Cooperação Sul-Sul

Representantes de cidades da América Latina se reúnem na China para discutir energia limpa, agricultura e cooperação local

Representantes do Ceará e do Uruguai buscam acordos para transferência de tecnologia agrícola e energia renovável

Prefeito de Russas (CE), faz apresentação durante o 4º Fórum de Cooperação entre Governos Locais da China e da América Latina e Caribe foi inaugurado, em Yulin, Shaanxi, na China. 23 de outubro de 2026.
Prefeito de Russas (CE), faz apresentação durante o 4º Fórum de Cooperação entre Governos Locais da China e da América Latina e Caribe foi inaugurado, em Yulin, Shaanxi, na China. 23 de outubro de 2026. | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

Representantes de municípios e províncias de mais de 30 países latino-americanos e caribenhos participaram nesta sexta (23) do IV Fórum de Cooperação entre Governos Locais China-América Latina e Caribe em Yulin, cidade no noroeste da China, na província de Shaanxi. O encontro, incluído no Plano de Ação Conjunto China-Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) 2025-2027, abordou três eixos: transição energética e articulação industrial, agricultura com características locais e segurança alimentar, e preservação do patrimônio cultural integrado ao turismo.

O mecanismo

O fórum é um dos instrumentos do sistema de diplomacia povo a povo que a China tem construído com a região latino-americana e caribenha desde 2016. A Associação do Povo Chinês para a Amizade com o Exterior (APCA), criada em 1954, é encarregada da organização do evento, que é um mecanismo institucional dentro do Fórum China-Celac voltado especificamente para os níveis subnacional: prefeituras, governadores e legisladores locais, não ministros ou chefes de Estado.

O programa de cidades-irmãs na China fica dentro desse mecanismo. Até 22 de outubro, quando encerrou a Conferência Internacional de Cidades-Irmãs da China de 2026 em Xi’an, a China tinha 3.196 pares de cidades-irmãs com 153 países nos cinco continentes, segundo a agência Xinhua.

Desde o início do governo de Xi Jinping, o número de pares aumentou mais de 50%, com expansão de 80% entre países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. “Quanto mais estreita a cooperação local, mais sólida será a base para uma cooperação mutuamente benéfica entre os dois países”, disse Yang Wanming, presidente da APCA, na conferência de Xi’an.

O embaixador uruguaio na China, Aníbal Cabral, que acompanhou a delegação do país, disse ao Brasil de Fato que espaços como este cumprem a função de aprendizagem mútua entre regiões distantes: “há muitas coisas nas quais deveríamos aprender mais: a questão do planejamento que a China faz e a previsibilidade sobre como as coisas vão estar daqui a cinco, dez, quinze anos; podemos associar isso aos planos quinquenais, mas vai além”.

O prefeito de Russas, município do interior do Ceará, Sávio Gurgel Nogueira, participou do fórum como um dos representantes brasileiros na sessão de transição energética. Lá, a empresa estatal chinesa CGN opera um projeto de geração solar no município. “Nós temos potencial para isso e precisamos sair mais, conhecer outras culturas e explorar o que está acontecendo no mundo”, disse Gurgel sobre a importância de encontros como o de Yulin. O prefeito chegou à China em busca de uma cidade-irmã que possa ampliar parcerias com o gigante asiático. Russas também faz parte da cooperação China-Brasil de pequenas máquinas agrícolas para a agricultura familiar. Em janeiro de 2025, a área produtiva agroecológica Ana Primavesi, no Assentamento Bernardo Marin II, recebeu dois tratores e quatro motocultivadores.

“O fórum fortalece e enriquece muito as políticas públicas, tanto dos governantes e dos prefeitos quanto de empresários que não têm o conhecimento das culturas e produções de cada país ou cidade”, disse Gurgel. “Há muito a explorar. Ainda não soubemos aproveitar tudo o que podemos realizar em nível dos governos municipais”, afirmou Cabral.

Embaixador do Uruguai na China, Aníbal Cabral, no IV Fórum de Cooperação entre Governos Locais da China e da América Latina e Caribe, em Yulin, Shaanxi. 23 de outubro de 2026 | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

Durante o fórum, a cidade de Hohhot, na Região Autônoma da Mongólia Interior, assinou uma carta de intenção para se tornar cidade-irmã com San José de Mayo, capital do departamento uruguaio de San José.

Transição energética

As porcentagens das energias renováveis, tanto no Brasil como no Uruguai, são altas, 88% e 97%, respectivamente. A cooperação com a China, para Cabral, pode permitir explorar ainda mais o potencial das renováveis. “O que precisamos agora são centrais de armazenamento de energia para aproveitar melhor o que produzimos durante o dia nos horários de vale”, disse. O Uruguai negocia com a China e outros países um projeto de grande porte que, pela dimensão, exigirá licitação pública internacional, contou o embaixador.

Agricultura e comércio bilateral

O prefeito de Russas descreveu os dois modelos de agricultura na cidade: o perímetro irrigado do tabuleiro produz frutas para exportação com maquinário de grande porte; já a agricultura familiar local trabalha com áreas menores e culturas orgânicas. “São pequenas áreas que, com pequenos equipamentos agrícolas, a rotatividade, para arar, para subsolar, para pulverizar, às vezes é suficiente para eles produzirem”, explicou o prefeito, defendendo a parceria com a China sobre máquinas de pequeno porte.

Gurgel chegou à China, colocando o própolis verde como carro-chefe. A caatinga produz a jurema preta, planta que origina um própolis com composição química diferente dos tipos disponíveis na China. “A China produz própolis marrom de menor qualidade e nós temos o própolis com asterpilin C e muitos flavonoides”, explicou. “Quero que a China entenda que Russas tem esse própolis que ela tem interesse”.

Do lado uruguaio, Cabral identificou os lácteos, dos quais San José é um dos principais produtores do país, como o produto que poderia ter mais espaço, mas possui limitações pela maior proximidade geográfica da Nova Zelândia. Na relação com a China, o embaixador vê potencial em atrair investimentos para infraestrutura no Uruguai, incluindo um possível porto de águas profundas, além de parcerias em montagem de veículos elétricos. A relação bilateral completou 38 anos em 2026. “Se analisarmos os 38 anos, é como uma linha contínua, sempre ascendente”, afirmou Cabral. Na área de ciência e tecnologia, durante a visita do presidente uruguaio à China neste ano, foram assinados 30 memorandos de entendimento entre instituições de pesquisa dos dois países.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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