Reta final

Analistas alertam para riscos à democracia e destacam reação popular nas eleições

Campanha evidencia o peso das redes na disputa eleitoral e os desafios da democracia

Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) posam antes de debate presidencial no Rio de Janeiro (RJ), em 23 de outubro de 2026
Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em debate presidencial no Rio de Janeiro (RJ) | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP

A mobilização popular e a disputa nas redes sociais ganharam centralidade na eleição de 2026, em um cenário de polarização política e confronto entre diferentes projetos para o país. Analistas ouvidos pelo Brasil de Fato destacam que a capacidade de mobilização da sociedade, a circulação de informações e os limites da democracia estão no centro do debate eleitoral diante do avanço da extrema direita.

Para o historiador e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Valério Arcary, a defesa dos interesses populares e das liberdades democráticas está no centro da disputa. De acordo com ele, o engajamento político observado na eleição é excepcional e reflete a percepção de que estão em jogo interesses concretos da população.

“Este é um dos momentos raros na história, extraordinários, exuberantes, magníficos, em que milhões de pessoas engajam politicamente para tomar em suas mãos a defesa dos seus interesses e do seu destino”, afirma.

Para o historiador, o projeto do bolsonarismo representa uma ameaça às liberdades democráticas por combinar um programa econômico radical com a possibilidade de concentração de poder nas instituições. Ele avalia que uma eventual maioria no Congresso e o aumento da influência sobre o Supremo Tribunal Federal poderiam reduzir os contrapesos institucionais.

“A estratégia do bolsonarismo é um choque de capitalismo selvagem numa escala tão brutal que este programa não pode ser aplicado preservando as liberdades democráticas”, diz.

Arcary também avalia que, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), uma das prioridades do candidato seria conceder indulto ao pai, Jair Bolsonaro. A hipótese, segundo o historiador, reforça a centralidade da disputa em torno das instituições e das consequências políticas e jurídicas do bolsonarismo.

Formação política

Já o sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), destaca o papel das redes como espaço de formação política e organização de eleitores. O analista chama atenção para a transformação das redes sociais em espaços de participação e aprendizado político.

Segundo o sociólogo, usuários comuns passaram a ocupar o debate eleitoral com depoimentos, relatos pessoais e conteúdos que circularam para além dos perfis oficiais das campanhas.

“Essa eleição teve um processo de formação política a céu aberto, ou à ‘rede aberta’, porque as pessoas passaram a perceber o que está acontecendo”, afirma.

Amadeu avalia que, nas semanas finais da campanha, a esquerda ampliou sua presença nas redes, apesar de o que considera uma vantagem estrutural da direita nas plataformas digitais. Para ele, a participação de pessoas com audiências menores ajudou a diversificar as vozes no debate público.

“O que permitiu que o presidente Lula tivesse, nas duas últimas semanas, em todas as checagens de rede, a esquerda deu um banho nas redes, por mais que o grupo Meta estivesse privilegiando os conteúdos da direita”, diz.

Mobilização da defesa da democracia

A capacidade de mobilização nas redes, porém, não elimina os desafios da esquerda. Arcary avalia que a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demorou a incorporar as mudanças sociais e geracionais do país. Na sua leitura, a estratégia inicial enfatizou o legado dos governos petistas e a trajetória do presidente, sem dar a mesma centralidade às demandas de uma geração mais jovem, que não viveu diretamente aquele período.

“Eu acho que, no primeiro turno, a linha que prevaleceu na campanha do Lula estava muito focada na exaltação do legado, celebração da biografia”, afirma.

Para o historiador, houve uma mudança na reta final, com maior espaço para propostas concretas, como o fim da escala de trabalho 6×1. “Nas últimas quatro semanas ouvimos mais propostas de reformas do que nos últimos quatro anos”, diz.

Arcary também destaca o papel da organização digital e cita a mobilização em torno de um canal de WhatsApp, associada à atuação do deputador federal André Janones, como instrumento para coordenar apoiadores e ampliar a disputa política nas redes.

O sociólogo Sérgio Amadeu, por sua vez, interpreta essa participação popular como uma reação social em defesa da democracia e de direitos que parte dos eleitores considera ameaçados.

“Se a gente ganhar essa eleição, essa eleição terá sido ganha pelo povo, não tenho nenhuma dúvida disso. Porque é uma legítima reação em defesa da democracia, em defesa daqueles que perceberam que têm muito a perder”, completa.

Editado por: Rafaella Coury

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