A falta de ônibus que dificultou o acesso de eleitores às urnas em várias cidades do país neste domingo (25) já comprometeu o segundo turno das eleições presidenciais, na avaliação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Ela já foi afetada, já está abalada desde que as urnas abriram e não tinha transporte”, afirmou Ceres Hadich, da coordenação nacional do movimento, ao Brasil de Fato, durante participação na live especial de eleições. A dirigente falou de um assentamento no interior do Paraná, onde votou pela manhã.
Segundo ela, os problemas começaram antes da votação, com a desigualdade de alcance entre as campanhas nas redes sociais.
“Desde que a gente estava em campanha, não nas mesmas condições, porque as redes entregavam mais para um candidato do que para outros”, criticou, em referência às denúncias contra a Meta feitas durante o segundo turno.
A dirigente se disse surpresa com o rumo do dia. “O roteiro do Brasil sempre se supera. É inacreditável a gente chegar às 3h, 4h, 5h da tarde com denúncias correndo o dia inteiro sobre toda essa situação da logística, que faz parte desse golpe que estão tentando dar nos eleitores brasileiros para dificultar a participação do povo nas urnas”, observou. “O processo está em curso. Como isso vai se desdobrar daqui para frente a gente ainda não sabe mensurar”, ponderou.
Depois das denúncias de redução da frota em cidades de pelo menos dez estados, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido da coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e prorrogou a votação até as 19h em todo o país. A decisão saiu pouco depois das 17h, quando muitas seções já tinham encerrado a votação, e gerou desencontro de informações entre tribunais regionais, mesários e eleitores. Em seguida, Zanin esclareceu que a extensão valeria apenas para as seções ainda abertas, orientação repassada aos tribunais regionais pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques. O TSE suspendeu a divulgação dos resultados com 0,25% das urnas apuradas e retomou a totalização às 19h.
Democracia jovem e frágil
Para Ceres Hadich, o voto é o ponto máximo da participação democrática conquistada pelo povo brasileiro depois da ditadura. “A gente fala em nome de todos aqueles e aquelas que lutaram historicamente para que a gente reconquistasse esse direito de poder exercer a nossa participação democrática nas urnas. Esse é o ápice da nossa participação”, destacou. “Ter isso tolhido, impedido, tratado com tanta violência, porque isso é uma violência muito aberta, muito rasgada, é realmente muito triste para nós, cidadãos e cidadãs brasileiras”, lamentou.
Ela relacionou o momento ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, que classificou como parte de um processo de ataques à democracia, e lembrou a frase “com o Supremo, com tudo”, atribuída ao então senador Romero Jucá em áudio divulgado naquele ano. “Mais uma vez a nossa jovem e frágil democracia está sob risco de ser interrompida”, alertou.
‘Algo tão bonito’
Apesar do cenário, Ceres Hadich chamou atenção para a mobilização que tomou as ruas entre o primeiro e o segundo turno, com atos e carreatas em todo o país. “A gente viveu um levante, um despertar, um engajamento, uma politização da sociedade brasileira, de diferentes setores, da juventude, da periferia, das mulheres, dizendo: ‘A gente vai lutar pela nossa democracia’”, relembrou.
A dirigente acompanhou parte das manifestações em Brasília. “Sou filha da redemocratização do Brasil e nunca tinha vivido algo tão bonito como isso”, contou. Segundo ela, a novidade é o caráter amplo do movimento. “Não é um movimento de um lado político. Ao contrário, ele é multipolítico, multipartidário, multiorganizativo. Todos os rostos, as cores, os jeitos estão ali para se manifestar e para dizer: ‘Sim, eu sou brasileiro e eu quero participar’”, explicou.
‘Não vamos normalizar’
Para a dirigente do MST, essa energia precisa continuar depois da eleição, qualquer que seja o resultado. “Não vamos arredar o pé, não vamos normalizar isso. A importância de manter o povo desperto, organizado e consciente para o que está acontecendo é fundamental”, defendeu. “São as massas mobilizadas nas ruas, fazendo pressão independentemente de governo, que são realmente capazes de produzir mudanças e transformações no nosso país e de sustentar essas conquistas”, acrescentou.
“A nossa maior segurança é estar nas ruas, é estar com o povo, é estar juntos coletivamente reivindicando os nossos direitos. E é assim que a gente vai fazer o enfrentamento em qualquer conjuntura que se desdobre essa eleição”, concluiu.

