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Nunca antes na história desse país…

Lula vence pela quarta vez e prova que sua figura atravessa gerações

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição, São Paulo (SP)
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso de reeleição, São Paulo (SP) | Crédito: Ricardo Stuckert

Nunca antes na história do Brasil um presidente ganhou uma eleição revertendo a desvantagem do primeiro turno. Até ontem. No domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 51,79% dos votos válidos (64.256.232) contra 48,21% (59.826.041) de Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 4.430.191 votos.

Lula se despede dos pleitos eleitorais realizando um feito histórico como a figura política mais importante da história do Brasil. São quatro vitórias, de um homem forjado no trabalho e na política, nascido no sertão nordestino e representante da classe operária. Uma biografia em muitos tomos. E que ainda não se encerrou. Lula terá mais quatro anos para governar e concluir, como presidente, sua vida política.

Alguns dirão que foi operado um milagre, uma batalha de Davi contra Golias. Até a véspera, nenhuma pesquisa acertou o resultado. Datafolha, Quaest e AtlasIntel davam Flávio na frente, todas errando no mesmo sentido e por margem parecida. Não houve milagre. Houve mobilização social em torno de pautas caras à classe trabalhadora, e foi ela que garantiu a vitória. E nos mostra que mobilizações mudam rumos e que a figura do Lula atravessa gerações.

Em uma disputa tão polarizada, a troca direta de voto entre os dois finalistas era quase impossível; quem tinha escolhido Flávio no primeiro turno dificilmente escolheria Lula no segundo, e vice-versa. A virada estava no eleitor indeciso, em quem se absteve e nos votos dos candidatos eliminados no primeiro turno.

Foram 9,3 milhões de eleitores que tinham votado em candidatos já eliminados, quase 2 milhões que tinham votado em branco ou nulo e, dessa vez, escolheram um nome, e quase 3 milhões a mais que foram às urnas no segundo turno: o comparecimento subiu de 78,92% para 80,78% entre os dois turnos. Os dois maiores candidatos eliminados, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, declararam apoio a Flávio, mas não importou. Lula cresceu em 5.567 dos 5.571 municípios do país, em todos os estados, e terminou com 6,65 milhões de votos líquidos a mais entre os turnos.

São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somaram, sozinhos, mais votos na virada que os nove estados do Nordeste juntos. Mas foi no Nordeste, onde Lula já era mais forte, que ele cresceu mais em proporção ao eleitorado.

O primeiro turno tinha deixado um sabor amargo na boca, com a extrema direita ampliando sua presença no Congresso. Cientistas políticos analisaram o resultado e nenhuma pesquisa conseguiu aventar uma virada de Lula no segundo turno. Foram 21 dias de manifestações grandiosas nas ruas de todo o país. A primeira delas, puxada por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, dois dias depois do primeiro turno. Dali para mais de 40 universidades em dez estados. Uma geração nova tomou parte de seu papel na política.

Depois de um segundo turno frio nas campanhas oficiais, tivemos as ruas e esquerda como há muito não se via. Nas redes, como nunca antes. O deputado federal André Janones levantou o moral do “Exército do Lula” por 21 dias ininterruptos e reuniu mais de 10 milhões de pessoas em seu canal de WhatsApp. O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, respondeu aos pedidos de derrubada do canal, suspendendo-o, decisão revertida pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva.

Reduzir a democracia ao período eleitoral é um equívoco, mas esse período nos permite disputar consciências para além das urnas. Foi exatamente o que aconteceu. Poderíamos listar inúmeras pautas que uniram a população contra o bolsonarismo: soberania, políticas sociais voltadas para os mais pobres, a questão indígena, democracia, o combate às milícias e à violência, a preservação da Amazônia, mães solo, mulheres, a redução da jornada de trabalho, o racismo estrutural, os direitos da população LGBT+, a moradia popular.

A posição nas urnas passou por uma compreensão maior do que significa o conceito de extrema direita. Entender o que está em jogo permite que a população discuta mais a fundo o projeto de um país soberano, debata políticas públicas e reconheça o feito do PT, que, desde 2003, mudou o Brasil. Ainda existem dois Brasis, a sólida polarização entre dois projetos distintos, com os expressivos apoios de gente muito poderosa dentro e fora do Brasil contra um projeto popular. Mas o abismo entre esses dois Brasis pode diminuir quando a classe trabalhadora consegue se enxergar dentro desse espectro e fazer parte dos quatro anos de governo que virão.

E agora? Luta. Desde o dia um

O jornalismo do Brasil de Fato segue ao lado da classe trabalhadora. É de onde falamos desde 2003, e esse lugar não muda porque a eleição acabou. Seguimos cobrando, pauta a pauta, para que o governo que recomeça em janeiro atenda cada vez mais às demandas do povo que o elegeu. A prática jornalística em qualquer país demanda dados, acesso e livre exercício, inclusive com exposição ao contraditório.

Aproveitar o capital político que essa disputa gerou será fundamental para definir os próximos anos, não só os quatro que vêm, mas o futuro em décadas. Pressionar para que o governo se mova mais à esquerda em pautas como tributação dos super-ricos, tarifa zero, reforma agrária e demarcação de terras indígenas, entre outras, é uma tarefa.

Nós já sabemos como opera o bolsonarismo no poder. Foram quatro anos de governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, que demonstraram a quem esse projeto serve. Eles foram derrotados. Bots, bets, Meta, boa parte da mídia comercial, Donald Trump, que recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca em maio, em plena crise do tarifaço.

Treze parlamentares americanos cobraram explicações de Mark Zuckerberg depois que a inteligência artificial do WhatsApp teria se recusado a gerar imagens associando o nome de Lula ao número 13, enquanto produzia normalmente peças a favor de Flávio. Cabe também exigir responsabilidades dos governadores e prefeitos aliados ao bolsonarismo, com relação à ausência das frotas de ônibus para a população no dia da eleição, e do próprio ministro Kassio Nunes Marques, quanto à conduta do TSE neste pleito.

Essa foi uma vitória de todos os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Jovens que tomaram as ruas, idosos que saíram de casa para votar, caravanas de povos indígenas de todas as regiões indo coletivamente às urnas. É esse povo que merece, lado a lado de Lula, em seu último governo, escrever a história do Brasil nos próximos quatro anos. Que esses quatro anos alterem rotas, ajustem injustiças e sejam marcados como os mais representativos da classe trabalhadora.

Editado por: Rafaella Coury

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