Documentário

Noventa anos da vitória da Longa Marcha, passo fundamental da revolução socialista na China

Avanço para o norte unificou forças contra invasão japonesa e foi etapa central para fundar a República 13 anos depois

Espetáculo "A Primeira Travessia da Longa Marcha", no Grande Teatro da Longa Marcha de Yudu. Este trecho da obra representa o momento em que marcha atravessou as montanhas nevadas, como a Jiajin, a primeira grande montanha nevada que o Exército Vermelho atravessou.
Espetáculo ‘A Primeira Travessia da Longa Marcha’, no Grande Teatro da Longa Marcha de Yudu | Crédito: Jiang Chenxing / Brasil de Fato

O presidente chinês Xi Jinping discursou, nesta quinta-feira (22), em uma cerimônia em Pequim em comemoração aos 90 anos da vitória da Longa Marcha do Exército Vermelho de Operários e Camponeses. “Este feito revolucionário de proporções épicas tem grande significado na história do nosso Partido, país e forças armadas, e tem um profundo impacto no nosso caminho rumo ao rejuvenescimento da nação chinesa”, afirmou Xi, também secretário-geral do Partido Comunista da China (PCCh) e presidente da Comissão Militar Central.

No discurso, Xi classificou a Longa Marcha como “a conquista revolucionária que abalou a Terra” e destacou que o acerto da liderança do Partido e o estabelecimento do papel central de Mao Zedong foram decisivos para a vitória. “O grande espírito da Longa Marcha será sempre um tesouro precioso e uma força motriz poderosa que nos inspira a superar dificuldades e avançar com coragem”, disse, segundo a Xinhua.

Em 22 de outubro de 1936, a Primeira e a Segunda Frentes do Exército Vermelho se encontraram em Jiangtaibao, no que hoje é a Região Autônoma de Ningxia, encerrando oficialmente a Longa Marcha. Dois anos e cinco dias haviam se passado desde a travessia do rio Yudu, em Jiangxi, que marcou o início da epopeia.

Em menos de uma semana, coincidem os aniversários do início e da vitória da Longa Marcha. Em 17 de outubro, foi o aniversário dos 92 anos do seu início, quando mais de 86 mil soldados cruzaram o rio Yudu, em Ruijin, em 1934. Neste 22 de outubro, completam-se os 90 anos do encerramento oficial.

Divergência e reunificação

Em setembro de 1935, depois que a primeira e a quarta frentes se encontraram pela primeira vez em Maogong, Zhang Guotao, líder da quarta frente, recusou a decisão de Mao Zedong, Zhou Enlai e do Comitê Central de seguir marchando para o norte. Ele decidiu conduzir suas tropas para o sul.

Apesar de algumas vitórias iniciais, sua frente acabou se reduzindo pela metade, passando de cerca de 80 mil para 40 mil soldados. O fracasso gerou uma crise interna e a intervenção da Internacional Comunista, que pressionou Zhang a cancelar o segundo Comitê Central que ele havia criado para disputar o poder com o comitê central liderado por Mao.

Após as derrotas, a quarta frente retoma o caminho para o norte e, em 9 de outubro de 1936, se reencontra com a primeira frente e parte da segunda em Huining, no sul da província de Gansu. “Reunidas em Huining, as forças do Exército Vermelho formaram uma frente poderosa e unificada e, em breve, marcharam para os campos de batalha da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa”, afirmou Ren Xia, diretora do Memorial da Vitória da Longa Marcha em Huining, ao Brasil de Fato. O encontro entre a primeira e a segunda frente em Jiangtaibao, em 22 de outubro, completou a reunificação das três forças.

Turista tira foto no monumento "Bandeira Vermelha de Jinggang", localizado em Jingganshan, na província de Jiangxi. O lugar não faz parte da rota da Longa Marcha,  mas foi a primeira base revolucionária rural, estabelecida por Mao Zedong em 1927. 24 de maio de 2024
Monumento ‘Bandeira Vermelha de Jinggang’, localizado em Jingganshan, na província de Jiangxi primeira base revolucionária rural, estabelecida por Mao Zedong em 1927 | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

Marchar para o norte

Além da reorganização militar, a decisão de avançar para o norte visava principalmente preparar o enfrentamento à invasão japonesa. O Japão havia iniciado a ocupação da Manchúria, no nordeste da China, em 1931. Em 1° de agosto de 1935, Wang Ming, representante do PCCh junto à Internacional Comunista em Moscou, escreveu a “Carta a Todos os Compatriotas sobre Resistir ao Japão e Salvar a Nação”. Em dezembro desse ano, o Partido decidiu formalmente pela criação de uma Frente Unida Anti-Japonesa para reunir todas as forças do país.

Ao percorrer o interior rumo ao norte, o Exército Vermelho levava a mensagem de resistência à invasão. “O povo comum passou a compreender que tipo de exército era o Exército Vermelho. Viu sua disciplina rigorosa e cuidado com os civis. O Exército Vermelho estava marchando para o norte, mais próximo das linhas de frente da resistência, para defender uma nação à beira do desastre”, afirmou Hu Changyong, pesquisador do Instituto Central de História do Partido, ao Brasil de Fato.

A revolução em marcha

Cerca de 2.600 mulheres participaram da Longa Marcha, a grande maioria como parte do Regimento Independente de Mulheres. “Quando pensamos na Longa Marcha, geralmente imaginamos batalhas e soldados esfarrapados cruzando montanhas cobertas de neve e pântanos. Menos mencionadas são as mulheres que marcharam ao lado deles”, disse Ren Xia.

O regimento ficou responsável por escoltar 500 soldados feridos e doentes pelo Passo de Lazikou enquanto o inimigo se aproximava pela retaguarda. Das cerca de 100 combatentes, 70 morreram em Lazikou, segundo Cairang Lamu, guia do Memorial da Batalha de Lazikou.

Diversas soldadas deram à luz durante o trajeto e tiveram que deixar os recém-nascidos para trás. He Zizhen deu à luz uma filha durante a marcha e o bebê teve de ser entregue. Nas palavras de He Zizhen, citadas por Ren Xia: “A mãe não tem escolha. As regulamentações centrais proíbem trazer bebês na marcha; isso é disciplina. Só espero que você cresça com saúde. Quando a revolução vencer, a mãe certamente voltará para te buscar”.

“Essas são dificuldades que os revolucionários do sexo masculino dificilmente podiam imaginar”, avaliou Ren Xia. “As soldadas realizavam trabalho de propaganda, carregavam macas e também lutavam no campo de batalha”, acrescentou.

O Exército realizava, ao longo de toda a rota, o que Hu Changyong descreve como três tarefas simultâneas: combate, derrubada dos tiranos locais e trabalho de massa. “Estabelecer o poder político, construir bases e abolir impostos e taxas exorbitantes continuaram em todo o percurso”, afirmou o pesquisador do Instituto Central de História do Partido.

Na região de Jiangtaibao, apenas nos dias que antecederam o encontro final das três frentes, o Terceiro Regimento Vermelho fundou o Comitê do Partido do Condado de Jingning, dez governos soviéticos distritais e 35 governos soviéticos municipais. Mais de 253 jovens locais se alistaram, segundo Zhang Jianmin, pesquisador do Memorial de Jiangtaibao.

A marcha atravessou territórios de dezenas das 56 etnias do país. O Exército aplicou uma política de disciplina rigorosa, proibindo que as tropas tomassem “nem mesmo uma agulha ou um fio das pessoas locais”, conta Cairang Lamu, sobre a passagem pelo condado de Diebu. “Os povos das etnias minoritárias entenderam que o Partido lutava pelos interesses de toda a nação chinesa, incluindo todas as minorias étnicas. Isso criou o terreno crítico para a construção de um país unificado multiétnico sob a liderança do Partido Comunista”, explica Hu Changyong.

Uma máquina de semear

A unidade que percorreu o maior trajeto cobriu mais de 12.500 quilômetros por 14 províncias. O percurso total das três frentes superou 30 mil quilômetros. Ao longo do caminho, o Exército distribuiu terras dos latifundiários aos camponeses, convocou assembleias populares e recrutou combatentes.

Em dezembro de 1935, Mao chegou a dizer que “a Longa Marcha é um manifesto, uma equipe de propaganda e uma máquina de semear”.

“Na minha visão, o Exército Vermelho emergiu da Longa Marcha mais forte, não mais fraco, e o mesmo aconteceu com nosso Partido”, avaliou Ren Xia. “Durante a Longa Marcha, o Partido e o Exército Vermelho encontraram um caminho adequado às realidades da China, adquiriram teorias orientadoras corretas e estabeleceram um núcleo sólido de liderança. Esses foram ganhos decisivos do teste da Longa Marcha”.

Em 1° de outubro de 1949, 13 anos depois do encontro em Jiangtaibao, era fundada a República Popular da China. No discurso desta quinta-feira, Xi afirmou que o caminho da Longa Marcha continua. “Estamos comprometidos a realizar o Segundo Objetivo Centenário de construir a China como um grande país socialista moderno em todos os aspectos e avançar o rejuvenescimento da nação chinesa por meio da modernização de estilo chinês”, disse.

O Brasil de Fato lança, neste mês, “Como a Longa Marcha Forjou a Nova China”, produzido ao longo dos principais trechos da travessia nas províncias de Jiangxi, Guizhou e Gansu. Todas as entrevistas mencionadas aqui fazem parte do projeto, que poderá ser conferido no canal do YouTube do BdF.

Editado por: Rafaella Coury

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