No primeiro debate de segundo turno, transmitido pela TV Bandeirantes no dia 18 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva confrontou o candidato Flávio Bolsonaro com uma pergunta direta: “Você tem acompanhado como está a Argentina? Você sabe quanto está a pobreza da Argentina? O desemprego?”
A coordenadora econômica da campanha bolsonarista, Daniella Marques, afirmou em setembro que o plano de governo “se inspira nas mudanças realizadas pelo governo de Javier Milei“. O programa prevê um “tesouraço” de R$ 200 bilhões, com cortes no piso mínimo de saúde e educação, na política de valorização do salário mínimo e nos reajustes do BPC.
“O que Flávio Bolsonaro propõe é o que estamos sofrendo na Argentina. O que ele diz que vai fazer é o que o nosso povo está sofrendo”, disse José Campagnoli, dirigente do Movimento Direito ao Futuro e ex-deputado na cidade de Buenos Aires, em entrevista ao Brasil de Fato. Campagnoli participou do Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), realizado recentemente em Xangai.
Milei assumiu em dezembro de 2023. Desde então, 370 mil postos de trabalho formais foram destruídos, 30 mil empresas fecharam e o salário real despencou. Funcionários públicos perderam entre 30% e 37% de renda; aposentados, 20%; trabalhadores formais do setor privado, entre 5% e 7%. Os salários do setor público estão hoje 45% abaixo do nível de 2023. “Trabalhar na Argentina hoje significa que, mesmo tendo emprego, você pode estar abaixo da linha da pobreza. Há dez anos isso era impensável”, descreve Emiliano López, professor da Universidade Nacional de La Plata, que também participou do Fasg em Xangai. “Então hoje um trabalhador que precisa chegar ao fim do mês tem pelo menos dois empregos. Me abstenho de dizer menos: dois a três empregos. Porque é impossível, com um salário, mesmo sendo formal, chegar ao fim do mês.”
Confira a entrevista na íntegra com José Campagnoli, na qual o dirigente descreve o desmonte do modelo produtivo e suas consequências, fala sobre a organização para combater o avanço das políticas de Javier Milei e manda um recado para o segundo turno brasileiro.
Brasil de Fato: José, podemos começar com um panorama geral. Como você descreve a situação econômica e social que a Argentina está vivendo depois de quase três anos de governo Milei?
José Campagnoli: Na Argentina estamos vivendo uma situação econômica e social de extrema gravidade. Desde que Javier Milei assumiu em 2023 até agora, foram destruídos 370 mil postos de trabalho formais. Lembrando que a Argentina tem quase 50 milhões de habitantes e o Brasil tem 215, 220 milhões de habitantes, para se compreender a escala. Ou seja, 360 mil postos de trabalho formais destruídos, 30 mil empresas fechadas. O plano econômico de Milei também inclui uma redução drástica do poder aquisitivo e do consumo da população. Os funcionários públicos perderam entre 30% e 37% de sua renda. O setor passivo, os aposentados, perderam 20% de sua renda. E os setores formalizados também perderam entre 5% e 7% de seus ingressos. Aumentou a pobreza, aumentou a indigência.
E é um plano econômico que tem como objetivo central a desarticulação da Argentina, tal como a conhecemos, em termos centralmente produtivos. A Argentina é um país produtivo, é um país que tem fábricas, que tem empresas, que tem manufatura, que tem ciência e tecnologia aplicadas. O programa de Milei é um programa que se pode ver analisando como funcionam alguns indicadores econômicos. Por exemplo, caiu brutalmente a atividade industrial, caiu brutalmente a atividade da construção. Milei paralisou a obra pública, paralisou-a, levou a obra pública estatal a zero. E também diminui substancialmente o comércio.
O que cresce na Argentina? Crescem as exportações de hidrocarbonetos, de mineração ferrosa, do agro, do complexo sojeiro, agroindustrial. E a intermediação financeira, a timba financeira. As atividades que crescem não produzem emprego; as atividades que desmoronam são as que produzem emprego.
Então assistimos a um modelo econômico que tem como objetivo central o desmonte do modelo produtivo argentino, com a consequente correlação em perda de emprego, aumento da pobreza, aumento da indigência e da fome, que durante um tempo estava erradicada na Argentina e volta a se instalar fortemente como um problema. Que correlato social isso tem? A Argentina, tristemente, aumentou a taxa de suicídio. A taxa de suicídio na Argentina superou, em mortes violentas, os acidentes de trânsito, que sempre foram a principal causa de morte violenta, e os homicídios dolosos. Multiplica-se por cinco a relação entre suicídios e homicídios dolosos. Há um setor de nossa população que, ao não ver alternativas, entra em crise vinculada a problemas de saúde mental e opta por essas decisões. Principalmente 78% em homens jovens entre 17 e 34 anos. Essas são algumas das consequências do modelo que Milei está levando adiante na Argentina.
O professor Emiliano nos dizia que, na Argentina, trabalhadores com emprego estão, pela primeira vez em muito tempo, abaixo da linha da pobreza. Como está sendo, na prática, a realidade do emprego hoje no seu país, além do multiemprego e da informalidade?
Há vários fenômenos convergentes. Em primeiro lugar, trabalhadores formais sindicalizados que estão abaixo da linha de pobreza. Depois, aumentou a informalidade, ou seja, aumentou a quantidade de trabalhadores que não têm trabalho formal, que não têm os direitos garantidos pelas leis argentinas vinculados ao trabalho formal. E um aumento do pluriemprego: para sustentar uma capacidade aquisitiva similar à que tinham há 4 ou 5 anos, em vez de trabalhar em um emprego 8 horas de segunda a sexta, têm que trabalhar em 3 empregos. Então há uma população exausta, exausta, porque o nível de exigência para poder subsistir é tão alto que se torna quase impossível uma vida em condições dignas para uma parte importante da população.
Então há uma deterioração global das condições existenciais de uma parte substantiva do nosso povo a partir das medidas econômicas e sociais que Milei tomou, que são medidas direcionadas a isso. Ele implementou e aprovou no Congresso, com apoio e cumplicidade de vários setores, uma reforma trabalhista de precarização laboral. Foram levados adiante programas e medidas que desfinanciam o sistema educativo, o sistema de ciência e de técnica. Os pesquisadores do principal centro de pesquisa da Argentina, o Conicet, hoje perderam 30% a 40% de sua capacidade aquisitiva. Os docentes universitários, o mesmo. Houve grandes marchas e grandes lutas, uma há pouquíssimos dias na Argentina, multitudinária, que Milei reprimiu, de docentes universitários exigindo a recomposição de ingressos porque é muito grave a situação desse setor. O impacto desse plano econômico sobre os trabalhadores em todos os ramos e em todas as atividades é de uma gravidade muito importante em nosso país.
Milei ficou famoso durante a campanha por dizer que não negociaria com comunistas, em referência especificamente à China. Em três anos, vimos o alinhamento com Trump e Netanyahu e a recusa de entrar nos Brics. Como você avalia esse posicionamento geopolítico de Milei?
Acreditamos que é absurdo o alinhamento geopolítico de Milei. Hoje estamos assistindo a uma transição hegemônica em escala planetária, onde vemos um declínio claro da potência hegemônica global, que foram os Estados Unidos durante muitos anos, e vemos uma ascensão de potências intermediárias como China, Índia, Rússia, inclusive Irã, África do Sul e outras. E Milei, a primeira decisão que toma quando assume seu governo, é não entrar nos Brics, um convite que havia sido feito ao último governo peronista.
Então Milei se isola das principais potências ascendentes do mundo e trava uma aliança que não traz nenhum benefício para a Argentina, com dois países que vão sendo cada vez mais marginais, como o de Trump nos Estados Unidos e o de Netanyahu em Israel. Que são dois países que, observando as votações na ONU, terminam votando sozinhos contra o concerto das nações, em temas como o bloqueio a Cuba, que não condenam o genocídio na Palestina porque o promovem. Então Milei se alia com países párias que não trazem nenhum benefício para a Argentina.
Os principais dois sócios comerciais do nosso país são Brasil e China, que são parte dos Brics, e Milei decide não entrar nos Brics. Portanto há um alinhamento automático, produto da ideologia obtusa de Milei, e ultrapassada, porque o que passou de moda é a ideologia de direita reacionária, embora surjam expressões no mundo da direita. Os programas econômicos que essas direitas sustentam em muitos casos, e no nosso país, são programas ultrapassados. O neoliberalismo como programa econômico é um programa superado. E as principais potências que em algum momento o levaram adiante em seus países, os Estados Unidos levam hoje adiante um programa protecionista. Milei, com um discurso velho, leva adiante um programa velho neoliberal que poucos países no mundo levam adiante e nenhuma potência pujante leva adiante. Todas as potências pujantes têm o Estado como ordenador e reitor de sua economia, orientando o crescimento, orientando o desenvolvimento e protegendo as indústrias-chave diante de uma competição desmadrada em uma globalização fragmentada. Ou seja, Milei vai na contramão do mundo e isso gera um custo altíssimo para o nosso país.
E quais vêm sendo a resistência e as perspectivas de combate a esse modelo?
Na Argentina também há resistência. Na Argentina há um povo que está se organizando, que está lutando com dificuldades, com debilidades, vindo de frustrações prévias, fortes, que nos marcaram, mas estamos lutando. E além disso acreditamos que não basta apenas resistir, mas há que se construir uma alternativa. E estamos também dedicados a isso, nós, o Movimiento Derecho al Futuro ao qual pertenço, e outros espaços políticos, em construir uma alternativa ampla a Milei que possa colocar um freio nele mas também construir um programa de futuro. Acreditamos que o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, é quem melhor representa as possibilidades de enfrentar com êxito este governo e estamos construindo e trabalhando para que seja o próximo candidato a presidente do nosso país, porque acreditamos que é preciso pôr fim a essa experiência de quatro anos de Milei e começar a construir uma página distinta na Argentina.
O que você diria ao povo brasileiro que vai às urnas no segundo turno?
Quero aproveitar o momento para enviar um forte apoio e toda a solidariedade da Argentina, do nosso povo, ao povo irmão do Brasil, ao Partido dos Trabalhadores, a Lula, que estão juntando esforços com um empenho fenomenal para tentar reverter o resultado do primeiro turno. O que Flávio Bolsonaro propõe é o que estamos sofrendo na Argentina. O que ele diz que vai fazer é o que o nosso povo está sofrendo.
Portanto desejamos ao povo do Brasil que não passe por essa experiência que estamos passando. Sempre é melhor, desde o campo nacional e popular, poder melhorar as coisas que há para melhorar do que apostar num salto no vazio que acaba retrocedendo 20 anos no que foi conquistado. Muita força, estamos com vocês.
