A reeleição de Celina Leão (PP) ao Governo do Distrito Federal (GDF) não encerra a disputa política em torno da crise do Banco de Brasília (BRB). Derrotado no segundo turno das eleições, realizado neste domingo (25), Leandro Grass (PT) afirmou que pretende continuar cobrando explicações sobre o caso e defendeu a reorganização do campo progressista, com atuação dos mandatos parlamentares e mobilização popular. Na avaliação do candidato, a votação obtida pela oposição e a articulação construída durante a campanha representam um avanço político, apesar do resultado nas urnas.
“Eu costumo dizer que nem sempre a vitória eleitoral é também uma vitória política, nem sempre uma derrota eleitoral é uma derrota política”, declarou Grass durante coletiva de imprensa após a apuração. Leandro afirmou que a campanha conseguiu reunir partidos, movimentos sociais e diferentes setores da sociedade em torno de um projeto comum para o Distrito Federal.
Celina foi reeleita com 987.142 votos, correspondentes a 57,18% dos votos válidos, enquanto Grass recebeu 739.130 votos, ou 42,82%. A diferença entre os dois candidatos foi de 248.012 votos. No primeiro turno, o petista havia obtido 569.930 votos. Entre as duas etapas da disputa, sua votação cresceu em 169.200 votos, cerca de 29,7%, segundo os resultados da Justiça Eleitoral.
Para Grass, o crescimento se explica principalmente pela unificação do campo progressista no segundo turno, pela insatisfação de parte da população com os serviços públicos e pela adesão de setores da sociedade que se identificaram com as propostas de sua candidatura.
“Eu diria que a primeira causa disso é a unidade do campo. Então, preciso reconhecer o trabalho do nosso presidente, todos os presidentes dos partidos, que entenderam que a unidade desse campo era muito importante para a gente prosperar eleitoralmente”, afirmou.
O candidato também destacou o apoio de candidaturas proporcionais e de parlamentares que participaram da campanha. Segundo ele, a articulação entre os grupos políticos foi determinante para ampliar a votação e fortalecer a representação do campo progressista na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
Crise do BRB continua entre as cobranças da oposição
Durante a coletiva, Grass afirmou que pretende continuar cobrando respostas sobre a crise do BRB e as operações envolvendo o Banco Master. O tema foi uma das principais frentes de contestação à gestão distrital durante a campanha, com questionamentos sobre as negociações entre as instituições financeiras e os possíveis impactos das operações sobre o patrimônio público.
“Há muitas respostas ainda para serem dadas para Brasília. Ainda precisamos saber cadê o dinheiro do BRB, ainda precisamos saber cadê o dinheiro da saúde, ainda precisamos saber quem foi responsável pelo maior escândalo de corrupção da história do Brasil, talvez do mundo. Queremos que o Judiciário dê uma resposta”, declarou.
Grass também cobrou a atuação do Ministério Público, do governo distrital e da Câmara Legislativa. Para o candidato, a continuidade das investigações e a apuração de possíveis irregularidades não devem ficar restritas ao período eleitoral.
“Queremos que o Ministério Público dê uma resposta. E queremos também que o governo local, que a Câmara Legislativa também dê uma resposta. Brasília merece a verdade”, afirmou.
A crise do BRB já vinha sendo abordada pelo candidato durante a campanha. Em 23 de outubro, Grass apresentou uma série de questionamentos sobre a relação entre o BRB e o Banco Master, além de negócios ligados à família de Celina Leão. O candidato havia apresentado nove pontos que, em sua avaliação, precisavam ser esclarecidos pela governadora.
Outro desdobramento foi a transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde do Distrito Federal para aplicação em Certificado de Depósito Bancário (CDB) do BRB. O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) deu prazo para o governo apresentar explicações sobre a operação, questionada em representação do deputado distrital Gabriel Magno (PT).
A representação pede a apuração da legalidade da movimentação e questiona se foram respeitadas as regras de custódia e rastreabilidade de recursos federais destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS). O documento também solicita medidas cautelares. Até a publicação da reportagem, o tribunal ainda precisava analisar o mérito dos questionamentos.
A operação financeira, os questionamentos apresentados pela oposição e as eventuais responsabilidades dos gestores são questões distintas. A transferência e a aplicação dos recursos estão documentadas, mas a hipótese de que a movimentação tenha servido para socorrer o banco precisa ser apurada pelos órgãos de controle.
Ao reafirmar que continuará cobrando explicações, Grass relacionou a atuação política após a eleição à necessidade de esclarecer os fatos e responsabilizar eventuais envolvidos em irregularidades. O candidato afirmou que pretende seguir com as cobranças independentemente de ocupar um cargo no Executivo.
Mandatos e mobilização popular
A reorganização da oposição deverá passar pela atuação dos parlamentares da CLDF. Entre os nomes apontados para essa frente estão Gabriel Magno (PT), Chico Vigilante (PT), Ricardo Vale (PT), Max Maciel (Psol), Keka Bagno (Psol), Múcio Botelho (PSB) e Dayse Amarilio (PSB).
Na coletiva, Grass destacou a importância dos mandatos parlamentares para manter a fiscalização do governo e defender políticas públicas. Ele também afirmou que a mobilização de movimentos sociais, coletivos e militantes foi um dos principais resultados políticos da campanha.
“Os mandatos da Câmara Legislativa vão ser muito importantes. O mandato de Gabriel foi um mandato que foi muito combativo, vai continuar sendo, tenho certeza disso. Assim como os nossos mandatos na Câmara Federal, do Fábio [Félix], do Reginaldo [Veras, do PV] e do Agnelo [Queiroz, do PT], vão ser as nossas grandes ferramentas”, declarou.
Na avaliação de Grass, porém, a atuação parlamentar precisa estar ligada à organização popular. Ele defendeu a continuidade do trabalho com grupos que participaram da campanha e a aproximação com pessoas que buscam respostas para problemas cotidianos do Distrito Federal.
“Agora, a maior delas, sem dúvida, vai ser a organização popular. E isso foi um saldo muito importante nessa campanha. A reorganização do campo progressista, a reorganização da base social, dos movimentos, das pessoas que foram para a rua, de coletivos, grupos, que vieram”, afirmou.
Grass também relacionou o crescimento eleitoral às dificuldades enfrentadas pela população nos serviços públicos. Ao explicar por que acredita ter conquistado novos votos no segundo turno, citou pessoas que enfrentam problemas para conseguir atendimento de saúde, tratamento contra o câncer, vagas em creches e transporte público.
“Muita gente que perdeu o pai e a mãe na fila da UPA, no Hospital de Base, no Hospital Regional, que não conseguiu tratar câncer, gente que, infelizmente, não conseguiu vaga em creche, gente que hoje está revoltada porque é humilhada no transporte público e que entendeu que era preciso mudar”, disse.
Para ele, esses problemas contribuíram para que eleitores que haviam apoiado Ibaneis Rocha (MDB) na eleição anterior optassem por sua candidatura neste ano, mesmo sem necessariamente se identificarem com a esquerda.
Campanha e disputa política
Ao fazer o balanço da campanha, Grass também destacou a diferença de recursos financeiros entre as candidaturas. Segundo ele, a campanha petista contou com aproximadamente um terço dos recursos disponíveis para a adversária, mas compensou essa diferença com mobilização de rua e contato direto com os eleitores.
“E a nossa campanha se superou na rua, se superou na presença, a nossa campanha se superou ali, na conversa, no olho a olho, no diálogo, no convencimento”, afirmou.
O candidato também ressaltou a participação de jovens, estudantes e famílias durante a campanha. Para ele, a presença desses grupos demonstrou que a mobilização política ultrapassou as estruturas partidárias tradicionais.
“A nossa campanha não foi mais uma campanha do partido. Já tem algumas semanas que a nossa campanha não é mais do partido ou dos partidos. A nossa campanha é do povo”, declarou.
A avaliação de Grass é que a campanha conseguiu fortalecer a articulação entre partidos e movimentos sociais e ampliar o alcance do campo progressista no Distrito Federal. O desafio agora, segundo o que apresentou na coletiva, será transformar essa mobilização em acompanhamento permanente do governo, fiscalização das políticas públicas e cobrança de respostas sobre a crise do BRB.
Mesmo sem conquistar o Palácio do Buriti, o candidato reafirmou que pretende continuar atuando politicamente. “Nós não vamos desistir do DF”, concluiu.
Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de WhatsApp do BdF DF: 61 98304-0102
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no WhatsApp e acompanhe as atualizações

