DESINFORMAÇÃO

Especialistas alertam para riscos da desinformação e orientam eleitores a consultar fontes oficiais no segundo turno

Mensagens alarmistas, conteúdos manipulados por inteligência artificial e links suspeitos estão entre as alertas

Celular na mão
As eleições 2026 foram as primeiras a ocorrerem sob uma norma do TSE que regulamenta o uso de inteligência artificial na propaganda de partidos | Crédito: Stockphotos

Além de verificar as orientações e informações práticas sobre a votação para o segundo turno, o eleitor brasileiro deve ter cuidado com conteúdos que circulam nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. Na reta final da campanha que se encerra neste domingo (25), informações falsas ou fora de contexto podem confundir o eleitorado, especialmente quando envolvem regras eleitorais, pesquisas, declarações de candidatos e supostas mudanças no processo de votação, como alteração de zonas e seções. A recomendação de especialistas em checagem de informação é desconfiar de mensagens alarmistas, verificar a origem dos conteúdos e consultar fontes oficiais antes de compartilhar informações nas redes sociais e em aplicativos de mensagens.

Um levantamento publicado pela Agência Lupa em 15 de outubro, intitulado “Mentiras sobre candidatos ganham espaço; alegações de fraude eleitoral recuam”, identificou mudanças no perfil da desinformação eleitoral em 2026. Segundo o Observatório Lupa, conteúdos que fabricam sinais de apoio, rejeição ou vantagem de candidatos ganharam espaço, enquanto diminuíram as alegações falsas sobre procedimentos de votação e a integridade do sistema eleitoral. O relatório foi elaborado com base na análise de 310 afirmações em 2026, a qual 230 foram em checagens de declarações de atores políticos e 80 em verificações de conteúdos que circularam nas redes sociais. A comparação incluiu ainda 367 registros de 2022 e 581 de 2018. Pela primeira vez, a inteligência artificial aparece como recurso para a desinformação.

Diante desse cenário, o jornalista e especialista em checagem de informações Ítalo Rômany, da Agência Lupa, recomenda atenção à origem das mensagens. De acordo com Rômany, termos como “urgente” ou “veja aqui”, exigem atenção redobrada, pois podem ser usados para provocar medo e pânico, muitas vezes com base em informações falsas ou distorcidas. “Em períodos eleitorais, esse tipo de conteúdo tende a ganhar força, o que torna ainda mais importante adotar uma postura crítica, e buscar fontes confiáveis para verificar a informação”, destaca o especialista.

O editor-chefe do Projeto Comprova, Sérgio Lüdtke, também chama atenção para a falta de transparência sobre as fontes, o uso de apelos emocionais e a circulação de conteúdos em textos anônimos, correntes de mensagens e perfis recém-criados. Segundo ele, publicações enganosas frequentemente tentam provocar medo, raiva ou indignação para estimular o compartilhamento imediato. “Publicações enganosas costumam circular por meio de textos anônimos, correntes de mensagens e perfis recém-criados, apelando para um tom de urgência para provocar reações imediatas como medo, raiva ou indignação”, afirma o coordenador do projeto.

Lüdtke recomenda ainda que o eleitor desacelere antes de repassar uma notícia impactante, investigue sua origem e confira os dados em veículos jornalísticos profissionais e nos canais oficiais da Justiça Eleitoral. Ele também destaca a importância de reconhecer o viés de confirmação, quando uma pessoa tende a acreditar mais facilmente em informações que correspondem às suas opiniões ou expectativas.

Nesses casos, a orientação é evitar o compartilhamento imediato e buscar fontes confiáveis para confirmar o conteúdo. Uma pesquisa na internet pode ser o primeiro passo, mas Rômany destaca a importância de consultar canais oficiais e veículos jornalísticos confiáveis antes de considerar uma informação verdadeira.

Como verificar informações sobre a votação

A checagem de informações recebidas por aplicativos de mensagens é fundamental para confirmar informações práticas sobre o segundo turno, como local de votação, mudança de seção eleitoral, horário de funcionamento e documentos aceitos. De acordo com Rômany, o eleitor deve recorrer diretamente aos canais oficiais da Justiça Eleitoral, como o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o aplicativo e-Título. O jornalista alerta para mensagens que informam supostas alterações na seção eleitoral e direcionam o usuário a links externos, além de disseminar informações falsas, essas páginas podem ser utilizadas para aplicar golpes e coletar dados pessoais.

“É importante não confiar em links externos recebidos por mensagens, especialmente aqueles que afirmam que a seção eleitoral foi alterada e induzem o eleitor a clicar. Esse tipo de abordagem pode ser usado para disseminar informações falsas ou aplicar golpes. Por isso, a recomendação é sempre consultar diretamente os canais oficiais e não compartilhar dados pessoais em páginas cuja autenticidade não tenha sido verificada”, aponta Rômany.

Embora pareça fácil, a checagem de informações tem se tornado cada vez mais difícil com o avanço de ferramentas de inteligência artificial, sobretudo com a circulação de vídeos, áudios e imagens manipuladas, que tem se tornado um ponto de atenção durante o segundo turno das eleições. De acordo com Lüdtke, o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA) e a produção de conteúdos sintéticos se tornou mais acessível, o que pode dificultar a identificação de montagens e adulterações. Segundo o coordenador do Projeto Comprova, ao receber imagens, vídeos ou áudios sobre conteúdos políticos, o eleitor deve adotar uma postura de ceticismo e checagem metódica, dividindo os cuidados conforme o formato da mídia.

“Com imagens e vídeos, o primeiro passo é parar e refletir sobre o impacto emocional, desconfiando de conteúdos feitos para provocar raiva ou pânico. É fundamental observar inconsistências físicas, usar a busca reversa de imagem no Google para encontrar imagens semelhantes ou iguais e assim checar a originalidade, e ficar atento aos sinais de pele plástica, mãos disformes, entre outros sinais. Já os áudios, como não há elementos visuais, deve-se desconfiar de tons excessivamente exaltados e pedidos alarmistas de repasse urgente. A verificação exige investigar a autoria em canais oficiais, transcrever a fala para checar os fatos e, se necessário, recorrer a agências com perícia vocal”, descreve Lüdtke.

O editor-chefe do Comprova também cita o SynthID, tecnologia do Google voltada à identificação de conteúdos gerados por inteligência artificial. De acordo com Lüdtke, a ferramenta pode auxiliar em determinadas verificações, mas não substitui a análise da origem do material nem a consulta a fontes confiáveis. Por outro lado, Rômany recomenda que os eleitores não compartilhem esses materiais antes de verificar sua autenticidade. A orientação é procurar agências de checagem, consultar fontes confiáveis e verificar se o assunto foi noticiado pela imprensa. Apesar da ausência de cobertura jornalística não comprovar, por si só, que uma informação seja falsa, ela reforça a necessidade de investigar antes de acreditar ou compartilhar o conteúdo.

Para ambos os especialistas, o cuidado central é não tomar a aparência de autenticidade de um conteúdo como prova de que ele é verdadeiro, portanto, vídeos, áudios e imagens devem ser analisados em conjunto com outras evidências e informações disponíveis.

Mesmo quando não existe intenção de enganar, o compartilhamento de informações falsas pode ampliar a circulação da desinformação e afetar a participação política. Segundo Rômany, um dos principais riscos é que conteúdos enganosos influenciem as decisões dos eleitores e, consequentemente, o resultado das eleições.

Em consonância, Lüdtke ressalta que compartilhar um boato por impulso ou com a intenção de alertar outras pessoas não torna a prática inofensiva, e a disseminação de informações falsas sobre as regras da eleição, o funcionamento das urnas ou a apuração dos resultados pode desorientar a população, alimentar desconfianças sem fundamento e até induzir pessoas ao erro ou à abstenção. “Ao repassar boatos sem verificar a procedência ou motivado por reações emocionais, o cidadão acaba se tornando uma peça no ecossistema da desinformação, contribuindo para a propagação de pânico desnecessário e ajudando a corroer a credibilidade das instituições e da própria democracia”, ressalta.

Os especialistas também destacam a importância de manter a atenção após o encerramento da votação, especialmente diante de questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas. Rômany lembra que o sistema eletrônico de votação é utilizado no Brasil desde 1996 e que o processo eleitoral conta com mecanismos de fiscalização e auditoria conduzidos pela Justiça Eleitoral. “Por isso, qualquer alegação de irregularidade deve ser investigada com base em evidências, e não em suspeitas ou conteúdos que circulam nas redes sociais”, afirma Rômany

Na reta final das eleições, a orientação é adotar uma postura crítica diante das informações recebidas, verificar a procedência das publicações e não compartilhar conteúdos cuja veracidade não tenha sido confirmada. Em caso de dúvida, a decisão mais segura é interromper a circulação da mensagem e buscar informações em fontes oficiais e veículos jornalísticos confiáveis.

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Editado por: Lívio Pereira

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