Na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, o site da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) divulgou que com o resultado das eleições 2026, a nova composição da Casa reflete “um amplo movimento de reformulação do Legislativo estadual, com 56,5% de renovação geral no plenário – 26 novos parlamentares”. Outra mudança registrada com os resultados foi o avanço na representação feminina, com a eleição de 14 mulheres. O resultado representa 30,5% das 46 cadeiras do parlamento cearense. Mas como essa mudança deve impactar a casa nos próximos quatro anos?
Configuração da Alece a partir de 2027
A partir do próximo ano, as 46 vagas da Alece estarão distribuídas em 12 partidos. O Partido Socialista Brasileiro (PSB) conseguiu eleger Guilherme Landim, Jeová Mota, Lia Gomes, Marcos Sobreira, Marta Gonçalves, Osmar Baquit, Romeu Aldigueri, Sérgio Aguiar, Dr. Gerônimo, Elizeu Monteiro, Fabíola Carneiro, Manu Pimenta e Paloma Nunes. Pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foram eleitos De Assis Diniz, Jô Farias, Missias Dias, Moisés Braz, Catanho, Franzé Carneiro, Gadyel, Ilo Neto, Jade Romero, Lais Nunes e Lizianny Medeiros.
O Partido Liberal (PL) elegeu Dra. Silvana, Abreu Júnior, Bella Carmelo, Dra. Mayra Pinheiro, Frota Neto e Tancredo dos Santos. O Partido Social Democrático (PSD) elegeu Domingos Filho, Firmo Camurça e Simão Pedro.
O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) elegeu Davi Benevides, Emília Pessoa e Felipe Vasques. O Partido Socialismo e Liberdade (Psol) entra como uma grande novidade ao conquistar duas vagas com a eleição de Gabriel Biologia e Leo Suricate. O Republicanos elegeu David Durand e Gardel Rolim. O União Brasil elegeu James Bel e Moses Filho.
Os partidos Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Progressistas (PP), Partido Verde (PV) e Solidariedade elegeram um representante cada: Davi de Raimundão, Zezinho Albuquerque, João Jaime e Geórgia do Marcelão, respectivamente.
Joana Borges, historiadora, mestre em sociologia e psicanalista, diz que, com a nova configuração da Alece, uma das coisas que a gente precisa observar é que, embora a bancada do PSDB tenha diminuído de cinco para três cadeiras, a bancada do PL, que é uma oposição mais radical, aumentou de quatro para seis parlamentares. “Então, embora a oposição na Assembleia seja minoria, agora é mais radicalizada”.
Mas ela ressalta que o cenário, de um modo geral, parece ser um resultado positivo para o governador Elmano de Freitas. “Ele vai manter a esmagadora maioria dos deputados da Alece no próximo período na sua base, o que garante um certo nível de relação entre o governo do estado e a Assembleia Legislativa no avanço de algumas pautas, no avanço de alguns projetos. Então, com certeza nós veremos uma oposição mais raivosa, mais barulhenta que, com certeza, vai gerar muitos conflitos com o governo do estado, mas, ao mesmo tempo, um governo que possui uma base mais sólida e mais ampla na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará”.
Representação feminina na Alece
A Alece informa que a representação feminina parlamentar cearense cresceu 55,5% entre as eleições de 2022 e de 2026. A bancada feminina será composta por Fabíola Carneiro, Manu Pimenta, Paloma Nunes, Lia Gomes e Marta Gonçalves, do PSB; Jade Romero, Lais Nunes, Liziany Medeiros e Jô Farias, do PT; Bella Carmelo, Dra. Mayra Pinheiro e Dra. Silvana, do PL; Emília Pessoa, pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB); e, pelo Partido Solidariedade, a deputada de primeiro mandato Geórgia do Marcelão.
Desse total, nove chegam à Assembleia Legislativa pela primeira vez, o que representa uma renovação de 64,3% da bancada feminina.
Borges afirma que o crescimento das mulheres no Parlamento vem avançando no Brasil a cada pleito, e o Ceará se destaca nesse sentido, pois foi o estado com o maior número de assentos para mulheres na Assembleia Legislativa, mas, de acordo com ela, é sempre bom observar o local partidário dessas mulheres para entender, inclusive, os projetos que estão em disputa e o que é que essas mulheres representam dentro desses espaços políticos.
“A gente observa que, dessas 14 mulheres, a maioria se concentra entre parlamentares do PT e do PSB, o que configura aí um reforço para a base do governo de Elmano de Freitas, mulheres que se encontram num projeto de esquerda ou de centro-esquerda, o que demonstra uma força desse projeto que vem sendo construído pelo Poder Executivo no estado do Ceará, mas também é importante notar e ficar atento ao avanço das cadeiras das mulheres da extrema-direita, que agora contam com quatro, inclusive, a quarta reeleição da Dra. Silvana, mas, no geral, o saldo parece positivo”, informa Borges.
Paula Vieira, professora do ProfSocio-UFC e pesquisadora do Lepem-UFC, explica que, na ciência política, quando se vai estudar as questões de gênero, uma das coisas que é pontuada é a importância de ter mulheres sendo representantes institucionais, porque é a partir do ponto de vista de mulheres que nós conseguimos compreender dinâmicas de gênero, relacionadas a gênero. “É pela presença das mulheres que nós falamos sobre necessidade de creches, é pela presença das mulheres que nós falamos de proteção, de rede de acolhimento e proteção para as mulheres em situação de violência, questões relativas à maternidade, às diversas formas de maternidade, às necessidades da maternidade. Então, a presença das mulheres nos traz isso, nos traz essa possibilidade de que a questão de gênero. Então, a presença dessas mulheres nos traz essa leitura mais ampliada das relações de gênero, por isso que é tão importante que elas estejam exercendo representação”.
Vieira ressalta que é preciso observar que a maioria das mulheres que foram eleitas têm relações com políticos, com lideranças políticas. “São filhas, são esposas de prefeitos, de deputados, de homens que já estão na vida pública. Por que eu faço essa ponderação? Por que as mulheres que conseguem ter competitividade ao ponto de ser eleitas necessariamente precisam ter relações familiares com homens que já estão na política? Isso é uma coisa que eu acho que a gente deve questionar, que a gente deve lançar um olhar mais apurado, não para desqualificar o trabalho dessas mulheres, mas no sentido da gente pensar porque só essas mulheres têm competitividade política ao ponto de serem eleitas para as instituições legislativas. Então, por que é que são as relações familiares que fazem com que essas mulheres se tornem competitivas? Eu acho que essa é uma questão que deve ser feita, mas deve ser feita sem reduzir a participação delas e a representação que elas possam vir a exercer, mas sim no sentido de que: ‘Precisa de um capital político anterior?’”.
Votações mais expressivas para a Alece
Nessas eleições, seis deputados estaduais conquistaram mais de 100 mil votos: Tancredo dos Santos (PL): 151.396 votos; Gabriel Biologia (Psol): 141.749 votos; Bella Carmelo (PL): 130.802 votos; Abreu Júnior (PL): 127.034 votos; Romeu Aldigueri (PSB): 112.303 votos; e Liziany Medeiros (PT): 102.659 votos.
Tancredo dos Santos (PL) foi quem teve o maior número de votação, com mais de 150 mil votos. Vieira acredita que essa quantidade de votos tenha a ver com sua aliança com André Fernandes (PL). “A campanha de Tancredo dos Santos foi toda construída ao lado de André Fernandes, que tinha o número 2222, e o Tancredo dos Santos era 22 221, então fazendo aí um voto casado com André Fernandes, então essa estratégia foi uma maneira de puxar esses aliados do grupo dele [André Fernandes] do PL”.
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