ANÁLISE

Os acionistas da violência de Flávio Bolsonaro

A candidatura de Flávio Bolsonaro evidenciou uma hipocrisia intrínseca em parte de seu eleitorado

O senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL)
O senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) | Crédito: Miguel Schincariol/AFP

A candidatura de Flávio Bolsonaro evidenciou uma hipocrisia intrínseca em parte de seu eleitorado. O discurso moralista de combate à corrupção e respostas rigorosas no campo da segurança pública não encontram lastro num candidato envolto em questionamentos diante de suas ligações com as milícias e o crime organizado e da inexplicável origem de seu patrimônio, em tudo incompatível com o salário de um senador da República.

Aos casos mais conhecidos, a exemplo do esquema das rachadinhas operado por Fabrício Queiroz em seu gabinete e das suspeitas de lavagem de dinheiro em uma loja de chocolates, somaram-se novos elementos. Ainda em julho de 2026, a pedido da Polícia Federal (PF), foi aberta investigação contra o então senador e atual candidato à presidência para apurar os crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Em manifestação, a Procuradoria Geral da República (PGR) declarou haver indícios consistentes das suspeitas e concordou com a abertura do inquérito. A investigação ocorria no marco do filme Dark Horse, que narrava a história de seu pai, Jair Bolsonaro. A abertura do inquérito só veio à público meses depois, aumentando ainda mais as desconfianças de favorecimento do ministro André Mendonça, relator do caso, a Flávio Bolsonaro. O pedido de 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para suposto financiamento do filme nunca fora explicado.

Para citar apenas um outro caso, em outubro de 2026 Flávio se tornou alvo de nova investigação no Supremo Tribunal Federal por suposto crime de lavagem de dinheiro praticado com o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro. Tomaz, por sua vez, é alvo de outra investigação por suspeita de envolvimento no desvio de recursos do INSS.

É nesse contexto que a história das contradições e moralismo seletivo ganha componentes adicionais. No dia 21 de outubro, há poucos dias do segundo turno das eleições de 2026, duas notícias chamavam atenção. A primeira trazia a informação de que o general Augusto Heleno, preso por tentativa de golpe de Estado, estaria articulando de dentro de sua prisão domiciliar as indicações de comandantes das forças armadas num eventual governo de Flávio Bolsonaro. Um de seus interlocutores seria justamente o atual comandante da Força Aérea Brasileira, o tenente-brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno.

O segundo informe noticiava que Silvinei Vasques, então chefe da Polícia Rodoviária Federal sob Jair Bolsonaro, estaria também envolvido em articulações para nomeações na corporação caso o filho 01 de Bolsonaro fosse eleito. Vasques foi o responsável pela operação da PRF que buscou dificultar que eleitores, principalmente no Nordeste, comparecessem às urnas. Condenado a 24 anos de prisão por tentativa de golpes de Estado, Vasques teria enviado a Carlos Bolsonaro sugestões para o comando da PRF.

Não é de todo estranho que um candidato que acumula suspeitas de envolvimento em esquemas criminosos tenha entre seus interlocutores para áreas sensíveis do Estado pessoas que já atentaram contra o próprio país em nome de um projeto de poder reacionário, então encabeçado por seu pai, Jair Bolsonaro. Todavia, é a naturalidade com que discutimos episódios tão absurdos quanto esses que nos leva recorrentemente ao abismo.

Duas questões de fundo surgem das notícias acima. Similares em conteúdo, expressam ao mesmo tempo a derrocada da democracia enquanto valor social e o descontrole e autoritarismo que grassa nas instituições de violência do Estado.

A primeira questão impõe um reconhecimento e um desafio. O reconhecimento de que as promessas não cumpridas da democracia burguesa geraram uma situação na qual, reduzida muitas vezes ao rito democrático, a democracia perde seu valor diante de uma sociedade desalentada em desigualdades cada vez mais gritantes. A aposta em políticas de arrocho fiscal e taxas de juros cada vez maiores funcionam, na prática, como mecanismo de retirada de renda dos trabalhadores e trabalhadores para transferência às elites rentistas. Nesse cenário, o desalento atenua a percepção da gravidade dos atos daqueles que atentaram contra a democracia, normalizando que figuras julgadas e condenadas por crimes contra o Estado Democrático de Direito atuem na configuração de um eventual governo. O desafio, por consequência, é ressignificar e aprofundar a democracia. O conteúdo de um sistema democrático deve ir além do rito formal das eleições. Precisamos disputar formas de democracia direta, fazendo com que o governo vigente e o Estado brasileiro sirvam ao povo, reduzindo as desigualdades, garantindo o desenvolvimento socioeconômico e a proteção do meio ambiente e de nossas riquezas naturais para gerações futuras.

A segunda questão dialoga com a primeira. Um general do Exército e um policial rodoviário federal, ambos condenados por tentativa de golpe de Estado, agindo para influenciar na composição de um eventual governo Flávio em áreas como Defesa e Segurança sinalizam, ao mesmo tempo, para o baixo apreço pela democracia do candidato e para a conivência dessas instituições com o crime. Não nos referimos aqui aos crimes contra a democracia. Falamos das ligações de Flávio Bolsonaro com indivíduos ligados à milícia e a organizações criminosas, e das inúmeras suspeitas de envolvimento do senador com crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, algumas citadas anteriormente.

Esse cenário parece indicar que os instrumentos estatais voltados à garantia da Defesa Nacional e da Segurança Pública possuem em suas fileiras sujeitos em completa leniência com o crime organizado que assola as cidades brasileiras e impõe desafios a governos em todas as esferas da federação. A notícia de que o atual comandante da Força Aérea é justamente um dos interlocutores nesse processo reforça esse argumento. Trata-se, afinal, do representante de uma instituição de Estado em aparente diálogo com um indivíduo condenado por atentar contra o próprio Estado brasileiro. A dimensão de tal conivência resta ainda a ser analisada. Seriam esses casos isolados? Ou, pelo contrário, refletem uma cultura política institucional dos instrumentos de violência do Estado brasileiro, embebidas em autoritarismo e fora do controle democrático?  A julgar pela história recente, o cenário não parece promissor.

Fato é que a delinquência, pelo visto, tornou-se critério irrelevante para as forças de segurança brasileira, em aparente concordância com o papel de acionistas da violência do projeto reacionário hoje encampado por Flávio Bolsonaro.

*Jorge Oliveira Rodrigues é doutorando em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Pesquisador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES-RJ).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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