O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, questionou o senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre a política de valorização do salário mínimo durante o debate da TV Globo, nesta sexta-feira (23). Segundo Lula, sem a política de valorização adotada pelos governos do PT, o piso nacional seria hoje de cerca de R$ 900.
Ainda no primeiro bloco, o petista perguntou como seria a política de valorização do salário mínimo em um eventual governo do adversário. Flávio Bolsonaro mudou de assunto e não respondeu. Lula também apontou que o senador não apresentou nenhuma proposta de reajuste para o piso nacional.
“Eu só queria mostrar como pode alguém querer ser presidente de um país e sequer sabe como seria o salário se fosse adotada a política dos governos dele”, afirmou Lula, ao criticar a postura do adversário.
A valorização do salário mínimo acima da inflação é um dos principais trunfos de Lula na campanha e um dos legados dos governos petistas. Durante o debate, Flávio Bolsonaro negou que pretenda fazer cortes na máquina pública, privatizar serviços públicos ou congelar o salário mínimo.
O que dizem os números
O Brasil de Fato calculou quanto valeria o mínimo sem a política de valorização. Se tivesse sido corrigido apenas pela inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre janeiro de 2004, quando era de R$ 260, e janeiro de 2026, o piso estaria hoje em cerca de R$ 852, abaixo dos R$ 900 citados por Lula.
O salário mínimo atual é de R$ 1.621, cerca de 90% maior, graças à política de valorização, retomada por Lula em 2023 depois de ter sido extinta no governo de Jair Bolsonaro (PL). O mesmo valor vale para as aposentadorias. Pela regra em vigor, o reajuste combina a reposição da inflação do ano anterior com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes.
Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cerca de 61,9 milhões de brasileiros têm rendimento referenciado no salário mínimo. A entidade estima que, só em 2026, a valorização do mínimo injetou aproximadamente R$ 81 bilhões na economia.
Proposta da campanha
Oficialmente, a campanha de Flávio Bolsonaro nega que pretenda mexer na regra. Em nota divulgada no último dia 9, afirmou que “não haverá corte em benefícios sociais ou nas aposentadorias dos brasileiros, e o salário mínimo será reajustado acima da inflação para repor as perdas ocasionadas”.
Integrantes da campanha, no entanto, apresentaram a empresários e a agentes do mercado financeiro ao longo do ano propostas que incluem a revisão da política de valorização, dentro do pacote de ajuste fiscal apelidado de “tesouraço”. Em entrevista à TV Folha, em agosto, a assessora econômica de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, disse que pretende rever a política depois de cortar o que chamou de privilégios de Brasília, como cargos comissionados, carros, aviões e viagens.
Para representantes dos trabalhadores e economistas, o fim da valorização teria efeitos graves sobre trabalhadores, aposentados, pequenos empreendedores e o comércio. “Cada R$ 1 a menos no reajuste do salário mínimo, dos servidores, na previdência ou no BPC representa uma perda enorme de renda local, comprometendo o comércio, os serviços e toda a atividade econômica”, afirmou a economista Juliane Furno, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao Brasil de Fato.

