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De Ormuz a Brasília: a disputa pela soberania chega ao bolso dos brasileiros

Petróleo, tecnologia e pressão econômica conectam a crise na Ásia Ocidental ao desafio brasileiro de preservar autonomia

Navio cargueiro ancorado perto do Estreito de Ormuz, na costa leste dos Emirados Árabes Unidos, em Khor Fakkan
Navio cargueiro ancorado perto do Estreito de Ormuz, na costa leste dos Emirados Árabes Unidos, em Khor Fakkan | Crédito: AFPTV / AFP

A distância entre o Estreito de Ormuz e Brasília diminui quando acompanhamos o caminho do petróleo, do dinheiro e do poder. A pressão sobre o Irã e as investidas estadunidenses contra a autonomia brasileira têm histórias distintas, mas colocam uma questão comum: quanto espaço Washington admite para que outros países escolham seu próprio destino?

A conexão aparece na Estratégia de Segurança Nacional estadunidense de 2025. O documento estabelece como prioridades impedir que uma potência adversária domine a Ásia Ocidental e seus recursos energéticos e restabelecer a primazia dos Estados Unidos nas Américas. Para o continente, apresenta expressamente um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, com restrições ao controle de ativos estratégicos por concorrentes externos e incentivo a forças políticas alinhadas a Washington.

O Irã ocupa posição decisiva nessa disputa. Além de conectar o Golfo Pérsico às redes econômicas da Eurásia, está diante de uma passagem fundamental para o abastecimento energético mundial. Segundo a Agência Internacional de Energia, cerca de 20 milhões de barris diários de petróleo e derivados atravessaram Ormuz em 2025. China e Índia receberam, juntas, 44% das exportações de petróleo bruto que passaram pela rota.

Essa importância ajuda a compreender a dimensão chinesa do conflito, embora não explique, sozinha, as pressões contra Teerã. A política israelense, a questão nuclear e as disputas regionais também compõem o cenário. Para o Irã, preservar sua capacidade de decisão significa resistir à imposição externa de limites sobre suas relações econômicas, diplomáticas e de defesa.

Nas Américas, o Brasil enfrenta o desafio de preservar essa mesma liberdade de escolha. Sua escala territorial, seus recursos e seu peso econômico tornam o país central para qualquer projeto de influência regional. Sob Lula, a defesa de relações com Washington, Pequim e os Brics expressa uma orientação de autonomia: ampliar parcerias sem aceitar exclusividade geopolítica.

Essa orientação encontrou pressões concretas. Em 2025, Trump anunciou tarifas contra produtos brasileiros, associando a medida à defesa de Jair Bolsonaro e a críticas ao Judiciário. Eduardo Bolsonaro atuou nos Estados Unidos em busca de apoio e reivindicou participação na pressão por medidas contra o Brasil. Instrumentos comerciais foram, assim, mobilizados para tentar influenciar uma disputa institucional brasileira.

A soberania também se mede pela capacidade de proteger a população das crises externas. Quando o petróleo encarece, a pressão alcança os combustíveis, o frete e os alimentos. É por esse caminho que a instabilidade em Ormuz chega ao orçamento das famílias brasileiras.

Para amortecer o choque, o governo Lula anunciou em outubro a prorrogação da desoneração da gasolina, com zeragem dos tributos federais, e medidas de apoio ao etanol. Também anunciou subsídio adicional ao diesel importado, enquanto mantém o acompanhamento do abastecimento e a fiscalização de aumentos injustificados. A dependência permanece relevante: segundo a Fazenda, aproximadamente um terço do diesel consumido no país é importado.

Essas iniciativas se somam à mudança na política comercial da Petrobras. Em maio de 2023, a companhia encerrou a subordinação obrigatória dos preços da gasolina e do diesel à paridade de importação. A estratégia passou a considerar suas condições de produção e comercialização, buscando evitar o repasse imediato das oscilações internacionais e cambiais. Isso amplia a margem de administração dos preços, embora não elimine a exposição ao mercado mundial.

A disputa por autonomia alcança também a infraestrutura financeira. Washington questionou oficialmente o tratamento regulatório concedido ao Pix, classificando-o como discriminatório contra fornecedores estadunidenses. O episódio documenta um conflito comercial sobre um sistema nacional que amplia a competição nos pagamentos, mas não comprova que o Pix ameace a posição internacional do dólar.

Nos Brics, a discussão envolve ampliar financiamentos em moedas locais e desenvolver mecanismos de pagamentos entre países. São caminhos para diversificar opções e reduzir vulnerabilidades, com avanços que dependem de acordos e infraestrutura.

O elo entre esses temas é a capacidade de decisão. Ao Brasil interessa transformar recursos naturais em indústria, tecnologia, emprego e renda. A diplomacia autônoma, a infraestrutura financeira nacional e os instrumentos de proteção ao consumidor podem servir a esse projeto.

É nessa dimensão que a eleição brasileira ultrapassa a disputa doméstica. A questão envolve a liberdade de negociar com diferentes parceiros e a capacidade de utilizar o Estado para defender interesses nacionais. De Ormuz a Brasília, soberania ganha sentido concreto quando significa proteger a população e preservar o direito de escolher o próprio futuro.

*Raíssa Gamero é comunicadora, com atuação na produção de conteúdo sobre política internacional.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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