Drones, helicópteros e tiros incessantes: desde domingo (18) à noite, o bairro de Santo, em Croix-des-Bouquets, na região metropolitana de Porto Príncipe, não teve um minuto de paz. Os moradores foram intimados a permanecerem em sua casa ou em local seguro.
Segundo o último comunicado da Força de Repressão das Gangues (FRG), missão da ONU que atua desde abril no Haiti, “vários integrantes da gangue foram mortos e outros foram feridos durante os enfrentamentos. Quatro pessoas da FRG também foram feridas e estão recebendo atendimento médico”. No entanto, depois de quatro dias de operação, os soldados desaparecidos ainda não foram localizados.
Na noite de domingo, o carro da FRG foi preso numa emboscada após deixar a sua base para ir a um mercado de Santo. Indivíduos armados teriam aberto fogo e jogado explosivos no veículo. Houve uma longa troca de tiros, intensificada pela chegada de helicópteros da FRG, e o carro acabou incendiado, sem passageiros dentro. Acredita-se que os quatro militares oriundos de El Salvador que estavam nele, e dos quais não se teve mais notícia, foram sequestrados pela gangue, na esperança de que estejam vivos.
A resposta das autoridades salvadorenhas foi imediata. Preocupadas em trazer de volta seus conterrâneos, enviaram um reforço militar e passaram a coordenar as operações de resgate junto à FRG. Na quarta-feira (21), o presidente Nayib Bukele subiu o tom ao publicar no seu X uma mensagem em crioulo haitiano direcionada aos chefes das gangues. “Eu quero que vocês entendam uma coisa muito clara: o [nosso] ataque de hoje não foi nada comparado ao que está vindo, caso não devolvam vivos os quatro reféns”, declarou. “E não tomem nossas palavras como ameaças sem fundamento. Já acabamos com as gangues em El Salvador, somos capazes de acabar com vocês também.”
Bukele ressaltou que os quatro militares salvadorenhos não eram combatentes, mas sim técnicos de aviação. “A nossa missão [no Haiti] tem apenas pilotos e técnicos, cujo principal trabalho é realizar evacuação médica para salvar vidas, e não fazer guerra”. Ainda assim, depoimentos de moradores e os próprios relatos da FRG indicam troca de tiros, o que dá a entender que ambos os lados estavam armados.
Reação imediata na ONU
A notícia gerou uma grande comoção na ONU, onde aconteceu, justamente na segunda-feira (19), uma sessão especial para discutir a situação do Haiti no Conselho de Segurança. O representante dos Estados Unidos, Mike Waltz, se solidarizou com a população de El Salvador e com o seu presidente, oferecendo “total apoio do governo estadunidense” e anunciando às gangues, numa mensagem direta, que “seus dias de impunidade estão contados”.
Em sua fala, chamou a atenção sobre as dificuldades enfrentadas pela FRG no Haiti, tendo que lidar com investimentos e recursos humanos muito abaixo do planejado. Dos 5.500 militares previstos no papel, apenas 2 mil desembarcaram efetivamente na ilha, e ainda têm que operar com recursos limitados. Enquanto o mandato da missão acabou de ser prorrogado por mais seis meses, representantes da ONU no Haiti esperam a chegada de novos contingentes e um aumento das contribuições dos países membros.
A FRG é a quarta missão lançada pela ONU no Haiti desde 2004, e a situação de segurança do país piorou drasticamente ao longo desses 22 anos. Muitas organizações populares e de direitos humanos enxergam essas missões como intervenções estrangeiras ilegítimas, que têm como principal consequência o enfraquecimento do Estado. Em especial, a Minustah, dirigida pelo Brasil de 2004 a 2017, foi objeto de múltiplas denúncias de violências e massacres contra a população haitiana.
O governo sob pressão
Na quarta-feira (21), o governo haitiano se manifestou pela primeira vez a respeito do ocorrido de domingo, enquanto outros países já haviam tomado todas as medidas. Num comunicado à imprensa, o gabinete do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé declarou estar “coordenando a resposta do Estado” e trabalhando “em estreita colaboração com a FRG” para apoiar as operações em curso. O texto não fala da chegada do reforço militar vindo de El Salvador, nem traz posicionamento a respeito das ameaças de Nayib Bukele, apesar de constituírem uma flagrante violação à soberania nacional.
O tom de determinação com o qual Fils-Aimé anuncia fazer desse resgate “uma prioridade absoluta para as autoridades do Estado” contrasta com a timidez das suas reações, nos últimos meses, em relação à violência das gangues, que matou pelo menos 5.700 pessoas em 2026. Inclusive, em nenhuma linha desse comunicado oficial a população haitiana é mencionada.
O início da semana foi marcado por uma onda crescente de protestos nas ruas das duas principais cidades do país, Porto Príncipe e Cabo Haitiano. À frente da mobilização, estão milhares de refugiados internos, vítimas da violência, que denunciam as condições desumanas dos abrigos onde vivem há mais de ano e pedem condições de segurança para poderem voltar às suas casas. Junto a eles, soma-se uma população cansada da crise que abrange todos os níveis da vida política, econômica e social. Enquanto isso, partidos da oposição, cada vez mais numerosos, pedem a demissão do primeiro-ministro.
Dependendo do desfecho, o caso do sequestro de domingo tem a capacidade de desencadear consequências incalculáveis. Se as gangues entregarem os quatro reféns sãos e salvos, confiando nas palavras de Nayib Bukele, “tudo vai voltar do jeito que era antes do sequestro”, o que não representa nenhum alívio para a população haitiana. Mas, caso não haja resgate, o governo haitiano não tem nem respaldo internacional, nem legitimidade interna para bater de frente com eventuais retaliações por parte do seu vizinho salvadorenho ou dos Estados Unidos.

