Apelidado de “tesouraço” e inspirado na motosserra do presidente da Argentina, Javier Milei, o plano de economia de Flávio Bolsonaro (PL) promete cortar R$ 200 bilhões do orçamento público. Contudo, até o momento, o candidato não informa como e quais serão os impactos da medida.
Na Argentina, o modelo usado como inspiração por Flávio jogou a população no desemprego e na pobreza, e o país em uma recessão. No Brasil, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontou que o “tesouraço” poderá gerar o corte de 2 milhões de empregos.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o economista Leandro Horie, técnico do Dieese, explica que o estudo se baseou na evidência óbvia de que um corte dessa magnitude vai gerar impacto na demanda da economia. “Não há como você falar que há algo de positivo ao eliminar 1,8% do PIB”, aponta.
Na avaliação de Horie, as indicações da campanha de Flávio sobre como acontecerão os cortes têm sido muito genéricas. O especialista cita alguns fatores que tornam a proposta inviável. “Você não vende empresas da noite para o dia, não tem liquidez, não tem dinheiro. Por isso, é óbvio que ele vai mexer nas grandes contas do governo, e as grandes contas do governo nós sabemos quais são. A previdência, por exemplo, que é a maior fonte de despesa, mas também a maior fonte de renda”, afirma.
O economista alerta que já foi anunciada a intenção de “congelamento real do gasto” e que, para isso, eles vão mexer nos gastos primários: folha de pagamento, saúde, educação e previdência. “Dessa forma, fica mais factível chegar ao que eles estão propondo. E eles farão isso com PEC, porque a PEC vai permitir que você desvincule os benefícios da previdência social do salário mínimo. Você vai permitir gastar menos em saúde e educação. Então, provavelmente eles não estão discutindo isso abertamente porque são medidas muito impopulares. São medidas que vão impactar de forma muito negativa a maior parte da população”, pondera.
Sobre a declaração da equipe econômica de Flávio de que “seria necessário um superávit de 2,3% do PIB para estabilizar a dívida no nível de 2025, considerando ainda juros reais de 5%”, Leandro Horie argumenta que esse cenário é impossível na realidade brasileira. “Muitos especialistas pegam teorias de ajuste fiscal para conseguir equilibrar as contas. Nos países ricos, essas teorias funcionam porque os juros são baixos e você tem uma receita tributária progressiva. Aqui não existe isso. Você vai fazer um corte, vai ter uma recessão, porque aqui a gente tributa sobre consumo e não sobre patrimônio, sobre renda, super-ricos. A nossa arrecadação tributária é vinculada à conjuntura econômica. Então, se eu provocar uma recessão, eu vou derrubar a arrecadação e não vou cumprir a meta”, explica.
Horie pontua que, no atual cenário, é “muito difícil o juro real cair no intervalo de um ano a ponto de ele causar um efeito na economia”. “O tesouraço está prometendo causar um ajuste fiscal agressivo na economia, que vai entrar em recessão e, mesmo se eu conseguir alguma economia, gerar algum crescimento econômico, eu terei dificuldade de estabilizar a dívida, porque a necessidade da economia que teria que fazer é muito maior do que a economia que eu vou conseguir fazer na prática”, resume.
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