O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras produziu um efeito imediato entre muitos brasileiros residentes na Suíça. Nas conversas que se seguiram à divulgação dos números, nas reuniões comunitárias, nos grupos de mensagens e nas manifestações organizadas em diferentes cidades do país, duas preocupações apareciam repetidamente: a defesa da democracia brasileira e a preservação da soberania nacional.
Para uma parcela significativa dos brasileiros que a reportagem acompanhou nas últimas três semanas, o desempenho da extrema direita no primeiro turno foi recebido com preocupação e inquietação. O choque provocado pelo resultado acabou funcionando como um catalisador. O que até então eram manifestações pontuais transformou-se em um processo intenso de mobilização política e cidadã que atravessou fronteiras linguísticas, geográficas e sociais dentro da própria Suíça.
Em diferentes cidades, os eleitores que esta reportagem acompanhou, participaram de atos públicos, encontros e reuniões voltados à discussão dos rumos do Brasil. A partir daí, a mobilização ganhou as redes sociais. Grupos de mensagens passaram a funcionar como centros permanentes de articulação. Informações sobre documentação eleitoral, locais de votação, transporte e estratégias de participação circulavam diariamente. A maioria desses eleitores passaram a integrar o chamado “Exército do Lula” , e cumpriram rigorosamente as tarefas demandadas pela rede de mobilização criada no Brasil e reproduzida em comunidades brasileiras espalhadas pelo mundo.
Mas a mobilização não ficou restrita ao debate político e em um país onde apenas Genebra e Zurique concentram os centros eleitorais brasileiros, votar exige planejamento. Nas semanas que antecederam o segundo turno, multiplicaram-se iniciativas de caronas e hospedagem solidárias para eleitores vindos de regiões mais afastadas e redes informais de apoio destinadas a garantir que ninguém deixasse de votar por falta de recursos ou dificuldades logísticas.
O esforço coletivo tornou-se visível no domingo onde desde as primeiras horas da manhã, o Palexpo, em Genebra, recebeu brasileiros provenientes de diferentes cantões da Suíça francófona e até da chamada “França vizinha”. Muitos reorganizaram compromissos profissionais e familiares para votar. Outros transformaram a viagem até a urna em uma verdadeira operação coletiva.
Entre eles estava um grupo formado por seis adultos e três crianças que deixou o Valais em direção a Genebra. Integrante da caravana, Thalita Honorato, residente na Suíça há cerca de dez anos, explicou as razões que a levaram a percorrer mais de uma hora e meia de estrada para participar da votação.
“O meu motivo principal para ir votar foi fazer valer nossa arma democrática contra o fascismo: o voto. E impedir que os EUA façam do Brasil seu quintal. E, secundariamente, mas não menos importante, impedir que a família Bolsonaro saia impune de todos os seus crimes contra a nação.”
Ao longo do dia, histórias semelhantes multiplicaram-se nos corredores do centro de votação. Encontrei brasileiros que desembarcaram em Genebra no próprio dia da eleição e seguiram diretamente do aeroporto para o Palexpo. Alguns chegaram poucos minutos antes do encerramento das urnas. Um deles alcançou o local às 16h40, enquanto amigos aguardavam sua chegada ansiosamente. Outros chegaram por volta das 16 horas e correram para as cabines eleitorais.
Para muitos, a votação foi o ponto final de semanas de mobilização e planejamento e alguns deixaram o local emocionados. Outros permaneceram até o encerramento para acompanhar a apuração e nos corredores e na área de espera, as conversas revelavam a intensidade daquele momento.
Em um diálogo ouvido pela reportagem, uma pessoa resumiu suas preocupações em uma frase curta:
— Vim votar porque pode ser a última vez.
A resposta veio imediatamente:
— Ou NÃO. Podemos vencer.
A troca de poucas palavras sintetizava muito do que estava em jogo para aqueles eleitores. Mais do que uma disputa entre candidatos, discutia-se o futuro da democracia brasileira e o papel que cada cidadão poderia desempenhar mesmo a milhares de quilômetros de distância. E talvez tenha sido justamente aí que se revelou uma das características mais marcantes deste segundo turno.
O pleito deste ano transcorreu de forma tranquila. As diferenças políticas continuavam presentes e os símbolos partidários estavam visíveis, mas a convivência ocorreu sem incidentes relevantes. A operação eleitoral demonstrou um elevado grau de organização e o fluxo de eleitores manteve-se constante durante todo o dia e, apesar do aumento da participação observado entre os dois turnos, a votação ocorreu com rapidez, espera curta e eficiência operacional.
Ao final da apuração, os números confirmaram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na Suíça. Dos 26.982 brasileiros aptos a votar no país, distribuídos entre Genebra e Zurique, Lula recebeu 7.089 votos, equivalentes a 56,68% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 5.419 votos, ou 43,32%.
O resultado acompanhou uma tendência observada em grande parte da Europa. No continente, Lula recebeu 141.263 votos, correspondentes a 59,66% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 95.499 votos, ou 40,34%.
Mas os números, por si só, contam apenas parte da história, pois a principal herança dessas eleições entre os brasileiros residentes na Suíça talvez não esteja nos percentuais da apuração. Ela está na capacidade de mobilização demonstrada por uma comunidade espalhada por diferentes cantões, idiomas e realidades sociais que decidiu transformar preocupação em ação política concreta.
A milhares de quilômetros do Brasil, esses brasileiros mostraram que a democracia continua sendo capaz de mobilizar pessoas, construir pontes, aproximar comunidades e fazer com que uma viagem de horas, uma hospedagem solidária ou uma corrida do aeroporto até a urna pareçam pequenos esforços diante daquilo que acreditam estar defendendo.
*Mônica Cabañas é jornalista.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

