Nos corredores de uma escola ocupada, nas assembleias dos centros sociais da periferia e nas passeatas que nas últimas semanas tomaram Roma, a pergunta é a mesma: quem paga a crise?
A Itália vive seu outono mais quente em anos. Desde 16 de outubro, no “No Meloni Day”, estudantes secundaristas e universitários ocupam escolas e vão às ruas, enquanto caminhoneiros, agricultores e pescadores bloqueiam estradas contra o preço dos combustíveis. A palavra de ordem que se ouve nas praças resume tudo: “Soldi alla scuola, non alla guerra”, que se traduz como “dinheiro para a escola, não para a guerra”.
“Uma das principais reivindicações é destinar mais recursos aos serviços sociais e não ao rearmamento”, afirma Maurizio, em nome do Centro de Iniciativa Popular, centro social de referência para a organização do bairro Alessandrino, na periferia leste de Roma.
“Há tempos, e sobretudo nesta última legislatura e nos últimos orçamentos, o gasto militar está sendo triplicado: de 1,5% para 5%. Isso traz cortes nos serviços sociais, como a escola, a educação e a saúde. Neste momento de crise econômica, energética e também ecológica, não se pode pensar em destinar recursos às armas, deixando a população no meio de mil problemas. Além disso, a própria escolha de investir em armas leva inevitavelmente à guerra, e isso é algo que precisa ser evitado a todo custo.”
Para Maurizio, a crise tem muitas faces, mas uma se destaca: “Podemos identificá-la sobretudo com a crise energética e o aumento do custo dos combustíveis, que recai sobre todas as mercadorias e leva a um empobrecimento geral dos trabalhadores e da população mais pobre. Setores como os caminhoneiros ou os agricultores estão pagando um preço bastante alto e vivem em condições de não sobrevivência. Alguns anos atrás, essas categorias estavam bastante bem”.
Simone, que faz parte de um coletivo universitário de Roma, concorda. “Enquanto o custo de vida sobe, os salários continuam iguais, e a isso se somam o trabalho informal, os estágios não remunerados disfarçados de atividade formativa e a ausência de um salário mínimo.”
Ela representa “estudantes contra o rearmamento e a guerra imperialista e todas as suas consequências: o custo de vida, os cortes nas instituições públicas, a repressão” e reforça a necessidade de ir às ruas, “porque a luta dá resultado”. “Exigimos melhores condições e queremos incentivar quem ainda não está convencido a tomar a situação nas próprias mãos. Não podemos ficar parados enquanto acontecem genocídios, enquanto o dinheiro público financia ajuda militar para guerras imperialistas, enquanto a saúde e a escola são destruídas. Queremos o fim da cultura do luxo e a expropriação das grandes fortunas.”
Repressão não noticiada
Quando questionado sobre a atuação do governo em relação aos protestos, Maurizio afirma que a resposta segue um roteiro conhecido: “Como sempre, a solução adotada é, antes de tudo, demagógica e, depois, repressiva. Os temas são tratados apenas do ponto de vista da violência e da difamação das lutas, e nunca sobre os problemas concretos e as condições sociais que levam ao desespero que, por sua vez, levou às lutas. Afinal, isso significaria questionar a capacidade de lucrar e de enriquecer da burguesia italiana e da burguesia internacional que faz negócios na Itália.”
A violência também é destacada por Simone, em um relato que contrasta com o da grande mídia: “Como sempre, o governo e a polícia reprimiram os protestos. Nos últimos dias se fala muito das vitrines quebradas das lojas de Milão, das bombinhas lançadas pelos estudantes contra o Ministério da Educação. Nunca se fala da violência gratuita da polícia nem das reivindicações. Além disso, saiu um novo pacote de segurança que endurece, em particular, as penas e as acusações contra manifestantes menores de idade”.
“Não merece nem um comentário. Chegou a níveis parecidos com os de um programa de humor”, concorda Maurizio sobre a imprensa hegemônica italiana. E alerta: “Os próximos passos são os mais difíceis: consolidar este movimento e dar a ele uma perspectiva política, o que, na Itália, infelizmente, não é fácil”.
“Pessoalmente, vou lutar para que se aproveite ao máximo a vontade de luta das pessoas”, conclui Simone. “O mundo está mudando e a luta vai precisar de todo o nosso compromisso e entusiasmo.”
Estudantes vão à luta
Simone explica que a organização italiana está se espelhando no que está acontecendo na França, ao constatar suas próprias condições. “Muitas meninas e meninos começaram a se interessar pelo que está acontecendo e a se manifestar, levando a Roma, depois de muito tempo, uma passeata de 15 mil estudantes em greve contra o ministério, que, para desviar a atenção dos problemas reais, introduziu novas reformas racistas nas escolas. Muitas escolas foram ocupadas, inclusive nas periferias, algo pouco comum.”
Um exemplo deste movimento é que, na zona leste de Roma, os estudantes do Liceo Classico e de Ciências Humanas Benedetto da Norcia, uma escola pública de ensino médio, ocuparam o prédio.
“Ocupamos para denunciar publicamente a degradação da nossa escola, com problemas estruturais, e para apoiar os outros estudantes, italianos e internacionais, que se manifestam conosco. Fomos às praças para denunciar o custo de vida insustentável, que continua corroendo o poder de compra das famílias, e para exigir uma intervenção concreta do governo nas políticas de educação e saúde: nos últimos anos os salários caíram 6,1%, enquanto o aumento acumulado do custo de vida passou de 24%.”
Eles pedem o fim dos cortes na escola pública e a garantia de espaços seguros e dignos para o estudo, e o respeito ao direito à saúde, com tempos de espera razoáveis e investimentos estruturais no Serviço Sanitário Nacional, por exemplo.
Mesmo no caso de estudantes de ensino médio, a resposta das instituições, denunciam, foi de hostilidade: “Aplicaram políticas repressivas, decretos de segurança e medidas punitivas. O governo quer reprimir a dissidência democrática, inventando crimes com fins puramente propagandísticos em vez de enfrentar as raízes do mal-estar social. Ao mesmo tempo, a imprensa hegemônica tenta esconder a verdade, concentrando-se em episódios marginais para criminalizar a resposta de classe.”
“França, Espanha, Albânia e Brasil estão unidos pela mesma luta global contra a injustiça. Queremos continuar nos fazendo ouvir, nos mobilizando e resistindo até que mudem as condições que geram desigualdade, exclusão e sofrimento”, concluem, em nota enviada ao Brasil de Fato.
O sistema precisa mudar
“Da Europa, muitas vezes olhamos para a América Latina como laboratório do neoliberalismo, com todos os danos que ele causava, mas também como laboratório de lutas e do socialismo do século 21”, diz Maurizio. “O fato de hoje a Europa viver uma situação parecida com a que a América Latina já viveu nos mostra que estamos todos imersos no mesmo sistema, que precisamos mudar.”
Já o coletivo de estudantes do Liceo reforça que a luta dos brasileiros pela educação popular e pela justiça social os inspira e lembra que a resistência estudantil é um movimento global.
O movimento já olha para os próximos passos: a greve geral de 30 de outubro, à qual se somam estudantes e trabalhadores, e a greve estudantil europeia contra a guerra, em 20 de novembro.

