EXTREMISTA

Disposta a tumultuar diálogos de paz, María Corina Machado retorna à Venezuela

Sem respaldo inicial dos EUA, opositora é crítica às negociações entre governo e um setor da oposição venezuelana

María Corina Machado é recebida por apoiadores em Caracas, Venezuela.
María Corina Machado é recebida por apoiadores em Caracas, Venezuela. | Crédito: Federico Parra/AFP

A dirigente da extrema direita venezuelana, María Corina Machado, regressou à Venezuela no domingo (25), após passar dez meses no exterior. Machado havia deixado o país clandestinamente no ano passado para receber o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, na Noruega. 

Há meses, a opositora venezuelana anunciava em suas redes sociais o retorno ao país. Segundo seus interlocutores, foram pelo menos sete tentativas frustradas. De acordo com autoridades venezuelanas, María Corina Machado nunca foi impedida de retornar à Venezuela. No entanto, ela teria buscado ingressar de forma clandestina, usando um passaporte panamenho. 

No domingo, ela teria entrado no país por terra, por meio da fronteira com a Colômbia, chegando à capital, Caracas. Pouco depois das 11h30 (horário da Venezuela), ela escreveu em sua conta no X: “Estou aqui. Com vocês”. Em seguida, apareceu pela primeira vez em uma igreja católica de Santa Rosa, no estado de Lara, chegando a Caracas no começo da noite, quando voltou a postar. “Noite de reencontro em nossa Caracas. Pelo reencontro de cada família, pela liberdade de cada preso político, pela liberdade da Venezuela”, publicou a opositora, junto a uma sequência de vídeos de uma grande mobilização que se formou na capital venezuelana.

O regresso da líder opositora ocorre em um momento decisivo para a política interna do país, marcado pelo avanço do Programa Nacional de Convivência Democrática, promovido pela presidenta em exercício, Delcy Rodríguez. As conversações da Mesa de Diálogo Nacional, conduzidas pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e pela representante da oposição vinculada à Assembleia Nacional, eleita em 2015, Dinorah Figuera, já alcançaram seu terceiro ciclo de reuniões. 

O processo resultou em acordos concretos, como a reestruturação do Poder Judiciário, a renovação dos magistrados do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), o levantamento de restrições a portais digitais e a soltura de dezenas de presos, incluindo 39 recentes excarcelações no âmbito da Lei de Anistia.

Apesar dos avanços institucionais do diálogo, María Corina Machado adotou uma postura abertamente crítica em relação ao processo e à aproximação pragmática entre o governo estadunidense de Donald Trump e as autoridades em Caracas. Em entrevistas a meios internacionais, a opositora acusou os Estados Unidos de excluí-la deliberadamente das negociações e criticou os acordos petroleiros firmados com a gestão de Delcy Rodríguez. 

Inicialmente, a administração estadunidense recusou colocar Machado no centro de uma eventual transição, preterindo suas exigências maximalistas e prestando apoio direto à mesa de negociações liderada por Dinorah Figuera. O presidente Donald Trump chegou a dizer que faltava a ela “apoio e respeito dentro do país”. Diante do isolamento político, a líder direitista tenta agora imprimir ruído às negociações e acelerar a pressão por um calendário eleitoral imediato para tentar se projetar como candidata.

Extremismo

A trajetória de María Corina Machado é marcada por uma recorrente atuação desestabilizadora contra a ordem constitucional venezuelana. Assinante do infame Decreto Carmona durante o golpe de Estado de 2002 contra o presidente constitucional Hugo Chávez, a dirigente esteve seguidamente vinculada a estratégias insurrecionais e violentas, como os episódios de sabotagem à indústria petrolífera estatal PDVSA e as manifestações violentas conhecidas como guarimbas. 

Promotora de sanções econômicas internacionais que asfixiaram o povo venezuelano, Machado apoiou abertamente planos de ingerência e agressões estrangeiras contra a soberania do país, mantendo uma conduta histórica de recusa à convivência democrática e ao diálogo institucional.

Após a agressão militar dos Estados Unidos à Venezuela no dia 3 de janeiro, Machado presenteou o líder estadunidense, Donald Trump, com o Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em novembro de 2025 pelo comitê norueguês. A operação resultou na morte de mais de 100 pessoas e no sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, a deputada Cilia Flores. 

Reações

As reações ao regresso da opositora refletem as divergências sobre os rumos do país. O deputado chavista Jorge Arreaza ressaltou que “o processo de diálogo em marcha não procura a neutralização ou desaparecimento do outro, busca criar as condições para que o exercício da política se faça sem confrontações desmedidas, fechando fileiras com a Constituição”. 

Por sua vez, a delegada opositora Dinorah Figuera comemorou o retorno, afirmando que “este é um resultado direto do 3 de janeiro e da fortaleza do diálogo” e ressaltando o compromisso de manter as conversações. Já o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, atribuiu a volta segura de Machado às conversas de reconciliação apoiadas por Washington e pediu que todos os atores apoiem a mesa de diálogo. 

Por sua vez, Donald Trump disse “não saber nada” sobre o tema e disse se tratar de uma “mulher muito agradável”. “Me deu seu Prêmio Nobel, então como posso dizer outra coisa? Espero que esteja a salvo. Mas estamos nos saindo muito bem na Venezuela”, declarou o líder estadunidense.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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