Estamos finalizando um período eleitoral em que fomos bombardeados, diariamente, por notícias falsas, discursos de ódio e narrativas que nos colocaram em xeque muitas vezes, na tentativa de minar a nossa própria autenticidade. Em um cenário como esse, temos a impressão de que as notícias negativas se sobrepõem às positivas e de que há cada vez menos espaço para a esperança. Mas o que está por trás dessa sensação permanente de angústia?
Parte dessa realidade pode ser compreendida a partir da necropolítica e de sua capacidade de esvaziar a política por dentro, utilizando os próprios instrumentos democráticos para enfraquecer a democracia, naturalizar a violência e desumanizar o outro. E sabemos, não se trata de uma característica exclusiva do Brasil ou da América Latina. É um fenômeno que atravessa fronteiras e que, em períodos eleitorais, ganha contornos ainda mais evidentes, materializando-se nas relações sociais, nos discursos públicos e nas experiências cotidianas.
Diante disso, a ansiedade toma conta de nós. Afinal, também queremos viver. Queremos o direito à normalidade, à tranquilidade e à felicidade. Queremos poder fazer planos, compartilhar momentos com quem amamos e acreditar no futuro sem que o medo e a incerteza ditem permanentemente o ritmo de nossas vidas.
Entretanto, estamos diante de grandes dilemas civilizatórios, de uma crise climática que exige respostas urgentes e da necessidade de repensarmos um sistema de Justiça capaz de enfrentar as complexidades do nosso tempo. São muitas responsabilidades, muitos desafios e, frequentemente, a sensação de que o tempo é curto demais para tantas urgências.
Ainda assim, não podemos permitir que o peso dessas questões nos faça esquecer o que estamos tentando construir. Afinal, começamos a experimentar, concretamente, o gosto da dignidade com os governos Lula e Dilma. Começamos a reconhecer direitos, ocupar espaços e compreender que uma vida mais justa não é um privilégio, mas algo que deve ser garantido a todas as pessoas. Não queremos perder essas conquistas, e não podemos abrir mão de defendê-las.
O período eleitoral vai passar. Os dias de tensão darão lugar a outras agendas, mas os desafios da democracia continuarão exigindo de nós participação, compromisso e coragem. Por isso, não podemos abandonar o desejo de normalidade, nem renunciar ao direito à felicidade. A luta política também precisa ser uma luta pela possibilidade de viver bem.
E talvez seja justamente aí que reside um dos nossos maiores desafios: compreender que resistir não significa apenas enfrentar, denunciar e combater. Resistir também é continuar existindo, amando, celebrando e nos confraternizando. É preservar os vínculos que nos sustentam, mesmo quando o mundo parece insistir em nos separar.
Essa angústia é histórica. Ela carrega as marcas das lutas de gerações que vieram antes de nós e nos convoca a pensar no futuro da humanidade. Não precisamos ignorar as dificuldades para cultivar a esperança, tampouco abandonar nossas responsabilidades para reconhecer que também merecemos descanso, alegria e leveza.
Que saibamos atravessar este período com firmeza, sem perder a ternura.
Com consciência, sem abrir mão da alegria.
Com os pés fincados na realidade, sem deixar de sonhar com um futuro diferente.
Sejamos firmes e, ao mesmo tempo, leves. Porque defender a dignidade humana também é defender o direito de ser feliz.
Felicidade a todos e todas!
*Adriana Dantas é estudante de Direito e associada da ABJD
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

