Entreguismo

Mapeamento expõe rede de interesses estrangeiros que atua em favor de Flávio Bolsonaro

Mapa interativo indica relações entre pessoas, organizações e dinheiro em torno da candidatura bolsonarista

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Mapeamento mostra teia de relações de Flávio Bolsonaro com pessoas, organizações, empresas e governos | Crédito: Reprodução

O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, chegou ao segundo turno apoiado por bem mais do que a base bolsonarista, o agronegócio, federações de indústrias e cantores sertanejos. Um mapeamento divulgado nesta sexta-feira (23) expõe uma ampla rede internacional de apoio e interesses, que começou a ser tecida bem antes da campanha.

O mapeamento utilizou inteligência artificial, mas partindo de todas as informações que são públicas, sejam informações do governo brasileiro, do governo dos EUA, ou reportagens na imprensa brasileira e estrangeira. E mostra como, entre 2018 e 2025, a família Bolsonaro, e sobretudo o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, juntou aliados nos Estados Unidos, em Israel, na Europa, nos Emirados Árabes Unidos e na direita latino-americana, com foco em interferir nas eleições presidenciais de 2026.

Essa rede compõe, por exemplo, a articulação para a pressão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o Judiciário brasileiro. Mas também aparece nos manuais de campanha inspirados em Trump, nos presidentes argentino, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele, em fornecedores da campanha com sócios em Abu Dhabi e, sobretudo, num conjunto de compromissos que Flávio levou a Washington e deixou de fora do programa entregue ao eleitor.

O mapeamento mostra as conexões entre pessoas, governos, organizações, eventos, viagens, entre outras ações. O sistema permite pesquisar por nomes de pessoas, organizações e empresas, ver históricos e ampliar as conexões.

“O que o mapeamento revela é que, mais do que simpatia ou afinidade ideológica da família Bolsonaro pelos Estados Unidos, o que a gente tem de fato é uma rede real, completa e articulada de interesses estrangeiros que envolvem desde organizações não-governamentais à própria atuação do governo dos Estados Unidos para interferir e desequilibrar as eleições brasileiras em favor do candidato Flávio Bolsonaro”, explica o doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Miguel Stedile, autor do mapeamento.

O mapeamento lista 431 artores estrangeiros, dentre os quais 12 chefes de governo, identificados a partir de 816 vínculos documentados, em 32 países além do Brasil. São 86 empresas, 62 organizações, 26 órgãos de governo, 30 fundos e PACs, 18 veículos de comunicação e plataformas e 8 partidos.

Dentre os nomes identificados estão alguns bem conhecidos, como Donald Trump, Marco Rubio, JD Vance, Javier Milei, Benjamin Netanyahu e Viktor Orbán. Mas também há empresários e investidores como Guo Wengui, condenado em Nova York por fraude; Chris Buskirk, investidor de risco estadunidense; e Peter Thiel, cofundador do PayPal.

A lista também identifica 20 estrategistas e consultores, como o estrategista de extrema direita Steve Bannon; o porta-voz principal de Trump, em 2016, Jason Miller; Fernando Cerimedo, figura central em redes de desinformação na América Latina; e 10 comunicadores influentes, como Javier Negre, empresário de comunicação espanhol, conhecido por fundar redes de mídia de extrema-direita; e Matt Gaetz, comentarista político acusado em processo de tráfico sexual de duas mulheres na Flórida.

O mapeamento também expõe a rede de atuação da Rockbridge Network, uma rede conservadora dos Estados Unidos, cofundada pelo vice-presidente estadunidense, J.D. Vance, e por Chris Buskirk, que reúne doadores e estrategistas do Partido Republicano com a campanha de Flávio Bolsonaro.

Essa rede atua para influenciar as eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro, mas não por ideologia. O interesse é econômico.

Em 1º de julho de 2026, Flávio Bolsonaro entregou ao escritório de comércio dos EUA (USTR) um documento de 86 páginas, maior do que o próprio programa de governo do candidato. O que foi oferecido envolve o sistema de pagamentos do país, a união aduaneira com os vizinhos e as terras e minerais. O mapeamento mostra quem ganha com essa oferta, quem a financia e quem paga a conta, e mostra a rede de pessoas, empresas e organizações que a sustenta.

Em troca do apoio e influência nas eleições a seu favor, o mapeamento aponta que Flávio Bolsonaro ofereceu: lei para impedir o Pix de se ligar a sistemas “não ocidentais”; aliviar a “carga regulatória e tributária” das bandeiras de cartões emitidos por marcas dos EUA; “se livrar das amarras do Mercosul”, seguindo “o caminho da Argentina de Javier Milei”; e um continente “fechado à penetração estratégica não ocidental”.

Editado por: Rodrigo Gomes

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