O presidente chinês Xi Jinping discursou, nesta quinta-feira (22), em uma cerimônia em Pequim em comemoração aos 90 anos da vitória da Longa Marcha do Exército Vermelho de Operários e Camponeses. “Este feito revolucionário de proporções épicas tem grande significado na história do nosso Partido, país e forças armadas, e tem um profundo impacto no nosso caminho rumo ao rejuvenescimento da nação chinesa”, afirmou Xi, também secretário-geral do Partido Comunista da China (PCCh) e presidente da Comissão Militar Central.
No discurso, Xi classificou a Longa Marcha como “a conquista revolucionária que abalou a Terra” e destacou que o acerto da liderança do Partido e o estabelecimento do papel central de Mao Zedong foram decisivos para a vitória. “O grande espírito da Longa Marcha será sempre um tesouro precioso e uma força motriz poderosa que nos inspira a superar dificuldades e avançar com coragem”, disse, segundo a Xinhua.
Em 22 de outubro de 1936, a Primeira e a Segunda Frentes do Exército Vermelho se encontraram em Jiangtaibao, no que hoje é a Região Autônoma de Ningxia, encerrando oficialmente a Longa Marcha. Dois anos e cinco dias haviam se passado desde a travessia do rio Yudu, em Jiangxi, que marcou o início da epopeia.
Em menos de uma semana, coincidem os aniversários do início e da vitória da Longa Marcha. Em 17 de outubro, foi o aniversário dos 92 anos do seu início, quando mais de 86 mil soldados cruzaram o rio Yudu, em Ruijin, em 1934. Neste 22 de outubro, completam-se os 90 anos do encerramento oficial.
Divergência e reunificação
Em setembro de 1935, depois que a primeira e a quarta frentes se encontraram pela primeira vez em Maogong, Zhang Guotao, líder da quarta frente, recusou a decisão de Mao Zedong, Zhou Enlai e do Comitê Central de seguir marchando para o norte. Ele decidiu conduzir suas tropas para o sul.
Apesar de algumas vitórias iniciais, sua frente acabou se reduzindo pela metade, passando de cerca de 80 mil para 40 mil soldados. O fracasso gerou uma crise interna e a intervenção da Internacional Comunista, que pressionou Zhang a cancelar o segundo Comitê Central que ele havia criado para disputar o poder com o comitê central liderado por Mao.
Após as derrotas, a quarta frente retoma o caminho para o norte e, em 9 de outubro de 1936, se reencontra com a primeira frente e parte da segunda em Huining, no sul da província de Gansu. “Reunidas em Huining, as forças do Exército Vermelho formaram uma frente poderosa e unificada e, em breve, marcharam para os campos de batalha da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa”, afirmou Ren Xia, diretora do Memorial da Vitória da Longa Marcha em Huining, ao Brasil de Fato. O encontro entre a primeira e a segunda frente em Jiangtaibao, em 22 de outubro, completou a reunificação das três forças.

Marchar para o norte
Além da reorganização militar, a decisão de avançar para o norte visava principalmente preparar o enfrentamento à invasão japonesa. O Japão havia iniciado a ocupação da Manchúria, no nordeste da China, em 1931. Em 1° de agosto de 1935, Wang Ming, representante do PCCh junto à Internacional Comunista em Moscou, escreveu a “Carta a Todos os Compatriotas sobre Resistir ao Japão e Salvar a Nação”. Em dezembro desse ano, o Partido decidiu formalmente pela criação de uma Frente Unida Anti-Japonesa para reunir todas as forças do país.
Ao percorrer o interior rumo ao norte, o Exército Vermelho levava a mensagem de resistência à invasão. “O povo comum passou a compreender que tipo de exército era o Exército Vermelho. Viu sua disciplina rigorosa e cuidado com os civis. O Exército Vermelho estava marchando para o norte, mais próximo das linhas de frente da resistência, para defender uma nação à beira do desastre”, afirmou Hu Changyong, pesquisador do Instituto Central de História do Partido, ao Brasil de Fato.
A revolução em marcha
Cerca de 2.600 mulheres participaram da Longa Marcha, a grande maioria como parte do Regimento Independente de Mulheres. “Quando pensamos na Longa Marcha, geralmente imaginamos batalhas e soldados esfarrapados cruzando montanhas cobertas de neve e pântanos. Menos mencionadas são as mulheres que marcharam ao lado deles”, disse Ren Xia.
O regimento ficou responsável por escoltar 500 soldados feridos e doentes pelo Passo de Lazikou enquanto o inimigo se aproximava pela retaguarda. Das cerca de 100 combatentes, 70 morreram em Lazikou, segundo Cairang Lamu, guia do Memorial da Batalha de Lazikou.
Diversas soldadas deram à luz durante o trajeto e tiveram que deixar os recém-nascidos para trás. He Zizhen deu à luz uma filha durante a marcha e o bebê teve de ser entregue. Nas palavras de He Zizhen, citadas por Ren Xia: “A mãe não tem escolha. As regulamentações centrais proíbem trazer bebês na marcha; isso é disciplina. Só espero que você cresça com saúde. Quando a revolução vencer, a mãe certamente voltará para te buscar”.
“Essas são dificuldades que os revolucionários do sexo masculino dificilmente podiam imaginar”, avaliou Ren Xia. “As soldadas realizavam trabalho de propaganda, carregavam macas e também lutavam no campo de batalha”, acrescentou.
O Exército realizava, ao longo de toda a rota, o que Hu Changyong descreve como três tarefas simultâneas: combate, derrubada dos tiranos locais e trabalho de massa. “Estabelecer o poder político, construir bases e abolir impostos e taxas exorbitantes continuaram em todo o percurso”, afirmou o pesquisador do Instituto Central de História do Partido.
Na região de Jiangtaibao, apenas nos dias que antecederam o encontro final das três frentes, o Terceiro Regimento Vermelho fundou o Comitê do Partido do Condado de Jingning, dez governos soviéticos distritais e 35 governos soviéticos municipais. Mais de 253 jovens locais se alistaram, segundo Zhang Jianmin, pesquisador do Memorial de Jiangtaibao.
A marcha atravessou territórios de dezenas das 56 etnias do país. O Exército aplicou uma política de disciplina rigorosa, proibindo que as tropas tomassem “nem mesmo uma agulha ou um fio das pessoas locais”, conta Cairang Lamu, sobre a passagem pelo condado de Diebu. “Os povos das etnias minoritárias entenderam que o Partido lutava pelos interesses de toda a nação chinesa, incluindo todas as minorias étnicas. Isso criou o terreno crítico para a construção de um país unificado multiétnico sob a liderança do Partido Comunista”, explica Hu Changyong.
Uma máquina de semear
A unidade que percorreu o maior trajeto cobriu mais de 12.500 quilômetros por 14 províncias. O percurso total das três frentes superou 30 mil quilômetros. Ao longo do caminho, o Exército distribuiu terras dos latifundiários aos camponeses, convocou assembleias populares e recrutou combatentes.
Em dezembro de 1935, Mao chegou a dizer que “a Longa Marcha é um manifesto, uma equipe de propaganda e uma máquina de semear”.
“Na minha visão, o Exército Vermelho emergiu da Longa Marcha mais forte, não mais fraco, e o mesmo aconteceu com nosso Partido”, avaliou Ren Xia. “Durante a Longa Marcha, o Partido e o Exército Vermelho encontraram um caminho adequado às realidades da China, adquiriram teorias orientadoras corretas e estabeleceram um núcleo sólido de liderança. Esses foram ganhos decisivos do teste da Longa Marcha”.
Em 1° de outubro de 1949, 13 anos depois do encontro em Jiangtaibao, era fundada a República Popular da China. No discurso desta quinta-feira, Xi afirmou que o caminho da Longa Marcha continua. “Estamos comprometidos a realizar o Segundo Objetivo Centenário de construir a China como um grande país socialista moderno em todos os aspectos e avançar o rejuvenescimento da nação chinesa por meio da modernização de estilo chinês”, disse.
O Brasil de Fato lança, neste mês, “Como a Longa Marcha Forjou a Nova China”, produzido ao longo dos principais trechos da travessia nas províncias de Jiangxi, Guizhou e Gansu. Todas as entrevistas mencionadas aqui fazem parte do projeto, que poderá ser conferido no canal do YouTube do BdF.

