ELEIÇÕES 2026

Na reta final do segundo turno, campanhas de Lula (PT) e Flávio (PL) seguem disputando as redes e às ruas do Ceará

Com estratégias semelhantes, candidaturas apostam em atos de rua e engajamento digital para ampliar a votação no estado

Vista aérea da bandeira do Brasil em ato realizado em Fortaleza
“Viradão do Lula” foi realizado no bairro da Aldeota, em Fortaleza | Crédito: Seu Jorge/Larissa Nobre

A disputa pela Presidência da República ganhou novos contornos no Ceará na reta final do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Com estratégias que combinam mobilizações nas ruas, articulação de lideranças políticas e presença nas redes sociais, as campanhas do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) buscam consolidar apoios no estado, com objetivo de ampliar suas bases eleitorais e o número de votos recebidos pelo povo cearense. Vale lembrar que, no Ceará, no primeiro turno realizado em 4 de outubro, Lula recebeu dos cearenses 63,29% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 31,27%.

Apesar da vantagem do petista, a campanha bolsonarista intensificou sua presença no estado, com atos públicos liderados pelo deputado federal reeleito com mais de 600 mil votos, André Fernandes (PL-CE), que assumiu a coordenação da campanha de Flávio no Nordeste. Já do lado do petista, a mobilização reúne o governador Elmano de Freitas (PT), reeleito no primeiro turno com 53,19% dos votos; o senador Camilo Santana (PT), o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), e outras lideranças políticas, como deputados estaduais e federais eleitos, assim como movimentos populares e sindicais.

A socióloga e professora de ciência política Paula Vieira, pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), avalia que as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro no Ceará têm buscado ampliar suas estratégias de mobilização eleitoral, combinando a atuação nas redes sociais com a presença nos territórios. Segundo a pesquisadora, enquanto o grupo político ligado a Flávio Bolsonaro tem maior tradição de atuação digital, a campanha de Lula historicamente se apoia na mobilização presencial e na articulação com lideranças locais.

“No Ceará, as lideranças vinculadas à campanha de Flávio Bolsonaro estão mais associadas às redes sociais e às plataformas digitais, que já ocupam um lugar predominante em suas práticas políticas. Já a campanha de Lula manteve a tradição de mobilização nas ruas durante o primeiro turno, mas passou por mudanças no segundo, com o fortalecimento da atuação digital, passando a complementar as mobilizações presenciais, e ampliando uma estratégia que já era característica das campanhas de esquerda”, aponta Vieira.

No Ceará, a campanha do atual presidente Lula tem adotado desde a realização do primeiro turno, a articulação entre lideranças institucionais, partidos aliados e organizações populares. A estratégia de campanha do candidato à reeleição tem combinado agendas políticas como caminhadas, ações culturais, atividades nos municípios com maiores índices de abstenção e mobilização digital, associando a candidatura presidencial às ações já realizadas do governo federal, ampliando a participação de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. Em entrevista à TV Cidade, logo após o primeiro turno, Elmano de Freitas afirmou que pretendia, durante às três semanas até o segundo turno, intensificar as atividades nos municípios e estabeleceu como meta ultrapassar 70% dos votos válidos do Ceará para Lula no segundo turno.

Vista aérea do Viradão do Lula
A mobilização foi liderada pelo vereador Gabriel Biologia (Psol), eleito deputado estadual, e ganhou apoio de integrantes do PT, entre eles o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão | Crédito: Seu Jorde/Larissa Nobre

Além disso, o governador Elmano de Freitas e o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, têm se somado às agendas políticas da capital cearense, com objetivo de ampliar os números de Lula nos bairros e comunidades. A agenda de apoiadores do presidente incluiu atos com lideranças nacionais e locais, entre elas, a caminhada “Baile do 13”, que ocorreu na última segunda-feira (19), na Parangaba, em Fortaleza, e contou com a presença da deputada federal eleita por São Paulo com mais de 1,5 milhão de votos, Érika Hilton (PSOL); e o “Viradão do Lula”, que ocorreu ontem (22), na Aldeota, também em Fortaleza. A programação inclui ainda mobilizações no interior e um ato de encerramento na capital cearense.

No campo bolsonarista, a estratégia tem forte presença nas redes sociais e aposta em eventos públicos em bairros considerados “redutos” da direita, que combinam manifestações políticas e formatos voltados à circulação de vídeos. André Fernandes, que possui forte alcance digital, tornou-se uma das principais figuras da campanha de Flávio Bolsonaro no Nordeste. Os atos organizados pelo deputado em Fortaleza, incluindo mobilizações no Conjunto Ceará, ajudam a aproximar a candidatura de segmentos do eleitorado jovem. “No caso de Flávio Bolsonaro, observa-se um movimento inverso, com a tentativa de combinar as estratégias digitais, predominantes em sua campanha, com uma maior presença territorial. As lideranças locais, como André Fernandes, passaram a circular por diferentes municípios, buscando ampliar sua atuação em localidades onde a candidatura obteve crescimento no primeiro turno”, destaca a pesquisadora.

Para a reta final, foram anunciadas novas atividades na capital e na Região Metropolitana. A primeira atividade ocorreu na terça-feira (20), na Praça do Remo, na Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), com a presença do candidato a vice-presidente de Flávio, Alfredo Gaspar (PL). A agenda da oposição segue nesta sexta-feira (23), com o Bloquinho do 22 na Praça Portugal, com a presença Flávio Bolsonaro e do deputado federal eleito por Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL). Ambas as mobilizações foram anunciadas pelo PL e integram a agenda política do partido no Ceará. 

A campanha de oposição também procura ampliar sua presença fora da capital, com agendas em municípios como Eusébio, Aquiraz e Tauá. A estratégia busca transformar a visibilidade das lideranças locais em mobilização eleitoral e reduzir a distância para Lula no Nordeste.

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Território, alianças e disputa por votos

A ocupação dos territórios no Ceará é um elemento central das duas campanhas. No campo governista, a articulação de Camilo Santana com prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças regionais procura ampliar a presença da campanha para além de Fortaleza e alcançar municípios onde Lula possa aumentar sua votação, trabalho que também tem sido desenvolvido de forma mais concreta por Elmano e Evandro Leitão, que buscam também conectar a disputa presidencial às estruturas políticas estadual e municipal. Outra peça importante no tabuleiro é o senador reeleito, Cid Gomes, que nesta segunda-feira (19), também se reuniu com prefeitos das cidades da RMF para fortalecer a base e ampliar a votação em Lula.

Já no campo bolsonarista, André Fernandes ocupa uma posição estratégica, pois, além de liderar o PL no Ceará, o parlamentar passou a coordenar a campanha de Flávio no Nordeste, com a tarefa de ampliar a presença da candidatura em uma região historicamente favorável ao PT. A estratégia envolve atos públicos, articulações com lideranças políticas e divulgação de conteúdo nas plataformas digitais.

Joana Borges, historiadora, mestra em sociologia, psicanalista e dirigente nacional do Movimento Brasil Popular (MBP), destaca que os movimentos sociais possuem uma tarefa importante de fortalecer e realizar a conexão do projeto do presidente Lula com a realidade dos territórios. “Como os movimentos populares atuam normalmente de maneira territorializada, existe ali uma relação que já caminha fora das eleições e que permanece após esse momento, criando um vínculo de confiança e de construção de fato popular, o que pode permitir que o projeto consiga alcançar pessoas que nesses locais estejam inclinadas a votar no outro candidato”, afirma.

Desde o início da campanha eleitoral, o Movimento Brasil Popular tem organizado sua atuação nas eleições a partir de uma metodologia que possibilita o diálogo direto com a população em um momento de intensa mobilização em torno do debate político no Brasil. “O objetivo é promover conversas abertas sobre o projeto de país. Para isso, o movimento tem priorizado a organização de brigadas, formadas por grupos de pessoas que atuam a partir de uma base territorial. Essa estratégia permite realizar intervenções em feiras públicas e ações porta a porta, com visitas às residências para dialogar diretamente com a população sobre o projeto de país”, descreve. Borges afirma ainda que para a militância, as eleições representam um momento político importante não apenas para eleger representantes alinhados ao seu projeto, mas também para ampliar o debate sobre o modelo de país defendido e a garantia dos avanços sociais e da redução das desigualdades.

Além do MBP, o Levante Popular da Juventude também tem atuado diariamente na construção da campanha do petista nos territórios da capital e do interior do estado. De acordo com Thalita Vaz, da coordenação nacional, o papel da militância do Levante é incentivar e fortalecer a organização dos bairros em defesa da democracia e da soberania nacional. “Essa organização nesse processo eleitoral será fundamental para construir um combate real contra a extrema direita a partir de 2027”, afirma.

Já Vieira acredita que a territorialização das campanhas influencia diretamente os resultados eleitorais, uma vez que as lideranças locais atuam como cabos eleitorais e conseguem estabelecer contato direto com a população. “Na campanha de Flávio Bolsonaro, destaca-se o papel das igrejas, principalmente as evangélicas, que possuem capilaridade territorial e capacidade de mobilização dos eleitores. No caso da candidatura de Elmano de Freitas, observa-se que as alianças com prefeitos, identificadas durante o primeiro turno, integram uma articulação política mais ampla, vinculada ao bloco hegemônico do PT. Essa estrutura permite mobilizar tanto lideranças comunitárias quanto movimentos sociais em apoio à candidatura de Lula”, disse.

Um dos desafios apontados pela pesquisadora para a campanha de Lula no Ceará é a recuperação dos votos do candidato e do partido que diminuíram nas eleições deste ano. “Embora esse campo político ainda concentre a maioria dos votos no Ceará, existe margem para recuperar parte do eleitorado. Esse objetivo pode ser alcançado por meio do fortalecimento das alianças políticas e da articulação com lideranças locais”, destaca.

A disputa, porém, não se limita aos palanques físicos, e as redes sociais também se tornaram espaços de manifestação de apoio, compartilhamento de vídeos, produção de conteúdos políticos e convocação para atividades presenciais. Publicações de militantes, apoiadores e figuras políticas importantes têm ampliado a circulação das campanhas para além dos canais institucionais, embora seja necessário distinguir iniciativas efetivamente espontâneas de ações organizadas por partidos, mandatos ou estruturas eleitorais.

Mobilizações espontâneas

Além das agendas oficiais, a campanha presidencial no Ceará também pode ser observada a partir das iniciativas que surgem entre apoiadores e candidaturas da chapa governista que foram ou não eleitas. Nesta reta final, o número de vídeos, manifestações culturais, convocatórias para atos e publicações de pessoas sem vínculo formal com as coordenações eleitorais cresceram exponencialmente, e ajudam a compreender como as candidaturas circulam no dia à dia.

Para Vieira, o peso dessas manifestações não se restringe às alianças com prefeituras, lideranças comunitárias e movimentos sociais. “Ao observar a atuação dos prefeitos dos municípios cearenses, percebe-se que eles também têm buscado ampliar sua presença nas redes sociais, estabelecendo diálogo com o público, demonstrando carisma e promovendo ações para mobilizar os usuários. Esse movimento também envolve lideranças comunitárias e movimentos sociais”, ressalta.

A pesquisadora declara ainda que as manifestações espontâneas de apoio a Lula têm como principal efeito esperado o aumento da votação do candidato. “A expectativa é que essas mobilizações alcancem eleitores que se abstiveram no primeiro turno, votaram em branco ou nulo, ainda estão indecisos ou escolheram outro candidato, mas podem mudar de voto no segundo turno”, afirma Vieira. Embora ainda não seja possível determinar o impacto efetivo dessas mobilizações no resultado eleitoral, a expectativa é que elas ampliem o alcance da campanha e contribuam para atrair novos eleitores.

Já Borges salienta que as movimentações no segundo turno representam uma certa continuidade do que foi construído ao longo do primeiro turno. “Essas iniciativas espontâneas são positivas para fortalecer e ampliar a votação de Lula em todo o Brasil, incluindo o Ceará. As redes sociais também contribuem para a participação dessas pessoas, ao facilitar o acesso às agendas de campanha, tanto em âmbito geral quanto em ações localizadas e territorializadas”, destaca.

Vaz também destaca que tem percebido as ações espontâneas em um fluxo diário, provocadas por lideranças que atuam em alguma instituição ou associação do bairro, não só em ações pró Lula, mas também à favor de Flávio. “Essa movimentação gera uma crença de que nós podemos e iremos contribuir com as agendas que eles propõem, e nossa missão quando entramos em contato com essas pessoas é não deixar que elas abaixem a cabeça”, afirma a jovem militante.

Expectativas para o segundo turno

Do lado petista, o governador Elmano de Freitas declarou que a campanha pretende superar 70% dos votos válidos no Ceará para Lula. O governador também defendeu a mobilização de eleitores ausentes no primeiro turno e daqueles que votaram em branco, anularam o voto ou escolheram candidaturas eliminadas da disputa. Já André Fernandes assumiu a tarefa de fortalecer a campanha de Flávio Bolsonaro no Nordeste, com expectativa do campo bolsonarista de ampliar a mobilização, conquistar novos apoios e reduzir a vantagem de Lula em uma região decisiva para o resultado nacional.

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Segundo avaliação da professora em ciências políticas, um dos principais desafios das duas candidaturas é alcançar eleitores que se abstiveram no primeiro turno, votaram em branco ou nulo, permanecem indecisos ou podem mudar de voto. “Para isso, também é necessário identificar o perfil desses eleitores e desenvolver estratégias para chegar até eles, especialmente aqueles que não compareceram às urnas na primeira etapa da eleição. A expectativa é que parte desses votos seja recuperada no segundo turno”, encerra Vieira.

Borges também acredita que o desafio para o segundo turno continua sendo o diálogo, tanto com quem votou em outros candidatos quanto com quem não votou no primeiro turno e pode participar da votação agora, incluindo as pessoas indecisas. “Em um cenário de polarização, muitas vezes, a atuação política acaba concentrada na rejeição ao outro candidato, e por isso, um dos grandes desafios é fortalecer, dinamizar e ampliar a compreensão sobre a necessidade de um projeto de país que tenha como horizonte o avanço significativo dos programas sociais e a redução das desigualdades, mas que também seja capaz de dialogar com outras demandas e anseios da sociedade”, encerra a socióloga.

Por fim, Vaz salienta ainda um outro desafio não citado anteriormente e afirma que o mesmo “se localiza no campo ideológico”, e argumenta ser a descrença de que o voto muda o rumo da sociedade, causando um certo desgaste no sistema eleitoral. “Além disso, o desafio também está no campo estrutural, como a dificuldade de locomoção. Por isso, é fundamental que, quem se engajou nos atos e ações porta a porta, se mobilize para que no dia 25 ajude a levar sua família, amigos ou parentes de amigos a ir votar”, finaliza.

As estratégias de campanha para o segundo revelam desafios diferentes, pois, enquanto a campanha petista busca converter sua vantagem eleitoral no Ceará em uma votação ainda maior, a oposição procura ampliar sua capilaridade territorial e mobilizar eleitores para diminuir a distância entre os candidatos. Na reta final, o resultado dependerá não apenas da capacidade de mobilização das lideranças, mas também da adesão dos eleitores às campanhas, da participação nas urnas e da possibilidade de transformar o engajamento nas ruas e nas redes sociais em votos no dia 25 de outubro.

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Editado por: Lívio Pereira

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