O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para o quarto mandato em uma virada histórica sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Lula teve 51,76% dos votos, e seu adversário ficou com 48,21%.
O cientista político Mateus de Albuquerque, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), destaca a dimensão política da vitória como fundamental para frear o bolsonarismo, que no primeiro turno avançou no Congresso Nacional. Para ele, um dos pontos fundamentais para a virada foi o uso estratégico das redes sociais e, nesse sentido, Albuquerque destaca a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG), que criou o canal Exército de Lula. “Houve um maior disciplinamento da ação digital. O eleitor do Lula, o eleitor do Haddad, em 2018, enfim, o eleitor da Dilma sempre foi digitalmente engajado há muito tempo. A questão é que isso não era ordenado de forma estratégica, e a gente conseguiu agora um ordenamento estratégico”, aponta ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato.
Outro ponto destacado pelo analista foram as manifestações populares, que foram ganhando força no Brasil afora em reação à derrota do primeiro turno. “Um sentimento de negação ao bolsonarismo muito grande, que corrige o rumo da campanha do primeiro turno, que foi uma campanha morna, desestruturada, que não inspirava o sentimento de onda como inspirou em 2022”, pondera.
Neste domingo (25), após a vitória, Lula esteve na Avenida Paulista e agradeceu às mulheres, aos jovens e aos trabalhadores pela vitória. Mateus de Albuquerque destaca que o PT se forjou na luta popular, mas, nos últimos anos, acabou se afastando da base e, por essa razão, um dos desafios é retomar esse espaço.
“O PT não consegue até hoje ter uma interpretação correta sobre o junho de 2013, não consegue admitir o que tinha de progressivo e que poderia ter sido disputado. Esse é o papel que o Lula e o PT têm cumprido nos últimos anos em relação às ruas. Me parece que agora tem uma virada de tom ao perceber que, quando todo o sistema político, todo o sistema econômico abandonou o Lula e já estava calculando quais iam ser os ministros, já estava loteando cargos, já estava se preparando para o que seria um governo Flávio Bolsonaro, quem deu a vitória para o Lula foram as ruas”, pontua. “E a rede também é rua, no sentido de mobilização popular, mobilização das pessoas comuns. Muito simbólico”, adiciona.
Apesar de desafiador diante de um Congresso tão conservador, o cientista político avalia que Lula governará, em seu quarto mandato, negociando, já que o sistema político é o presidencialismo de coalizão. “O Lula poderá negociar com os partidos de centro direita para obter uma maioria. Então acho que agora vai ter que ter esse cálculo. Qual é o nosso foco? É negociar com os partidos de centro direita para ter uma maioria, amenizando o nosso programa e correndo risco de cometer estelionato eleitoral e se enfraquecendo frente às bases, como aconteceu com a Dilma em 2014, ou a gente vai se sustentar pela base para garantir esse programa? A sinalização que o Lula dá é que ele vai pela segunda via”, analisa.
Repercussão internacional
Líderes de países latino-americanos parabenizaram Lula pela vitória no segundo turno das eleições brasileiras. Entre eles estão os presidentes do Uruguai, Yamandú Orsi; do México, Claudia Sheinbaum; da Bolívia, Rodrigo Paz; do Panamá, José Raúl Mulino; e do Paraguai, Santiago Peña. As manifestações destacaram a democracia e a intenção de fortalecer as relações entre os países.
A vitória de Lula também ganhou destaque na imprensa internacional. Jornais como o britânico The Guardian, o espanhol El País e o estadunidense The New York Times ressaltaram a virada eleitoral que garantiu a reeleição do presidente, que havia ficado atrás de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Veículos internacionais também apontaram o resultado como uma derrota política da extrema direita e um revés para a influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina.
O professor Paulo Borba Casella, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo (USP), destaca como a derrota de Flávio piora a situação de Trump, que vive um momento político interno delicado. “Não só ele não conseguiu fazer valer a interferência no Brasil, como ele, no curtíssimo prazo, tem problemas sérios de alta desaprovação no seu próprio país”, aponta.
Segundo o professor, Trump é uma figura imprevisível e é difícil saber como funcionará a relação entre Trump e Lula, que, por sua vez, tem atuado pela via diplomática com os EUA. “Na relação com os Estados Unidos, o Brasil tem se comportado como o adulto e tem insistido em negociação, em apresentar números, em questionar conclusões apressadas do governo estadunidense, como atribuindo ao Brasil práticas comerciais desleais ou conivência com trabalho forçado em determinados produtos que foram, por isso, sobretaxados, receberam tarifas adicionais. Então, com certeza, o Brasil ter um governo eleito democraticamente, por maioria expressiva, é significativo para o futuro da relação com os EUA”, argumenta.
Casella também comenta a relação do Brasil com o Escudo das Américas, formado pelos países alinhados aos EUA na região, e que tem feito pressão para enquadrar o crime organizado como organização terrorista. “É uma coisa miliciana e contraproducente em matéria de luta contra o crime organizado. São coisas diferentes. Felizmente, nem o Brasil foi convidado, nem o Brasil manifesta interesse em participar. Acredito muito mais em troca de informações entre polícias e de cooperação na persecução de criminosos e cooperação judiciária entre países”, avalia.
Para ouvir e assistir
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