Arte é política

‘Todo fazer artístico é político’: Thalma de Freitas defende que artistas abandonem neutralidade e assumam lado

Em live do BdF, artista diz que contratos calam colegas e defende chamar o bolsonarismo de fascismo

Para a cantora e atriz Thalma de Freitas, a eleição de 2026 marcou uma virada na relação dos artistas brasileiros com a política, e essa mudança precisa continuar depois das urnas. “O papel do artista, de migrar um pouco do entretenimento para a educação e a política, eu vejo como um caminho inevitável para a gente sustentar a democracia, inclusive transformar o processo democrático numa verdadeira democracia”, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato, neste domingo (25).

Segundo ela, por muito tempo os artistas evitaram se posicionar por causa das exigências do mercado. “Não é só perder seguidor nas redes sociais, não. Você perde publi”, disse, referindo-se aos contratos publicitários que sustentam boa parte das carreiras.

‘Todo fazer artístico é político’

Thalma de Freitas contou que deixou o Brasil e se mudou para os Estados Unidos em 2012 em busca de um estilo de vida que não dependesse da validação do mercado. Na época, declarou a uma revista que tinha comprado a própria “carta de alforria”.

“Me incomodava muito não poder me envolver abertamente na política, porque eu tinha um contrato que me proibia disso. E eu entendo que todo fazer artístico é político”, afirmou.

Para a artista, os artistas têm uma representação natural das “muitas comunidades, dos vários brasis que compõem o Brasil”, mas deixaram de exercer esse papel.

“O nosso mercado é muito comprometido com o neoliberalismo. Desde os anos 1980, a gente já não faz mais tanto trabalho político, tirando alguns artistas pontuais. O rap tem isso muito. Mas, em geral, a gente trabalha para o mercado. A gente não tava trabalhando para o povo”, disse. “Isso foi um tiro no pé que eu espero que a gente passe a corrigir, criando um ecossistema de trabalho diretamente com o povo.”

Ela citou o cantor João Gomes, criticado nas redes por não declarar voto. “Ele provavelmente tem contratos que impedem ele de declarar um voto abertamente. Ele acabou se posicionando de uma maneira muito artística”, afirmou. “Graças a Deus, nós, artistas, temos a criatividade para nos comunicar de uma maneira lúdica.”

Linguagem simples

Thalma de Freitas também destacou o papel da comunicação na reta final da campanha e citou o canal Exército do Lula, coordenado pelo deputado André Janones. “Ele trouxe uma linguagem que era fácil de compreender, muito simples e muito direta”, disse. “A gente precisava tirar as pessoas para irem votar. Vinte por cento de abstenção é demais para um momento tão crítico como esse.”

Para ela, essa forma de comunicação deve continuar depois da eleição, como parte de um projeto de “comunicação e educação de massa”, que a artista compara a “um programa de saúde pública”. “A saúde social depende disso.”

A artista defendeu ainda uma mudança de vocabulário. “Eu acho muito importante a gente atualizar o nome bolsonarismo para fascismo, porque é o que é. Bolsonarismo tem sido um nome fantasia para o fascismo do Brasil”, afirmou.

‘Não se compra’

Ao fim da entrevista, Thalma de Freitas fez uma análise sobre o lugar dos artistas na construção da democracia brasileira. “A nossa democracia ainda é o nome fantasia para um não tão pós-colonialismo da nossa querida colônia de exploração que é o Brasil”, disse. “Para a gente se estabelecer com uma verdadeira democracia, isso vai passar pela democracia racial, pela democracia de classe. E a gente vai precisar dos artistas, porque a relação que a gente tem com o público não se compra.”

Mesmo depois de uma semana “bastante ansiosa”, a artista disse estar tranquila no dia da votação. “Independentemente do que aconteça, a gente chegou num ponto em que dá para ter essa conversa no domingo à tarde no YouTube. Isso é maravilhoso”, destacou.

Editado por: Geisa Marques

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