Opinião

O SUS em perigo

Proposta de Flávio Bolsonaro de cortes orçamentários pode comprometer um das mais importantes sistemas de saúde do mundo

Mobilização em defesa do SUS, em São Paulo (SP)
Mobilização em defesa do SUS, em São Paulo (SP) | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

O Sistema Único de Saúde (SUS), uma conquista monumental do povo brasileiro, está sob ameaça. Fruto da mobilização social e da Reforma Sanitária consagrada na Constituição Federal de 1988, o SUS garante serviços essenciais, como vacinação, consultas, cirurgias, transplantes, tratamentos, medicamentos, atendimento de urgência e assistência em saúde mental.  Além disso, atua no saneamento, na vigilância sanitária e no combate a endemias.  Mais do que um sistema de saúde, o SUS protege vidas, reduz desigualdades e assegura direitos fundamentais.

No entanto, essa conquista está ameaçada pela austeridade, pelo subfinanciamento, pela precarização e pela expansão dos interesses privados.  O resultado é um sistema pressionado por demandas crescentes e sem recursos suficientes para atender às suas responsabilidades. O Arcabouço Fiscal (Lei Complementar nº 200/2023), por exemplo, limita o crescimento das despesas federais e restringe investimentos sociais, agravando a situação.

A proposta de Flávio Bolsonaro (PL), de cortar R$ 250 bilhões nas despesas obrigatórias do orçamento federal, é particularmente alarmante.  Retirar recursos de políticas essenciais para atender ao ajuste fiscal coloca direitos fundamentais em risco, comprometendo a capacidade do SUS de cumprir sua missão.

A experiência recente demonstra que cortes orçamentários têm impactos significativos. Entre 2017 e 2022, durante os governos Temer e Bolsonaro, o financiamento federal da saúde perdeu participação no orçamento. A parcela das despesas do Ministério da Saúde na receita corrente líquida da União diminuiu de cerca de 15% para aproximadamente 13%, representando uma redução de quase dois pontos percentuais, equivalente a uma perda acumulada de cerca de R$ 70 bilhões na saúde pública.  Essa redução afetou principalmente os que mais dependem do SUS: trabalhadores, aposentados e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A implementação da proposta de Flávio Bolsonaro na saúde resultaria em menos consultas, prevenção e acompanhamento na atenção básica.  Nos hospitais, as filas poderiam aumentar e os procedimentos atrasar.  Além disso, poderia haver falta de recursos para medicamentos, saúde mental, oncologia e transplantes.  Esses não são apenas números abstratos; representam tratamentos interrompidos, atendimentos negados e vidas expostas ao abandono.

A redução de investimentos na atenção primária leva a um aumento de internações evitáveis e pressiona os serviços de urgência.  A interrupção de programas de vacinação contribui para a queda da cobertura e o retorno de doenças controladas. Cada real retirado da prevenção pode gerar custos maiores no futuro, além de um sofrimento que não pode ser medido apenas em planilhas.

A redução de recursos pode comprometer o combate à dengue e outras endemias, a fiscalização sanitária e agravar problemas de saneamento. Em 2023 e 2024, o país enfrentou a epidemia de dengue, além de surtos e aumento da circulação de chikungunya e oropouche em diversas regiões. Emergências climáticas, como as enchentes no litoral norte de São Paulo em 2023, as secas e queimadas na Amazônia e no Pantanal, e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, exigiram ações de vigilância, assistência, vacinação, atendimento às populações afetadas e reconstrução. Um corte orçamentário poderia prejudicar gravemente o combate a epidemias e a gestão de crises sanitárias decorrentes de emergências climáticas.

A pesquisa e a formação de profissionais também perderiam capacidade de resposta, deixando o Estado menos preparado para proteger a população em um cenário de riscos sanitários e ambientais cada vez mais complexos.

Cortar R$ 250 bilhões sem preservar os direitos sociais não é responsabilidade fiscal: é transferir o custo do ajuste para quem mais precisa do Estado. O SUS não pode ser tratado como gasto descartável.  É fundamental defender o financiamento público, preservar e ampliar os recursos para a saúde e mobilizar trabalhadores, usuários, movimentos sociais e toda a sociedade contra os cortes que ameaçam direitos.

O voto em Lula é crucial para garantir a existência do SUS e proteger a saúde pública do desmonte e da privatização. Defender o direito constitucional à saúde exige engajamento real: precisamos fortalecer os movimentos sociais, ocupar as ruas e pressionar por um orçamento que priorize a vida, e não o lucro do mercado. A reconstrução e a proteção do SUS dependem da nossa organização popular e do voto consciente em quem assume o compromisso de cuidar do povo brasileiro.

*Thiago Bagatin é professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutor em Psicologia

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Franciele Petry Schramm

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