ANTIFEMINISMO

Da machosfera às esposas troféu: como a misoginia nas redes influencia o comportamentos das mulheres

De acordo com especialistas, resgatar a história do feminismo é essencial contra ameaças aos direitos das mulheres

​​No centro, figura uma mulher de cabelos escuros e vestido vermelho, cuja postura e membros estão conectados por fios vermelhos, simulando uma marionete. ​Acima dela, duas mãos saem de ecrãs de telemóveis para controlar os fios que a manipulam, representando o controlo exercido pelas redes sociais e pelo ambiente digital.
Uma comunidade de mulheres que se classificam como tradwifes, performam rotinas idealizadas de cuidados com o lar | Crédito: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

Esta reportagem integra uma série especial do Brasil de Fato que investiga como a extrema direita tem capturado mulheres por meio de discursos antifeministas. A série busca compreender os fatores que levam tantas mulheres a aderirem a ideias e projetos políticos que ameaçam seus próprios direitos já conquistados.

Machosfera, Redpills, Tradwife, Esposa troféu. Muito provavelmente, você já se deparou com algum desses conteúdos enquanto rolava a tela do seu celular. Esses fenômenos estão relacionados à expansão da misoginia digital, que circula em comunidades e fóruns como Discord, Reddit e Telegram e alcança plataformas de maior popularidade, como TikTok e Instagram.

De um lado, uma comunidade de influenciadores homens, chamados de redpills, classificando mulheres como “interesseiras” ou “manipuladoras”, criando conteúdos em que ensinam homens a exercer controle sobre suas parceiras e que tratam o feminismo como responsável pela suposta crise da masculinidade. Do outro, uma comunidade de mulheres que se classificam como tradwifes, performam rotinas idealizadas de cuidados com o lar, frequentemente associadas à defesa de que o lugar da mulher é no ambiente doméstico e de que ela deve priorizar o marido e os filhos em detrimento de uma carreira profissional.

Em diferentes formatos, esses discursos retratam as conquistas históricas das mulheres como ameaças à masculinidade e exaltam a submissão feminina como modelos ideais de organização da sociedade.

Crédito: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

A machosfera 

A machosfera é um ecossistema de comunidades digitais que disseminam discursos misóginos, antifeministas e de defesa da superioridade masculina. Organizada em fóruns e comunidades virtuais, essa rede reúne influenciadores, criadores de conteúdo e grupos que apresentam os avanços dos direitos das mulheres como uma ameaça aos homens. Sob o argumento de que a masculinidade estaria em crise, esses discursos recuperam valores patriarcais, naturalizam desigualdades de gênero e defendem a retomada de hierarquias nas relações afetivas e sociais. 

Nesse universo, um dos grupos mais conhecidos é o dos Redpills, expressão inspirada no filme “Matrix” (1999), utilizada por comunidades que afirmam ter despertado para uma suposta verdade sobre as relações entre homens e mulheres. Seus adeptos frequentemente descrevem as mulheres como manipuladoras, interessadas em dinheiro ou status e responsáveis por prejudicar os homens por meio do feminismo. Parte dos influenciadores associados a essa corrente vende a ideia de que os homens precisam recuperar o controle das relações, rejeitar a igualdade de gênero e adotar estratégias de poder e dominação.

O exemplo mais emblemático dessa cultura é o influenciador britânico Andrew Tate, conhecido por discursos que associam masculinidade a dinheiro, poder, domínio e sucesso sexual. Sua projeção internacional ajudou a popularizar ideias Redpill entre o público jovem, tornando-o uma referência para admiradores que reproduzem seus bordões, comportamentos e visões sobre as mulheres.

Em 2026, a Netflix lançou o documentário “Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera”, que investiga a rede de influenciadores associados a essa subcultura e sua influência sobre o público masculino. Os discursos que circulam nesse ecossistema ridicularizam o feminismo, desqualificam a autonomia das mulheres e reforçam estereótipos de gênero.

Disseminados em chats, fóruns e comunidades digitais, esses conteúdos também ganham alcance por meio de memes, vídeos que depreciam a imagem feminina, transmissões ao vivo e podcasts. Com a circulação de cortes virais e as recomendações algorítmicas das plataformas, essas mensagens chegam a novos públicos, especialmente jovens, e contribuem para normalizar a misoginia no ambiente digital.

Da captura da mentalidade masculina à feminina

Créditos: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

À medida que esses discursos se disseminaram entre os meninos e homens, também avançam conteúdos direcionados às meninas e mulheres, que recuperam ideais tradicionais de feminilidade e as incentivam a se preparar para ocupar o papel de esposas submissas, mães dedicadas e responsáveis pelo cuidado do lar.

Sob a promessa de conquistar um relacionamento estável e ser escolhida por um homem “provedor”, essas narrativas associam o valor feminino à aparência, à capacidade de agradar ao parceiro e à disposição de atender às suas expectativas. Assim, enquanto parte da machosfera ensina os homens a reivindicar autoridade nas relações, conteúdos voltados às mulheres apresentam a submissão como virtude e a autonomia feminina como um obstáculo à felicidade conjugal.

Essa conexão ganha expressão no fenômeno das Tradwife, abreviação de Traditional Wifes (esposas tradicionais), que se popularizou nas redes sociais por meio de vídeos que romantizam a vida doméstica, a maternidade e a dedicação integral ao marido. 

A pesquisadora Luiza Santos, doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) sugere que a popularidade de conteúdos que idealizam mulheres dedicadas exclusivamente ao lar pode ser compreendida a partir de uma lógica de sobrecarga enfrentada por muitas mulheres. Embora tenham conquistado maior espaço no mercado de trabalho e na vida pública, elas continuam assumindo, de maneira desproporcional, tarefas domésticas e responsabilidades de cuidado.

Na avaliação da pesquisadora, a falta de uma divisão mais igualitária dessas atividades contribui para a exaustão feminina e pode tornar atraentes narrativas que prometem uma vida mais simples, centrada no ambiente doméstico.

“Há uma visão idealizada de que seria possível retornar para um tipo de contexto onde as coisas eram mais simples, onde a mulher talvez não precisasse dar conta de tantas coisas”, afirma.

Santos pondera, porém, que a escolha individual de se dedicar ao lar não é o problema em si. A questão está no caráter reacionário de discursos que apresentam esse modelo como o lugar natural das mulheres e defendem seu afastamento da vida pública, do trabalho remunerado e da política.

“Do ponto de vista da organização estrutural da nossa sociedade, a emergência desse tipo de discurso tem a ver com tentar um retorno a um lugar da mulher na vida doméstica, na vida privada, e não na vida pública”, analisa.

A pesquisadora também chama atenção para a dimensão econômica dessa dinâmica. A dependência financeira pode limitar a autonomia feminina, inclusive a possibilidade de romper relacionamentos abusivos. Por isso, ela relaciona a valorização desse modelo familiar a outras pautas conservadoras que questionam a participação das mulheres na vida política e até mesmo o direito ao voto.

Para Santos, enfrentar esse cenário exige reconhecer o trabalho doméstico e de cuidado como uma responsabilidade coletiva, que precisa ser distribuída de forma mais igualitária entre homens e mulheres. Também demanda políticas públicas que permitam conciliar trabalho, maternidade e vida pessoal sem impor uma sobrecarga desproporcional às mulheres.

Embora cuidar da casa e escolher ser mãe sejam decisões legítimas, a crítica recai sobre a transformação desse modelo em ideal universal de feminilidade, acompanhado da desvalorização do feminismo, movimento que trouxe independência para as mulheres. 

Uma das precursoras desse modelo, Erika Kirk tornou-se uma figura de projeção internacional na defesa das mulheres conservadoras. Viúva do conservador Charlie Kirk e atual dirigente da organização Turning Point USA, ela passou a ocupar um espaço central na mobilização de mulheres jovens em torno de pautas conservadoras. Em discursos públicos, Erika critica o feminismo, defende a valorização da família e incentiva as mulheres a priorizarem a vida doméstica e a maternidade. 

Enquanto incentiva o retorno das mulheres ao espaço doméstico, sua própria trajetória evidencia uma contradição: Erika Kirk ocupa uma posição de liderança, chefia outros homens, constrói uma carreira pública, possui independência financeira e participa de eventos políticos e palestras em universidades. Assim, defende para outras mulheres um modelo de dependência que não corresponde à sua própria experiência de vida.

Isso revela uma das contradições centrais do movimento: muitas tradwifes utilizam plataformas digitais, monetização, marketing pessoal e audiência pública – recursos próprios da vida pública e do trabalho – para defender a retirada das mulheres da esfera pública. 

Segundo ela, os efeitos desse fenômeno são difíceis de mensurar justamente porque se consolidam por meio da repetição. A desinformação de gênero pode circular em veículos de comunicação tradicionais, nas redes sociais, por meio de influenciadores, produtores de conteúdo e usuários comuns. 

“Eu acho que o feminismo é uma palavra, um termo que passou por um processo de desinformação de gênero muito grande, porque houve constantemente um esforço prolongado ao longo de muitos anos de construir uma visão sobre o feminismo que é equivocada, não verdadeira e negativa”, afirma.

O patriarcado também é uma condição psicológica

Crédito: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

Em vídeo publicado nas redes sociais, a historiadora e criadora de conteúdo Débora Aladim aborda como o patriarcado também se manifesta no campo psicológico, moldando comportamentos e percepções femininas ao longo das gerações.

Segundo ela, durante milênios, em uma sociedade marcada pela violência masculina, as mulheres aprenderam que precisavam encontrar um homem que as protegesse de outros homens. Nesse contexto, a obediência, a docilidade e a submissão foram associadas à própria sobrevivência. Essa lógica cria uma dinâmica em que se aliar a homens autoritários e poderosos pode parecer uma forma de garantir proteção, status e segurança.

Para explicar esse mecanismo, Aladim utiliza a metáfora das ovelhas e dos lobos: enquanto um lobo representa uma ameaça ao rebanho, aproximar-se dele e demonstrar aliança pode significar obter sua proteção. A analogia ilustra como algumas mulheres podem buscar segurança dentro da própria estrutura que as subordina, reproduzindo normas patriarcais para conquistar aceitação e reconhecimento. Dessa forma, o patriarcado se perpetua não apenas pela imposição masculina, mas também pela internalização de valores que condicionam a valorização social das mulheres à submissão e à obediência.

De acordo com a historiadora, a associação entre feminilidade, docilidade e segurança não nasceu com a internet. Historicamente, sociedades patriarcais construíram a ideia de que as mulheres deveriam ser obedientes, discretas e submissas para estarem “protegidas” em um mundo supostamente perigoso, dominado por homens. A promessa de segurança funcionou como mecanismo de controle: em troca de proteção material, afetiva ou social, esperava-se da mulher conformidade com regras de comportamento, sexualidade e aparência.

Para sustentar essa ordem, criou-se também uma divisão moral entre mulheres. De um lado, a mulher “respeitável”, “santa”, recatada e destinada ao casamento; de outro, a mulher “rebelde”, sexualizada, independente ou moralmente “reprovável”. Essa divisão não apenas hierarquiza as mulheres, mas transforma algumas delas em agentes de vigilância sobre as outras. Assim, o patriarcado é mantido não somente por imposições masculinas, mas também por mecanismos internalizados de autocensura e julgamento entre mulheres.

Por que aderem?

Vídeos sobre “como ser escolhida”, “como parecer mais feminina” ou “como conquistar um homem de alto valor” ensinam a mulher a se construir a partir de uma audiência imaginada: o homem que observa, seleciona e valida. A pergunta deixa de ser “quem eu sou?” ou “o que desejo?” e passa a ser “como devo aparecer para ser escolhida, validada?”.

Essa lógica ajuda a compreender por que tantas mulheres têm aderido ao discurso antifeminista. A pesquisadora Maria Clara Jobst De Aquino, doutora e mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que é preciso olhar para a trajetória desses discursos desde os primórdios da internet.

À frente do Laboratório de Investigação do Ciberacontecimento (LIC) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Aquino tem se dedicado aos estudos sobre ativismo em rede e violência de gênero. Segundo ela, a adesão de mulheres a discursos antifeministas está relacionada a afetos, medos, vínculos e experiências sociais concretas. “Muitas mulheres cresceram em famílias conservadoras, em ambientes nos quais a figura masculina concentrava autoridade, ou em relações nas quais a aprovação do parceiro era condição de segurança emocional e material.” 

Ela explica que o movimento não é recente e já encontrava espaço na internet, ainda que com menor projeção, entre 2005 e 2010, período marcado pelo desenvolvimento da Web 2.0. “As páginas pessoais, os blogs e os sites de publicação de fotos, como Fotolog e Flickr, foram precursores desse movimento de uso e apropriação de ferramentas de comunicação digital”, explica. 

De acordo com ela, a mulher que busca ser “escolhida” entrega a um terceiro o poder de definir seu valor. A busca por “segurança” por meio da submissão pode torná-la mais vulnerável, pois sua autonomia econômica, sexual e afetiva passa a depender da boa vontade do parceiro. Já a mulher que se apresenta como “diferente das outras”, mais pura, mais recatada, mais digna de respeito, reforça a hierarquia que julga e pune aquelas que não se encaixam nesse modelo.

Caminhos para enfrentar a onda antifeminista

Crédito: Ilustração produzida com o auxílio de Inteligência Artificial

Para a pesquisadora, o antifeminismo deve ser entendido também como um projeto político da extrema direita e ultraconservadores e não apenas como uma posição individual ou uma questão de preferência estética. Conforme Aquino, esse discurso busca naturalizar a submissão feminina, reforçar hierarquias de gênero e limitar direitos conquistados ao longo de décadas de luta. 

Sob o argumento de que essas propostas também são defendidas por mulheres, setores conservadores buscam validar discursos antifeministas, ampliar sua base de apoio e reunir votos para aprovar projetos que podem aprofundar desigualdades históricas. Assim, a presença feminina na política corre o risco de ser reduzida a um instrumento de legitimação de interesses que não necessariamente representam as necessidades e os direitos das mulheres.

O perigo está justamente em como mulheres que assumem posições antifeministas podem ser instrumentalizadas por projetos políticos liderados majoritariamente por homens. Ao ocupar espaços de poder e se apresentar como representantes femininas, parlamentares como Eduarda Campopiano (PL), por exemplo, que se denomina como “a maior inimiga das feministas”, podem ajudar a construir uma falsa imagem de representatividade, usada para legitimar pautas que restringem direitos das próprias mulheres.

Como ressalta Aquino, as conquistas das mulheres são resultado de décadas de mobilização coletiva, e o avanço dos discursos antifeministas nas redes representa uma ameaça a direitos historicamente conquistados.

“Ainda que haja uma onda de conservadorismo se alastrando entre jovens e adultas, permanece aberta uma discussão fundamental sobre o papel das mulheres no contexto político atual”, afirma a pesquisadora. “Conheço muitas mulheres que se diziam antifeministas e que, depois de lerem, estudarem e até se desvencilharem de relações problemáticas e abusivas, compreenderam o papel do feminismo em suas vidas”, relata.

Para Aquino, ampliar o conhecimento sobre o feminismo é fundamental para compreender como o movimento foi construído, quais são suas vertentes e quais pautas defende. “Resgatar essa trajetória também permite compreender que a presença de mulheres na política não garante, por si só, o compromisso com a defesa dos direitos femininos. Diante do avanço dos discursos antifeministas, o desafio é romper com a desinformação, evidenciar os interesses por trás dessas narrativas e reafirmar a importância da luta feminista na defesa e na ampliação dos direitos das mulheres.”

Editado por: Katia Marko

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