MOBILIZAÇÃO

Os guardiões do rio Araçuaí (MG) estão a postos

Armados de redes, canoas e da própria voz, pescadores e agricultores familiares lutam para salvar o rio

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Moradores percorrem o leito do Rio Araçuaí em protesto à mineração | Crédito: reprodução

Antônio Sousa Jardim, mais conhecido como Toninho, arma a rede como fez a vida inteira. Escolhe o ponto, afasta o barco e espera. Depois volta, agarra a borda e puxa — devagar, no ritmo de quem conhece cada braçada do Rio Araçuaí. A rede sobe. Está vazia: “só mato, só sujeira”, diz o pescador. 

No mesmo ponto, Toninho chegava a tirar de oito a dez cumatãs por retirada — o peixe de fundo que se apanha na rede, abundante no rio de outrora. Também tinha traíra e pintado, que eram os peixes que ele e o pai encontravam nas redes, as espécies que sustentavam a mesa e a renda da família. 

Ele e a esposa têm até carteirinha de pescador profissional, categoria artesanal, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A pesca não era complemento: era ofício, herança, endereço. Toninho aprendeu a pescar com o pai, que também era pescador, e mora na beira do rio Araçuaí, na cidade de mesmo nome, no Médio Jequitinhonha. O rio faz parte de seu modo de vida: “isso está afetando nosso trabalho porque os peixes estão cada vez mais escassos e desaparecendo devido ao barulho, à sujeira e à poluição”, relata.

O pescador Antonio Sousa retira a rede sem peixe – Foto: reprodução

A indignação de Toninho vem acompanhada de uma sensação de desamparo. Ele lamenta não poder fazer “muita coisa” além de seguir pedindo às autoridades que ajudem o rio. Ele conta que a falta de respeito do “pessoal da draga” é tanta que, certa vez, as redes puxaram, próximo de uma das balsas, “papel higiênico, fezes, sujeira e poluição”. “Peixe que é bom? Nada. Não se pega mais peixe”, conclui.

Ela chama de “tragédia” o que atingiu a comunidade de Macieira. O que esvazia a rede de Toninho é objeto de disputa. Para pescadores e ribeirinhos de pelo menos dois municípios, Araçuaí e Itinga, a resposta cabe em uma palavra: draga. São balsas que sugam o cascalho do leito do rio em busca de ouro, instaladas ao longo do rio Araçuaí — de Tum Tum a Araçuaí.

Segundo os moradores, as dragas operam há cerca de quatro anos e deixam o rio cada vez mais doente. No último levantamento, contaram 14 delas em cinco comunidades — Tum Tum, Cansanção, São João do Setúbal, Macieira e Vargem Grande. Das 14, apenas as quatro de São João do Setúbal seguem ainda em atividade até a véspera desta reportagem. Foi o esforço coletivo dessa gente de ligações profundas com o rio Araçuaí que conquistou esta primeira vitória — mas os moradores seguem vigilantes, cientes de que o movimento que chamaram de “Salve o Rio Araçuaí” precisa continuar.

Este icônico rio banha 23 municípios antes de desaguar no rio Jequitinhonha, a cerca de 15 quilômetros da cidade de Araçuaí. Entre setembro e outubro de 2026, depois de meses de denúncias documentadas pela própria comunidade, um protesto fluvial de 18 quilômetros e fiscalizações acionadas pelos moradores, as dragas desse trecho foram paralisadas: a Polícia Militar de Meio Ambiente embargou uma e o proprietário do maquinário teria desativado outras quatro máquinas. 

Os moradores querem que a paralisação seja definitiva e alcance as demais comunidades que moram às margens do Araçuaí. Para tanto, na quinta-feira (22), a causa chega à Câmara Municipal de Araçuaí, que institucionalizou o debate em reunião pública. A história dessa virada, porém, começa antes, numa casa à beira do rio.

“Aqui não”

A casa é de Maria do Carmo Oliveira, 60 anos, moradora da comunidade ribeirinha de Tum Tum, à beira do rio Araçuaí, na divisa com Virgem da Lapa. Foi na porta dela que o empreendimento minerário encontrou uma das primeiras resistências. 

“Já passei muito apuro com ela [a draga]. Fiquei em pé de guerra”, conta. Quando a empresa tentou operar em frente ao terreno dela, a agricultora recusou: “falei que no que é meu eles não trabalhariam”. A draga acabou amarrada no porto da família — onde, segundo ela, segue parada até hoje.

O recado foi dado pessoalmente. Ela conta que o responsável pela draga foi procurá-la três vezes — duas delas acompanhado por duas pessoas vestidas com uniforme de polícia, que ela diz não conhecer. 

“Vocês podem vir com tudo, mas o meu direito eu tenho. Em frente ao meu porto, encostado com a minha terra, vocês não vão passar”, reafirmou. A resposta que recebeu, ela resume: “disseram que tinham autorização para trabalhar no rio onde quisessem”.

Os efeitos, ela descreve no dia a dia da comunidade. “As dragas deixam um montão de areia na beira do rio. Aqui não havia ilha e era lugar que a gente não tomava pé, só passava de barco. E hoje você passa e não molha o joelho”, conta.

A bomba que leva água à comunidade ficava abaixo de uma das dragas, que lançava no rio os dejetos dos banheiros das balsas. “Eu me sinto ofendida, e a comunidade toda está sendo atingida”, sinaliza. 

Na roça da família eles plantam de tudo — milho, andú, horta na beira do rio. A agricultora diz que a comunidade não tem água tratada. E tem pesar para com os vizinhos: “muitas famílias foram prejudicadas. Onde eles trabalhavam, a beira do rio foi tudo destruído”.

A agricultora de Tum Tum gravou um áudio no grupo de WhatsApp da comunidade de Macieira: “o rio, ele não sabe falar, ele não sabe conversar, mas ele está sofrendo. Ele está gemendo. Antigamente a gente via as cachoeiras gritar[em]. Hoje nós não vemos nem as cachoeiras gritar[em] mais. Então quem tem que gritar pelo rio somos nós, os ribeirinhos que moramos na beira do rio e estamos vendo passar o sufoco que o rio está passando”.  

E pediu: “o rio está doente. O rio tá pedindo socorro. Como todo mundo busca por saúde, busca médico, vamos buscar também um médico para o rio. Vamos pedir socorro pelo rio”. O pedido que Maria do Carmo gravou chegou no dia 22 de outubro ao plenário, na voz de Eliene Oliveira, a representante dos ribeirinhos.

“Nós estamos aqui falando pelo Rio, o Rio está pedindo socorro e nós estamos aqui clamando por ele”, defendeu. 

O rio e a draga

O cascalho sob os pés do professor e engenheiro mecânico Josias Gomes Ribeiro Filho não existia ali. “Tudo isso foi resultado de quatro dias de uma draga operando, até que ela foi autuada, com a mobilização da comunidade”, conta ele, em entrevista feita às margens do Rio Araçuaí, no ponto conhecido como Macieira, onde três dragas chegaram a operar.

O professor é natural de Araçuaí e faz parte do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araçuaí. Ele explica que o problema começa pela forma como a extração é feita. A autorização existente prevê retirar areia e cascalho e levar o material para um pátio, retirar a água e devolvê-la ao rio. Não é o que acontece. “Aqui eles revolvem o rio e mexem com toda sua biodiversidade — toda a fauna — e também muda o curso do rio”, diz. 

A mecânica que ele descreve é a formação progressiva de ilhas de cascalho. A balsa, que só opera em trechos com água, vai avançando pelo leito e deixando atrás de si um rastro de material retirado das profundezas. 

“Eu não sei se chamo isso de ilha ou de península, porque ilha é quando corre água nos lados. Mas ela não existia”, completa, se referindo a um grande banco de areia e cascalho.

E o destino do material revela, para ele, o verdadeiro objetivo da operação. O cascalho sugado passa por uma caixa com grade e manta — o equipamento que retém as pepitas de ouro, cerca de 19 vezes mais pesadas que a água — enquanto todo o resto é devolvido ao leito. 

“Essa autorização que eles têm é para tirada de areia e cascalho, para levar para um pátio. Na verdade, o que eles estão mirando é o ouro. Não sei se estão realmente preocupados com o cascalho ou com a areia”, realça. 

A leitura do advogado Pedro Andrade, coordenador do Projeto Manuelzão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vai no mesmo sentido — e tem nome jurídico. Ele considera “altamente suspeito” o uso da licença simplificada para licenciamento de dragagem de rios visando à extração de ouro. 

Produtos químicos e óleo derramado na areia – Foto: reprodução

A crítica ao instrumento usado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) é técnica. Para o advogado que orienta comunidades atingidas por grandes empreendimentos, especialmente a mineração, a licença simplificada não cabe ao caso. Segundo ele, o instrumento “é destinado a atividades de baixo impacto”, e há precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF), “entendendo que mineração com impacto não é caso para licenciamento simplificado”.

A defesa, ele resume: “na verdade, precisa ter o licenciamento trifásico, inclusive com abertura de audiência pública e estudo de impacto ambiental”. O descompasso entre o que a licença permite e o que a draga faz, continua, não é exclusividade do Araçuaí. “Muitas vezes, as mineradoras com licença somente para extração de areia acabam fazendo também atividades de extração de ouro nessa areia de aluvião”, alerta. 

O advogado também explica que há empresas autorizadas a um porte pequeno que dragam quantidades muito maiores, excedendo a poligonal da área autorizada — e há até quem use mercúrio, apesar de ilegal. No Rio das Velhas, lembra, a Polícia Federal opera com frequência contra dragagens ilegais. “Muitas dessas empresas realizam essas atividades de forma ilegal devido à alta lucratividade”, pondera. 

De volta ao rio, as marcas do método estão registradas no relevo: poços de 2 e 3 metros onde antes havia uma profundidade média, e calhaus arredondados que a força da bomba é capaz de quebrar — um deles, de tamanho avantajado, Ribeiro Filho mostra à câmera, retirado do próprio leito.

O trecho onde a draga atuou fica em uma área de referência para pescadores e canoeiros da região. A montante, a cerca de 10 ou 12 quilômetros, opera a mineradora Correa Mattos, ressalva o engenheiro. 

Foi dali que ele também gravou um vídeo para esta reportagem: “estamos no rio Araçuaí, um rio outrora de águas limpas e cristalinas, agora com essa água bastante barrenta”, descreve. O rio nasce entre Rio Vermelho e Felício dos Santos, aproximadamente 300 quilômetros a montante, banha 23 municípios — Virgem da Lapa, Francisco Badaró, Berilo, Chapada do Norte e Araçuaí, entre os deste trecho — e deságua no rio Jequitinhonha. O nome, aliás, é mais antigo que o município: a cidade de Araçuaí recebeu a denominação do nome do rio em homenagem a ele, em 1871.

“Um rio com essa área de influência já estava comprometido antes das dragas”, diz o engenheiro. Assoreamento, supressão de vegetação e a retirada de água por gigantescas bombas de irrigação são algumas dos desafios citados. Segundo ele, é nessa época que o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) costuma declarar escassez hídrica — o alerta oficial de que o volume de água do rio caiu — nos meses de setembro e outubro. 

“E agora nós estamos com um problema adicional: a operação de dezenas de dragas no Rio Araçuaí. Essas dragas são muito potentes e são capazes de remover toneladas — dezenas e até milhares de toneladas de cascalho”, ressalta Ribeiro Filho.

Licenças e autorizações

A Correa Mattos Mineração e Desassoreamento Ltda. chegou ao Rio Araçuaí com um título de 847 hectares. O processo nº 835.006/2010, da Agência Nacional de Mineração (ANM), não nasceu na empresa: foi requerido em dezembro de 2010 por Fábio Rodrigo de Melo Rezende, que recebeu o alvará de pesquisa nº 10249 em julho de 2011.

Em novembro de 2014, Rezende cedeu integralmente os direitos à Vicer Exploração Mineral e Pesquisa Ltda; em junho de 2016, a Vicer, por sua vez, cedeu  a Jorge Caetano de Mattos Netto ME — o mesmo CNPJ 04.392.500/0001-77 que, anos depois, passou a se chamar Correa Mattos. 

No Relatório Ambiental Simplificado de 2022, a empresa declarava como sócio-proprietário e responsável legal Guilherme Rodrigues Corrêa; no cadastro da Receita Federal, consultado em outubro de 2026, o quadro societário lista como sócia a I. Souza R. Holding e como sócio-administradora Dina Raquel Rodrigues — que administra também a holding.

A licença que abriu as portas do rio foi emitida em 8 de março de 2022 pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD): a Licença Ambiental Simplificada nº 1030/2022, válida por dez anos, autorizando a extração de areia e minério de ouro no leito do Rio Araçuaí, na Fazenda Saudade, em Araçuaí. 

Pela regra estadual, a licença simplificada é reservada a atividades de baixo impacto — e permite que as três fases do licenciamento ambiental (prévia, de instalação e de operação) sejam concedidas num único ato, sem estudo de impacto ambiental e sem audiência pública.

O sustentáculo hídrico da operação constava do próprio processo: em novembro de 2020, o Igam havia deferido a outorga nº 1409084/2020 — renovada, válida por dez anos, até 28 de novembro de 2030 — para dragagem de curso d’água para fins de extração mineral no rio Araçuaí. O parecer técnico que embasou a licença cita a outorga como vigente. E a Guia de Utilização da ANM, expedida em 2021, autorizava 50.000 toneladas de areia por ano — quase o triplo dos 9.900 m³ anuais que a licença estadual licenciou.

O que o documento não revela na capa aparece duas páginas adiante. No parecer técnico, o próprio órgão ambiental registra: “não foi realizada vistoria ao local, sendo, portanto, o empreendedor e seu profissional técnico os únicos responsáveis pelas informações prestadas e relatadas neste parecer”. Ou seja: o Estado autorizou a dragagem de ouro em um rio que nunca viu — com base apenas no que a empresa e a consultoria contratada declararam no papel.

A velocidade da concessão está registrada nos carimbos eletrônicos dos autos. O Relatório Ambiental Simplificado (RAS) foi protocolado na manhã de 7 de março de 2022. No fim do mesmo dia, às 19h25 e 20h37, o parecer técnico nº 7 foi assinado pela analista Joselaine Aparecida Ribeiro e pelo diretor regional Stenio Abdanur Porfirio Franco, da Superintendência Regional de Meio Ambiente (SUPRAM) do Jequitinhonha. Às 7h55 do dia seguinte, a licença estava emitida. Do papel do empreendedor ao aval do Estado, menos de 24 horas. O cabeçalho do parecer, aliás, registra data de 23 de junho de 2021 — sete meses antes de o RAS ter sido protocolado.

A autorização se apoia em três atividades: lavra em aluvião para ouro, com produção bruta de até 12.000 m³ por ano; extração de areia e cascalho, limitada a 9.900 m³ anuais; e uma estrada de 2 km para transporte do minério. No RAS, a empresa previu até cinco balsas operando no trecho — uma para areia e quatro exclusivas para ouro, cada uma com a calha riflada forrada com tapete que retém as pepitas enquanto a água volta ao rio. O teor esperado: 2,88 gramas de ouro por tonelada dragada.

A terra sobre a qual a operação se instala não é registrada em nome da mineradora. No processo da ANM, a condição do solo consta como “propriedade de terceiros”. Os mapas do licenciamento remetem à matrícula 32.784 do Cartório de Registro de Imóveis de Araçuaí, referente à Fazenda Saudade, parcela 2, de cerca de 49,56 hectares à beira do rio, na divisa de Araçuaí com Virgem da Lapa e Francisco Badaró. 

O quadro societário desenha a mesma proximidade no papel: a I. Souza R. Holding — holding constituída em Araçuaí em maio de 2021, com capital de R$ 1 milhão e CNAE de compra e venda de imóveis próprios — é sócia da mineradora, que tem como sede declarada a própria Fazenda Saudade. A mesma Dina Raquel Rodrigues administra as duas.

A fiscalização chega — e encontra o rio fora do papel

A distância entre o licenciado e o executado foi aferida pela própria SEMAD em novembro de 2023. O Auto de Infração nº 324946/2023, lavrado em 10 de novembro após fiscalização presencial, registrou cinco infrações. Quatro delas tratavam de vegetação: a supressão de 0,61 hectare de Cerrado em área comum e de 0,66 hectare em Área de Preservação Permanente (APP), às margens do rio, onde a empresa instalou depósito de areia e bacia de decantação — cerca de 38 vezes a área de APP que o Documento Autorizativo para Intervenção Ambiental havia permitido — e a “manutenção da intervenção” nessas mesmas áreas, diferença que o auto registra como dano em curso, não apenas instalado.

A quinta infração ia ao centro da operação: “dragar para fins de extração mineral, nos cursos d’água” — no registro da fiscalização, “sem estar acobertado por outorga para extração de areia e cascalho”. A atividade-fim do empreendimento, executada sem a autorização hídrica que a sustentava no papel — embora a outorga de 2020 constasse deferida no IGAM e citada como vigente no próprio processo de licenciamento. O auto aplicou multa de R$ 18.908,93, que segue em aberto e em fase de cobrança (processo administrativo 791298/23), e suspendeu a extração em toda a poligonal do processo minerário da ANM até a regularização.

Sete meses antes, em abril de 2023, a própria empresa havia protocolado o que intitulou “Cumprimento da condicionante VIII” — apresentando como cumprimento a ausência de qualquer análise: “a caixa de contenção do galpão do maquinário encontra-se seca, e o biodigestor, praticamente vazio”, justificou, “sem geração de efluente suficiente” — em um empreendimento que o próprio RAS descreve com 16 funcionários em dois turnos de oito horas. No mesmo documento, a empresa informou que os papéis higiênicos do canteiro são destinados “à coleta da cidade de Araçuaí juntamente com os resíduos da residência do proprietário do imóvel” — embora a licença exija banheiro químico em cada balsa, com destinação por empresa especializada.

Três anos depois da multa, o problema reapareceu — agora contado pela própria empresa. Em 28 de setembro de 2026, a Correa Mattos comunicou à Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), via Unidade Regional de Regularização Ambiental (URA) Jequitinhonha, que identificou, em conferência própria, duas dragas posicionadas fora dos limites espaciais da outorga vigente e da área licenciada — embora dentro do polígono da ANM. Determinou a “paralisação preventiva” dos equipamentos, mas alegou não poder removê-los: o nível baixo do rio impede o deslocamento e a retirada por terra depende de autorização de vizinhos, não concedida.

O comunicado afirma que a paralisação “não implica a paralisação do empreendimento como um todo” — e não menciona o auto de infração de 2023, nem diz desde quando as dragas estavam fora dos limites, nem se houve extração nesse período. Em vez de trazer as dragas para dentro da área autorizada, a empresa protocolou pedidos de ampliação da outorga.

A lei municipal nº 581, de 5 de setembro de 2022, já proibia a extração de ouro e metais preciosos por processo mecânico motorizado — “dragas e congêneres” — em toda a bacia no território de Araçuaí, e determinava à Prefeitura “providenciar a interrupção dos serviços de dragagem atualmente realizados”. Quatorze meses depois da lei, a fiscalização estadual constatou a dragagem em curso. Nos documentos levantados pela reportagem, não há registro de que a Prefeitura tenha aplicado a lei.

Os três episódios desenham um padrão que a documentação formaliza: o mesmo tipo de desvio — operar fora da autorização — registrado pela fiscalização em 2023, confessado ao Estado em 2026, sob uma multa aplicada em 2023.

O que o papel não mede

Os documentos do licenciamento, lidos em conjunto, guardam contradições que nunca foram conciliadas nos autos. A área diretamente afetada aparece com 3,9 hectares no laudo espeleológico e 0,417524 hectares no RAS e no parecer. A área de preservação permanente varia entre 3,6498 e 2,8448 hectares, conforme o mapa ou o parecer. O RAS marca como anexa uma proposta de monitoramento que o parecer técnico nega que exista — e declara, ele próprio, que não havia programa de monitoramento das águas do rio, o corpo receptor da operação.

No sistema da ANM, consultado em outubro de 2026, o processo 835.006/2010 consta em fase de requerimento de lavra — a concessão definitiva ainda não foi outorgada. A exploração se sustenta em uma Guia de Utilização expedida em 2021, prorrogada pela ANM em fevereiro de 2026 por mais três anos.

O histórico do processo, porém, registra movimento intenso: em agosto e setembro de 2025, a Superintendência Regional de Minas Gerais expediu dois despachos determinando o cumprimento de exigências em prazo de 60 dias; um deles chegou a anular a prorrogação da guia, depois redeferida em 2026. O último evento do processo é um Relatório Anual de Lavra retificador, cujo conteúdo não é público, ou seja, está “em segredo”.

Pelo menos 18 processos minerários ativos no mesmo trecho

A Correa Mattos não é exceção no trecho do rio Araçuaí onde opera. Na plataforma Sistema de Informações Geográficas da Mineração (Sigmine), ANM, há pelo menos 18 processos minerários ativos entre Araçuaí, Virgem da Lapa e Francisco Badaró — titulados por pelo menos 12 empresas e pessoas físicas distintas — somando 17.014,54 hectares: 12 de lítio (13.985,87 ha), 4 de ouro (2.842,19 ha) e 2 de areia (186,48 ha).

A movimentação recente é concentrada. Em 23 de julho de 2026, a ANM publicou autos de infração contra quatro títulos de lítio da mesma região. No ouro, além da Correa Mattos, a Mineração Pais & Filhos apresentou relatório anual de lavra em março de 2026, e José Renan da Cunha Melo protocolou pesquisa com resultado positivo em janeiro do mesmo ano. Na areia, a Araujo Mineração mantém concessão de lavra desde 2009 e confirmou, em setembro de 2026, pesquisa positiva em mais 139 hectares.

O debate no plenário

Reunião pública na Câmara Municipal de Araçuaí – Foto: reprodução

A defesa do Rio Araçuaí chegou ao plenário da Câmara Municipal de Araçuaí. Na quinta-feira (22), o legislativo realizou a reunião pública “Rio Araçuaí — Impactos e Recursos Hídricos”, convocada a partir da mobilização das comunidades ribeirinhas através do movimento Salve o Rio Araçuaí.

A pauta oficial do encontro listava sete temas, e cada um deles corresponde a um fato documentado nesta reportagem. A qualidade e a disponibilidade de água aparecem na rede que Toninho puxou vazia e no alerta do bispo Dom Geraldo Maia sobre a captação de água do subsolo. O saneamento básico e o lançamento de esgoto nas fontes estão nos questionamentos do prefeito de Francisco Badaró, assim como a turbidez da barragem do Setúbal. 

As atividades de mineração são as dragas de ouro: 14 contadas pelos moradores em cinco comunidades, quatro ainda em operação em São João do Setúbal na véspera desta reportagem. As outorgas de uso dos recursos hídricos são o instrumento que autoriza — ou não — a retirada de água na bacia, tema que o Bispo de Araçuaí pediu que fosse tratado “de maneira especial”. E a fiscalização ambiental ficou na pergunta de Carlindo Dourado Sousa, endereçada ao prefeito ausente: por que a Lei Municipal nº 581/2022 não está sendo fiscalizada?

Para as comunidades ribeirinhas, a realização da reunião no plenário registrou uma etapa da mobilização coletiva que começou nas margens: a peregrinação de 20 de setembro, nas vésperas do aniversário de Araçuaí, o levantamento das 14 dragas e as denúncias documentadas pela própria comunidade. O rio que esvazia a rede de Toninho entrou, com data, título e ata, na pauta da Câmara Municipal de Araçuaí.

Fala a representante dos Ribeirinhos do Rio Araçuaí

Eliene Oliveira, representante das comunidades ribeirinhas  de Araçuaí – Foto: reprodução

Convidada a usar a palavra, a representante Eliene Alves de Oliveira falou em nome dos ribeirinhos. “Estamos aqui para mostrar realmente o que é que o Rio Araçuaí, o que é que o Vale do Jequitinhonha vem enfrentando durante anos e anos. Cada dia que passa, está de mal a pior”, disse. 

Ela datou o início da mobilização: 6 de agosto, quando os moradores “se depararam com uma degradação ambiental” na comunidade Macieira — comunidade ribeirinha de origem de seus pais, onde ela sempre morou.

A cobrança foi nominal. “A gente gostaria que Tadeu estivesse aqui hoje”, disse, sobre o prefeito Tadeu Barbosa de Oliveira (PSD), ausente do encontro. À secretária de Meio Ambiente, Alba Sousa Santos, cobrou resposta a um contato telefônico pendente — “a lei municipal ela existe, ela está vigente. E nós precisamos de uma resposta” —, e ao legislativo deixou a insatisfação: “são vocês que nos representam, são vocês que recebem o salário e somos nós quem pagamos”. A água, resumiu, sustenta a agricultura familiar de toda a região: “a água é vida. Nós sobrevivemos sem água? Jamais”.

A fala trouxe também o tema da saúde. Segundo Oliveira, a comunidade protocolou ofício na Secretaria Municipal de Saúde levantando doenças e comorbidades dos moradores — ela própria, diagnosticada em 2024, disse seguir aguardando atendimento — e criticou a ausência do Programa Saúde da Família (PSF) nas comunidades ribeirinhas: “nós moradores não temos visita domiciliar dos agentes de saúde”. Ao reagir à apresentação do secretário de saúde sobre o câncer, lançou a pergunta que conectou os dois temas: “o senhor sabia que essas dragas, ela[s] causa[m] o câncer também?”.

Antônio Sousa e Adriano Passos, manifestantes na reunião pública – Foto: reprodução

Sobre a água consumida pela comunidade, ela foi categórica: “nós não temos água tratada na zona rural, não, gente”. Quem pode, segundo ela, compra decantador ou sulfato de alumínio para decantar a água do rio antes de consumir. A cronologia da fiscalização ocupou o trecho mais tenso do discurso: acionada a polícia, os moradores teriam sido afrontados com a afirmação de que a empresa tinha licença para estar no local; cinco dias depois, em nova resposta, a versão se inverteria — a empresa “não tem licença, não tem outorga, não tem documento nenhum”. “Aí, enfim, a nossa vitória começou”, disse, contando que a draga recebeu autuação e ainda assim seguiu trabalhando até a polícia retirá-la do local.

Segundo ela, no dia 28 de setembro o dono da draga protocolou junto aos órgãos ambientais um documento informando que as máquinas estavam paradas porque ele não sabia que estavam em local indevido. “Como que ele não sabe? Cadê a fiscalização?”, questionou, dirigindo a pergunta ao município. A origem da lei que proíbe as dragas, ela remontou a 2020, quando uma draga chegou à porta da comunidade e os moradores manifestaram — “a partir dali foi criada uma lei proibindo a instalação de dragas no Rio Araçuaí, e essa lei é vigente. Ela precisa ser cumprida. Quando os órgãos lá em cima não cumprem, o poder municipal tem autonomia”.

A fala terminou com um recado dirigido à transmissão do encontro: “nós não precisamos ser intimidados, Reginaldo, nós não precisamos ser ameaçados. Se eles têm dinheiro para nos ameaçar, nós temos coragem que vale muito mais do que dinheiro”, defendeu. E fechou com a frase-síntese: “nós estamos aqui falando pelo rio, o rio está pedindo socorro e nós estamos aqui clamando por ele”. 

Direito de resposta

A reportagem enviou pedidos de informação e de direito de resposta, em outubro de 2026, ao gabinete do prefeito de Araçuaí e à SUPRAM e à URA Jequitinhonha; e à Correa Mattos Mineração e Desassoreamento Ltda. Nenhum deles respondeu às perguntas até o fechamento desta edição.

Editado por: Lucas Wilker

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