Por Marco Túlio da Silva
A recente proposta australiana intitulada My Feed, My Way permite que as pessoas escolham se querem ver conteúdo personalizado ou desligar o algoritmo e visualizar apenas o conteúdo das pessoas que seguem. A iniciativa busca oferecer ao usuário maior controle sobre o que aparece em sua tela e recoloca uma questão fundamental: quem deve decidir o que merece nossa atenção e por que isso importa?
A proposta prescreve um remédio para a ilusão de que acompanhamos o mundo quando, na verdade, vemos apenas aquilo que uma plataforma decidiu mostrar. O problema não é apenas tecnológico. É social, político e democrático.
Voltando a 2018, o escândalo da Cambridge Analytica mostrou como dados pessoais de milhões de usuários do Facebook foram utilizados para construir perfis e direcionar mensagens políticas. O episódio expôs uma ameaça que vai muito além da privacidade: a possibilidade de influenciar escolhas eleitorais sem que as pessoas compreendam plenamente os mecanismos dessa influência. Algo semelhante ocorreu no Brexit.
Em 2026, o debate eleitoral brasileiro traz a questão novamente ao centro da discussão. Segundo dados das prestações de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os candidatos gastaram cerca de R$ 290 milhões com serviços da Meta, empresa que recebeu o maior volume de recursos das campanhas eleitorais.
O dado evidencia a dimensão econômica da presença das plataformas digitais no processo eleitoral e reforça uma questão fundamental: quando empresas privadas concentram tanto poder na circulação de informações, quem fiscaliza sua influência sobre aquilo que vemos, discutimos e em que acreditamos?
Os algoritmos não são neutros. Desenvolvidos para atender a objetivos específicos, podem privilegiar conteúdos que provocam indignação, medo e conflito, emoções capazes de ampliar as interações e manter os usuários conectados. Esse mecanismo, que gera engajamento comercial, também gera custos sociais.
O antropólogo Michel Alcoforado ajuda a compreender por que isso importa. Nossas escolhas não nascem isoladas: são moldadas por valores, símbolos, códigos culturais e relações sociais. Ao selecionar o que ganha visibilidade, uma plataforma não apenas distribui informações. Ela também interfere no que consideramos relevante, em quem reconhecemos como referência e nos grupos com os quais nos identificamos.
O neurocientista Miguel Nicolelis acrescenta outra dimensão. O cérebro humano não pode ser reduzido a uma máquina computacional: somos seres biológicos e sociais, transformados pelas experiências e pelo ambiente em que vivemos. A exposição repetida a determinados conteúdos, a validação por curtidas e a pressão das reações coletivas podem influenciar percepções e comportamentos.
Risco vai além das eleições
Isso não significa que sejamos inevitavelmente marionetes dos algoritmos. Significa que precisamos definir quem estará no controle e de que maneira, considerando as condições em que fazemos nossas escolhas.
E essas condições estão mudando. As plataformas ampliam o acesso à informação, aproximam pessoas e favorecem a mobilização social. Mas, quando a lógica comercial passa a organizar uma parcela crescente da nossa experiência, a atenção humana se transforma em mercadoria.
O risco vai além das eleições. Se cada pessoa recebe uma versão particular do mundo, a empatia e a compaixão ficam comprometidas. Se a indignação vale mais do que a reflexão, como sustentar o diálogo? E, se não sabemos por que determinado conteúdo aparece diante de nós, como exercer plenamente nossa autonomia?
Desligar o algoritmo não resolverá tudo. Tampouco se trata de demonizar a tecnologia. O desafio é garantir transparência, fiscalização e responsabilidade, além de oferecer aos cidadãos condições reais de compreender e controlar sua experiência digital. Governos, escolas, famílias e sociedade civil têm papel decisivo na formação de uma cultura crítica diante dessas ferramentas.
Cambridge Analytica, as controvérsias envolvendo a Meta e a iniciativa australiana são episódios distintos, mas apontam para uma mesma questão central: uma parcela crescente do poder de influenciar a sociedade está concentrada nas mãos de poucas empresas privadas, que giram em torno dos interesses daqueles que estão entre os 0,1% mais ricos do mundo.
Por isso, defender o combate à desigualdade e a democracia significa refletir e debater quem controla os fluxos de informação que moldam nossas opiniões e relações. Afinal, o que está em jogo não é apenas o futuro das redes digitais. É a nossa capacidade de pensar sem uma manipulação asfixiante, conviver com as diferenças com empatia e compaixão e interagir para além das telas.
Em um mundo em que tantos disputam nossa atenção e em que os debates políticos colocam propostas em segundo plano, refletir e pensar são atos de coragem, de combate às desigualdades e de preservação da democracia.
Marco Túlio da Silva é auditor fiscal, vice-presidente da Associação dos Funcionários Fiscais do Estado de Minas Gerais (AFFEMG) e ex-presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em direito tributário, especialista em inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

