Thaísa Magalhães (ao centro, de boné roxo) participa do ato ao lado de professores, estudantes e representantes sindicais
Thaísa Magalhães (ao centro, de boné roxo) participa do ato ao lado de professores, estudantes e representantes sindicais | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

Para Samuel Fernandes, também diretor do Sinpro-DF, o cenário tem contribuído para o adoecimento dos profissionais. “O professor está adoecendo a todo momento porque não aguenta mais. Nós não aguentamos mais esse autoritarismo. Esse ato é justamente para mostrar que precisamos de diálogo, que somos contra o autoritarismo e que estamos juntos por melhorias na educação. Precisamos de condições de trabalho para os professores e de melhores condições de ensino para os alunos”, afirmou.

O presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, também questionou o momento em que as medidas foram adotadas e afirmou que o projeto do governo interfere no planejamento pedagógico e na atuação dos docentes em sala de aula.

“Acontece porque, durante o período eleitoral, para parecer que está fazendo mudanças, ela [Celina Leão] apresenta um projeto interventivo na educação do Distrito Federal, interferindo na pedagogia, na sala de aula e no planejamento dos professores. Escola não é lugar de autoritarismo”, disse.

O Brasil de Fato DF procurou o Governo do Distrito Federal (GDF) para solicitar um posicionamento sobre as críticas e reivindicações apresentadas durante o ato, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.

Antes da mobilização, a governadora e candidata à reeleição, Celina Leão, publicou um vídeo nas redes sociais em que criticou a realização do ato. “Você acredita mesmo que, a quatro dias da eleição, esse é o momento de levar suas reivindicações ao Palácio do Buriti? Não seria melhor pedir uma audiência uma semana depois da votação para discutir seu salário e sua remuneração?”, questionou a governadora.

No vídeo, Celina acusou o sindicato de tratar a categoria como ideológica e partidária e classificou a paralisação como uma ação com “fins político-eleitoreiros”. A governadora também afirmou que o gabinete está aberto para receber os profissionais. “O próprio Sinpro sabe que o nosso gabinete está de portas abertas. O que a gente não pode confundir é a política eleitoral com a política da educação”, declarou.

Falta de apoio e problemas estruturais

Além das críticas à gestão educacional, os participantes destacaram problemas relacionados à segurança nas escolas, à falta de profissionais e às condições de atendimento aos estudantes. Andreia Lopes, professora de atividades e pedagoga da equipe de atendimento educacional, relatou que está afastada do trabalho após ser agredida por um estudante durante um atendimento em sala de aula.

“Eu estou de atestado médico porque levei um soco no nariz de um estudante durante um atendimento em sala de aula. […] Precisei de atendimento médico, fiz tomografia e estou em tratamento, abalada psicologicamente. Ninguém deveria ir para a escola para levar um soco”, relatou Andreia, professora da rede pública que atua no Gama.

“A minha luta é por segurança e apoio. Cadê a rede de apoio? A criança estava sem laudo, sem medicação, a saúde falhou, o Estado falhou. Quando as instituições falham, quem vai dar suporte a esse problema? Nós, professores, temos que dar conta de todas as demandas da sociedade dentro da sala de aula?”, questionou.

Andreia Lopes, professora da rede pública do DF
Andreia Lopes, professora da rede pública do DF | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

A professora de História Vilmara do Carmo, do Centro Educacional 1 da Estrutural, também criticou o modelo de escolas militarizadas. “Eu estou aqui como professora da escola pública para denunciar que esse regime de escola militarizada não presta, não funciona”, declarou.

Carmo também relacionou a crise do Banco de Brasília (BRB) envolvendo o Banco Master à falta de investimentos em serviços públicos no Distrito Federal. A Polícia Federal identificou indícios de fraude em operações que envolveram bilhões de reais em créditos adquiridos pelo banco público. A professora afirmou que esses recursos poderiam ser destinados à ampliação de serviços, como creches e unidades de saúde.

“Com o dinheiro desse rombo, a gente consegue construir mais de 400 creches e mais de 720 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Não temos nada disso no Distrito Federal. É uma mentira dizer que as vagas de creche foram contempladas. Temos várias mães aguardando na fila para colocar suas crianças na creche”, afirmou a professora.

Estudantes defendem participação

A mobilização também contou com a participação de representantes estudantis. A presidenta da União dos Estudantes Secundaristas do Distrito Federal (UESDF), Álex Maciel, afirmou que as decisões do governo sobre a educação afetam diretamente os estudantes e, por isso, precisam ser discutidas com a comunidade escolar.

“O ato de paralisação de hoje é muito importante para a comunidade estudantil, porque os estudantes também são afetados pelas decisões tomadas pelo governo. É muito necessário estarmos nesses espaços para participar dos debates e mostrar quais são os nossos direitos”, disse a estudante da .

Para a dirigente, a participação estudantil é necessária para que as políticas educacionais considerem as condições vividas pelos alunos dentro e fora das salas de aula. “Essas decisões estão presentes no nosso dia a dia, então precisamos participar das conversas e construir propostas que sejam melhores e que se adaptem à nossa realidade”, acrescentou.

Estudantes participam do ato em frente ao Buriti e exibem cartazes em apoio aos professores
Estudantes participam do ato em frente ao Buriti e exibem cartazes em apoio aos professores | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

A defesa da autonomia das escolas também foi destacada pela deputada federal Érika Kokay (PT-DF), que participou do ato. “Educação é um ato de liberdade. Educação não acontece com grilhões, educação não acontece com mordaças. Educação acontece com consciência crítica e com liberdade de cátedra”, afirmou.

Críticas ao governo

Parlamentares que participaram da mobilização criticaram a condução da política educacional do governo Celina Leão e defenderam a abertura de negociações com os profissionais.

O deputado distrital Reginaldo Veras (PV) afirmou que os professores precisam se organizar diante do que classificou como autoritarismo. “Com esse secretário autoritário [Thiago Peixoto] e um governo autoritário que se aproxima, nós teremos muitas dificuldades. Teremos que nos unir cada vez mais. Vamos ter que estar juntos e, acima de tudo, toda vez que formos desrespeitados, vamos ter que reagir juntos”, declarou o parlamentar.

O deputado distrital Gabriel Magno (PT) afirmou que a categoria precisa de diálogo com o governo e criticou a falta de abertura para negociar as reivindicações dos profissionais da educação.

“O que está em jogo no Brasil e no Distrito Federal é se nós vamos passar quatro anos com um governo que toca a mesa de negociação, que é democrático, que senta com o sindicato para negociar, ou com um governo que não tem coragem de ir para o debate e não tem coragem de chamar a categoria para conversar. Eleição tem tudo a ver com a escola, tem tudo a ver com os nossos salários”, declarou.

Manifestantes levantam cartaz durante ato de professores da rede pública do DF contra medidas do governo de Celina Leão e em defesa da autonomia das escolas
Manifestantes levantam cartaz durante ato de professores da rede pública do DF contra medidas do governo de Celina Leão e em defesa da autonomia das escolas | Crédito: Kennedy Cruz/BdF DF

O deputado distrital Fábio Felix (Psol), eleito deputado federal, e a deputada distrital eleita Keka Bagno (Psol) também participaram do ato. Felix afirmou que as carreiras da educação precisam de valorização e defendeu a continuidade da mobilização para pressionar o poder público.

“É inaceitável que as carreiras da educação estejam entre as piores carreiras de nível superior do Distrito Federal. A gente precisa se organizar para resistir, lutar e levar essa luta às ruas. Essa mobilização não termina hoje, essa luta vai durar muito tempo”, afirmou.

Candidato ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass, que também é professor, esteve na Praça do Buriti para manifestar apoio à categoria. “O professor enfrenta falta de estrutura, falta de apoio, e o mais grave é quando os professores são atacados pelo próprio governo, que deveria protegê-los e apoiá-los. Toda vez que um professor vai à rua defender seus pares, a educação e a própria vida, a primeira coisa que um governo deveria fazer é escutar os professores, em vez de colocar a polícia e as grades”, afirmou o candidato ao GDF.


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Editado por: Flavia Quirino

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