Sem respirar

Jornal aponta esquema de Flávio Bolsonaro na gestão de hospitais federais durante pandemia

Relatório da CPI da Covid registra que 30% dos leitos clínicos e de UTI da rede federal na capital permaneceram fechados

A influência de Flávio Bolsonaro nos hospitais federais apareceu na CPI da Covid pelo depoimento do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel
A influência de Flávio Bolsonaro nos hospitais federais apareceu na CPI da Covid pelo depoimento do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel | Crédito: Flávio Campanato/Agência Brasil

Reportagem da Agência Pública aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, passou a influenciar as indicações para a rede de hospitais federais a partir de 2019. A reportagem cita como marco a troca na direção do Bonsucesso: Luana Camargo foi afastada após uma festa de aniversário do hospital orçada em R$ 156 mil, e o ministro Luiz Henrique Mandetta efetivou o médico Paulo Cotrim. A troca foi criticada publicamente por Flávio Bolsonaro, dizendo que não tivera participação na nomeação e que teria desaconselhado. Cotrim foi exonerado menos de um mês depois e substituído por Cristiane Jourdan.

De acordo com a apuração, os seis hospitais federais do Rio conviveram, entre 2019 e 2022, com precariedade e contratos com preços acima do mercado. Diagnóstico do Ministério da Saúde de fevereiro de 2023, mostra que 72% dos recursos da rede – R$ 50,3 milhões por mês – iam para custeio, como limpeza, vigilância e rouparia. No Bonsucesso, contratos de apoio administrativo teriam margens de lucro até 561% maiores que o acordado, e o hospital teve cinco diretores em quatro anos. O documento também registra que trocas de direção coincidiam com o fim de contratos, o que levava a novos contratos emergenciais.

O relatório final da CPI da Covid registra que 30% dos leitos clínicos e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da rede federal na capital permaneceram fechados durante a pandemia, a maioria por falta de profissionais, embora pudessem atender pacientes. Em março de 2021, eram 650 leitos impedidos. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados e a Medida Provisória (MP) 1.022 prorrogou só 1,4 mil, por 60 dias, quadro que a CPI considerou decisivo para agravar o atendimento. No Bonsucesso, dos 240 leitos reservados à Covid, havia em maio de 2020 apenas 18 internados e 17 na emergência. A CPI também identificou prática frequente de dispensa de licitação seguida de aditivos, mas ressalvou ter tido pouco tempo para investigar e enviou documentos ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Tribunal de Contas da União (TCU).

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A saúde fluminense teve outro episódio na esfera estadual. Em 30 de abril de 2021, o Tribunal Especial Misto confirmou por unanimidade o impeachment do governador Wilson Witzel por irregularidades em contratos da pandemia. Os julgadores apontaram atos ilícitos na requalificação da OS Unir Saúde e na contratação da OS Iabas para hospitais de campanha. Witzel nega as acusações. O caso é distinto da rede federal, embora a CPI tenha partido da premissa de que esquemas descritos pelo MPF no governo estadual pudessem ter se repetido nela.

Relatório da Câmara dos Deputados

Em abril de 2023, visita da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, a pedido do deputado Daniel Soranz (PSD-RJ), ainda encontrou emergência fechada no Bonsucesso (126 dos 411 leitos impedidos) e pacientes em macas nos corredores do Cardoso Fontes.

Desde então, a gestão deixou de ser direta do Ministério da Saúde em cinco das seis unidades. O Hospital de Bonsucesso passou ao Grupo Hospitalar Conceição (outubro de 2024); Andaraí e Cardoso Fontes, à prefeitura (dezembro de 2024); o Servidores, à Ebserh/UNIRIO (dezembro de 2025); e a Lagoa, à Fiocruz (2026). Só Ipanema segue com o ministério. Segundo a Pública, o orçamento anual da rede subiu de cerca de R$ 800 milhões para R$ 2 bilhões. O ministério informa 335 leitos reabertos, 16 salas cirúrgicas reativadas e alta de 30% nas cirurgias (21.869 em 2025).

Flávio Bolsonaro foi procurado pela Agência Pública e não retornou. Nossa reportagem também tentou contato e aguarda posicionamento.

Editado por: Juliana Passos

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