ANÁLISE

Vaga-lumes, WhatsApp e os milhões que voltaram à política: a física da virada de Lula

Quase 5 milhões de pessoas que tinham ficado de fora voltaram a escolher um candidato no segundo turno das eleições

Lula na Paulista
Lula foi recebido por centenas de milhares de pessoas na Avenida Pualista neste domingo, após vencer as eleições | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

Na véspera do segundo turno, as pesquisas davam a Lula, em média, cerca de 49% dos votos válidos, mas ele teve 51,8% nas urnas. Para nós da IPSE Global, essa diferença não chegou como surpresa nem como certeza, porque durante três semanas ela foi um dilema diário. As pesquisas mostravam uma disputa travada, ligeiramente favorável a Flávio Bolsonaro, enquanto as redes e os grupos de WhatsApp que acompanhávamos pelo IPSE Orikom, e que simulávamos no IPSE Tekoá, mostravam um movimento que os números ainda não registravam.

A pergunta que nos acompanhou era: em que medida a mobilização das bases e a comunicação política antecipam o que só aparece dias depois nas pesquisas e nas urnas? Foi aí que se abriu um campo novo de estudo para nós. Escolhemos fazer a conta em público e por etapas. Só com as pesquisas, a chance de Lula era de 27%, mas alguns agregadores falavam inclusive muito menos. Quando incluímos a mobilização que medíamos nas redes em nosso modelo preditivo, ia a 33%. Quando consideramos que os cerca de 5% que decidem no último dia seguiriam essa onda, chegava a 47%. Publicamos os três números, porque cada um dependia de uma aposta diferente sobre como e em quanto tempo a comunicação vira voto.

Procurávamos entender o que tornaria uma eventual virada possível e por que ela ora acelerava, ora parecia perder força nos dados. No principal canal de WhatsApp de mobilização pró-Lula, hoje com pouco menos de 11 milhões de seguidores, 44 missões foram enviadas na reta final e praticamente todas foram cumpridas, com a primeira publicação aparecendo cerca de um minuto depois da ordem. Nos canais de Flávio, das 10 missões, no máximo um quarto foi cumprido, com duas horas de atraso. A física chama isso de sincronização, aqui da comunicação política, que dias depois tende a se converter em mudança de opinião e de voto. O japonês Yoshiki Kuramoto mostrou que relógios ou vaga-lumes, cada um no seu ritmo, passam a pulsar juntos quando a ligação entre eles ultrapassa um certo limiar. O Exército do Lula fez algo parecido, pondo milhões de pessoas na mesma frequência para trabalhar por metas.

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Sincronizar, porém, não basta, porque o efeito de uma mensagem cai pela metade em uns quatro dias e some em cerca de uma semana, então era preciso reforçar para não perder a sintonia. Logo depois do primeiro turno, o campo de Lula falou da ameaça à democracia, e esse enquadramento chegou a 22% das interações, mas caiu para 6% na semana seguinte e não voltou. Foi um tema que engajou a base sem se sustentar até a urna.

A semana de 19 a 22 de outubro, logo depois do debate da Band, foi a da corrupção e da cobrança. A mansão e o sigilo pedidos sobre Flávio levaram o tema da corrupção a 32% das interações. O desprezo cresceu, a esperança caiu e foi nessa semana que as pesquisas pararam de mostrar o avanço de Lula, o que sugere um limite na persuasão desse tipo de mensagem. A militância seguiu cumprindo as missões, mas o eleitor comum ficou mais cansado do que animado.

O debate da Globo, em 23 de outubro, devolveu a energia. A esperança voltou a 43% das interações no campo de Lula, e o tema passou a ser a proteção, com o candidato no papel de quem cuida das pessoas. Isso aconteceu a dois dias da votação, dentro da janela em que a persuasão costuma durar segundo a literatura científica.

Nossos 84 grupos focais de alta frequência ajudaram a entender o que os números não mostravam. Observamos uma rejeição qualificada, com o medo de perder direitos de um lado e, do outro, o de que a vida não andasse. Ouvimos também pessoas que se veem como autoras do próprio sucesso, em lugar de dependentes do Estado, e que se aproximavam de Lula quando percebiam um Estado presente que não lhes tirava o mérito das próprias conquistas.

O resultado confirma a direção do que víamos. Estimamos que, dos cerca de 11 milhões de votos novos de Lula, perto de 4,9 milhões vieram de quem votou em outros candidatos, 3,5 milhões de quem anulou ou votou em branco, 2,6 milhões de quem não tinha ido votar e apenas cerca de 430 mil de eleitores de Flávio.

Esses 11 milhões, porém, são só parte da história. No primeiro turno, 39 milhões de eleitores não escolheram nenhum candidato, somando abstenções, brancos e nulos. No segundo, ainda foram 35 milhões, mais de um em cada cinco eleitores e quase oito vezes a diferença de 4,4 milhões de votos que deu a vitória a Lula. A ciência política alerta há décadas que a apatia e o desinteresse são um risco para a democracia. É nesse sentido que digo que a política venceu. Quase 5 milhões de pessoas que tinham ficado de fora voltaram a escolher um candidato, e tudo indica que voltaram porque alguém foi até elas.

A política existe quando encontra um veículo, seja uma conversa, um gesto ou uma mensagem que a leve até as pessoas. Desta vez, mais do que a televisão ou os grandes influenciadores, que falam de poucos para muitos, pesou a comunicação de muitos para muitos, que Manuel Castells chamou de autocomunicação de massa, feita por milhões de apoiadores na rua, na família, no trabalho e na igreja. Os experimentos de campo mostram há décadas que a conversa com alguém conhecido é o que mais leva uma pessoa a votar. As plataformas digitais funcionaram como centro de comando, dando a ordem e o tom ao mesmo tempo, mas a execução aconteceu em boa parte fora delas, com liberdade de iniciativa e muito trabalho de campo. As campanhas de Obama, em 2008, e de Bolsonaro, em 2018, já tinham mostrado a força das bases mobilizadas e do tão criticado “falar pra convertidos”.

Mesmo simulando a mobilização sincronizada em rede, ainda subestimamos Lula em cerca de dois pontos por prudência diante de uma inovação metodológica, o que nos ensina tanto quanto o acerto da direção. As pesquisas continuam sendo a base de qualquer previsão séria, mas, se a política acontece onde a comunicação acontece, os modelos preditivos precisam incorporá-la como processo, com seu ritmo, sua duração e os sentimentos que mobiliza. Os dados de cada urna estão em ipse.global/apuracao, e o convite fica aberto a quem quiser seguir essa pesquisa conosco.

*Leonardo Magalhães Firmino é doutor em Comunicação Social pela PUC-Rio e diretor executivo da IPSE Global.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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