ELEIÇÕES 2026

Lula supera Flávio em 16 pautas do funcionalismo público, aponta comparativo

Levantamento mostra petista alinhado às reivindicações dos servidores; Senador quer fazer cores e ampliar uso de IA

Eleições 2026
À esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. À direita, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro. | Crédito: Reprodução

O futuro do serviço público brasileiro é um dos temas em disputa na eleição presidencial de 2026. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta propostas de continuidade da negociação com servidores, valorização das carreiras e fortalecimento das políticas públicas. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) defende a redução da estrutura administrativa, com corte de ministérios, cargos comissionados e despesas, além da ampliação do uso de Inteligência Artificial (IA) na gestão estatal.

A diferença entre os projetos ganhou destaque após declarações de Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, cotada para assumir o Ministério da Economia em um eventual governo do candidato. Em entrevista a um podcast, em 30 de setembro, a economista questionou a necessidade de novos concursos para substituir servidores aposentados e sugeriu que parte dessas funções poderia ser desempenhada por IA. 

“Quais carreiras administrativas e operacionais podem ser substituídas no funcionalismo público a partir de inteligência artificial? 12 milhões e meio de servidores públicos. Tudo certo, começou lá atrás. Agora, a cada 5 anos, cada ano, vai aposentando 20%. E aí, substitui, faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”, afirmou. O vídeo da declaração viralizou nesta semana e trouxe para o debate eleitoral os possíveis efeitos da automação sobre o funcionalismo. 

Um comparativo elaborado pelo Pacto pelo Serviço Público reforça as diferenças entre as candidaturas. Na versão divulgada em 10 de outubro de 2026, Lula obteve pontuação superior à de Flávio Bolsonaro nos 16 temas relacionados ao funcionalismo analisados pela iniciativa. As maiores diferenças foram registradas em reforma administrativa, estabilidade e negociação coletiva, com 38 pontos em cada tema. A menor distância apareceu em estatais, patrimônio e fundos de pensão, com seis pontos.

As notas não representam uma pesquisa de intenção de voto entre servidores públicos, nem significam que todo o funcionalismo apoie Lula. Segundo a metodologia do projeto, trata-se de uma avaliação do alinhamento das propostas a critérios definidos pelo Pacto, que combina medidas adotadas pelo governo petista, votos parlamentares de Flávio e compromissos apresentados pelos dois candidatos.

Lula aposta em negociação e valorização dos servidores

O programa de Lula prioriza a continuidade dos canais de diálogo com o funcionalismo e a valorização das carreiras públicas. Entre as propostas estão o aprofundamento da Mesa Nacional de Negociação Permanente, reaberta em 2023, e a regulamentação do direito à negociação coletiva no setor público.

Na política salarial, o histórico recente do governo inclui a Lei 14.673/2023, que estabeleceu reajuste nominal de 9% para os servidores abrangidos do Executivo Federal. Já a Lei 15.141/2025 alterou remunerações e reorganizou carreiras específicas. Para um eventual novo mandato, entretanto, o programa não estabelece um índice geral de reajuste nem um calendário unificado para todo o funcionalismo.

A realização de concursos também integra o balanço do atual governo. Em 2024, foi realizado o Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), iniciativa que reuniu seleções para diferentes órgãos federais. Para o próximo mandato, Lula propõe aprofundar a valorização dos servidores, mas não apresenta uma quantidade definida de vagas, um cronograma geral de concursos ou o número de nomeações previstas.

Na educação, o candidato defende a manutenção do Piso Nacional do Magistério, o apoio à formação e à fixação de professores e a ampliação da presença de institutos federais e universidades públicas no interior do país. Na saúde, propõe a continuidade do Mais Médicos, a fixação de profissionais em regiões vulneráveis e o fortalecimento da medicina de família e comunidade.

O programa também prevê a modernização dos serviços digitais, a ampliação do Gov.br e políticas de letramento digital e proteção de dados. Em relação à estabilidade, à previdência e aos precatórios, porém, o documento não detalha mudanças específicas para todas as carreiras e regimes previdenciários.

Flávio defende redução da máquina pública e mais inteligência artificial

A proposta de Flávio Bolsonaro parte de outra concepção para a administração pública. O candidato defende a continuidade da reforma administrativa, a redução de pelo menos dez ministérios, o corte de cargos comissionados e de despesas administrativas, além do combate a supersalários e benefícios considerados excessivos.

Em declarações à imprensa, Flávio afirmou que faria um “tesouraço” nos cargos comissionados e reduziria ministérios para diminuir os gastos públicos. Também defendeu um ajuste fiscal mais rigoroso, mas sem apresentar o valor total dos cortes, sua proporção em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) ou um prazo para atingir as metas.

A redução de ministérios e cargos comissionados não implica, automaticamente, a retirada da estabilidade dos servidores concursados. Ainda assim, a defesa da reforma administrativa mantém em aberto questões sobre possíveis mudanças nas carreiras, nas regras para novos ingressantes e nas garantias do funcionalismo.

Na digitalização, o programa apresenta metas mais objetivas. Flávio promete digitalizar 100% dos serviços federais passíveis de digitalização, criar uma identidade digital integrada ao Gov.br e utilizar assistentes de inteligência artificial para orientar cidadãos. 

Na saúde, o candidato defende a correção da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), a ampliação da Saúde da Família e a contratação de exames e serviços da rede privada em horários ociosos. Na educação, propõe formação continuada de professores, repasses vinculados a metas de aprendizagem, escolas cívico-militares e maior articulação entre ensino técnico e setor produtivo.

O programa também prevê a retomada do Programa Nacional de Desestatização, com avaliação caso a caso. Para diversas medidas, contudo, não há detalhamento sobre custos, cronogramas, quantidade de servidores afetados ou impactos nas carreiras públicas.

Entidades apontam maior proximidade com a candidatura petista

A aproximação de setores do funcionalismo com Lula está relacionada à defesa da negociação coletiva, da valorização profissional e do fortalecimento das políticas públicas. Para essas representações, a qualidade dos serviços prestados à população depende também da recomposição das equipes, da realização de concursos e da garantia de condições adequadas de trabalho.

O Pacto pelo Serviço Público reúne oito representações de associações, sindicatos e delegacias sindicais, incluindo entidades de auditores fiscais, trabalhadores da educação municipal e servidores da área tributária em Minas Gerais. A iniciativa participa da construção do projeto, enquanto a Communicare é responsável pela coordenação, metodologia e redação das análises.

A Carta-Compromisso defendida pelo Pacto reúne reivindicações como valorização das carreiras, defesa da paridade entre servidores ativos, aposentados e pensionistas, fortalecimento do financiamento público e garantia de serviços de qualidade.

A declaração de Daniella Marques explicita uma das diferenças centrais entre os projetos: enquanto a candidatura petista propõe dar continuidade à valorização do funcionalismo e à expansão de políticas públicas, a equipe econômica de Flávio questiona a necessidade de reposição de parte dos trabalhadores aposentados por meio de concursos.

Dois projetos de Estado em disputa

Os efeitos concretos de cada proposta dependerão da aprovação de medidas pelo Congresso Nacional, da disponibilidade orçamentária e da capacidade de execução dos governos. Além disso, grande parte dos profissionais da educação, da saúde e da segurança pública está vinculada a estados e municípios, embora a União tenha influência sobre pisos salariais, repasses e programas nacionais.

* Este conteúdo foi produzido com apoio de ferramentas de Inteligência Artificial
Editado por: Lucas Wilker

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