FEMINICÍDIO

Mulher que ajudou famílias durante a enchente no RS deixa legado de acolhimento e solidariedade

No último sábado (24), Adriele foi assassinada pelo ex-companheiro, no bairro Passo das Pedras, em Porto Alegre

O Rio Grande do Sul registrou mais de 60 casos de feminicídio em 2026
O Rio Grande do Sul registrou mais de 60 casos de feminicídio em 2026 | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Aos 30 anos, Adriele Amaral da Rosa havia transformado a solidariedade em ação concreta. Durante a enchente que atingiu Porto Alegre em 2024, ela dedicou 45 dias ao trabalho voluntário, ajudando a organizar doações e a cadastrar pessoas que buscavam acolhimento. Sua atuação continuou nos meses seguintes, na articulação de terreiros para ampliar a rede de cozinhas solidárias. No último sábado (24), Adriele foi assassinada pelo ex-companheiro, no bairro Passo das Pedras, na zona norte da Capital. O caso é investigado pela Polícia Civil como feminicídio.

A história de Adriele permanece na memória de quem acompanhou seu trabalho durante e depois da emergência climática. Ialorixá e coordenadora executiva do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma em Porto Alegre), Iyá Itanajara de Oxum conheceu a jovem em 2024, quando um terreiro da zona norte, atingido pela inundação, buscou ajuda.

Adriele chegou por meio dessa comunidade religiosa, inicialmente em busca de doações de alimentos, roupas, calçados e produtos de higiene e limpeza. Diante da necessidade de tantas famílias, porém, decidiu se voluntariar na central de abastecimento. Durante 45 dias, esteve à frente da organização e da distribuição dos donativos, além do cadastramento das pessoas que procuravam acolhimento. “Ela era amistosa, carinhosa, simpática e determinada”, recorda Itanajara. A jovem também era mãe de um bebê, que levava consigo durante o trabalho voluntário porque não tinha com quem deixá-lo.

A disposição para ajudar não terminou com o período mais crítico da enchente. Nos seis meses seguintes, enquanto a rede continuava recebendo alimentos, Adriele participou da articulação dos terreiros para o cadastramento no programa de Cozinhas Solidárias. Segundo Itanajara, mais de 60 terreiros foram cadastrados como Cozinhas Solidárias Ancestrais, ampliando a capacidade de atendimento das comunidades.

“Teve muita interação com pessoas da tradição que buscavam informações. Fez muita diferença na vida de muitas pessoas”, relata a Ialorixá.

Uma história de acolhimento interrompida

Segundo a Polícia Civil, o principal suspeito do feminicídio é o ex-companheiro de Adriele, Luís Gustavo Cardoso Escobar, de 25 anos, que fugiu após o ataque com faca. De acordo com informações da Brigada Militar, Adriele estava na rua Leopoldino José Santos quando ele chegou ao local em uma motocicleta e a atacou.

O crime aconteceu por volta das 23h. A jovem foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhada ao Hospital Cristo Redentor, onde permaneceu internada desde sexta-feira (23). Ela morreu no sábado (24), em decorrência dos ferimentos. Após o ataque, o homem fugiu do local.

De acordo com a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam), responsável pela coordenação das Delegacias da Mulher no Rio Grande do Sul, Adriele não tinha registros anteriores de ocorrência policial nem medida protetiva em vigor. Até o fechamento desta matéria, não havia novidades sobre o caso.

Iyá Itanajara conta que não conhecia detalhes sobre os relacionamentos da jovem. “Ela era reservada e discreta”, afirma. A lembrança que guarda é a de uma mulher que, mesmo diante das dificuldades, se dedicava a amparar outras pessoas.

Ao recordar Adriele, a Ialorixá destaca a relação da jovem com Oxum, orixá associada, entre outros aspectos, às águas doces, ao amor e ao cuidado. Para ela, a doçura e a capacidade de acolhimento de Adriele conviviam com a determinação demonstrada durante uma das maiores crises ambientais vividas pelo estado. “Adriele, uma mulher de Oxum, que soube ser doce, carinhosa, acolhedora e que também foi determinante em uma das maiores crises ambientais deste estado”, resume.

Iyá Itanajara lembra que a iniciativa da jovem ajudou famílias que enfrentavam a falta de alimentos, roupas, calçados e produtos de higiene e limpeza. Mais do que entregar donativos, ela oferecia um sorriso e um abraço a quem havia perdido tudo, inclusive pessoas queridas.

Comunidade e acolhimento no enfrentamento à violência

O feminicídio de Adriele também leva Iyá Itanajara a chamar atenção para a importância de ampliar os espaços de diálogo e acolhimento às mulheres que enfrentam situações de violência. Para a Ialorixá, comunidades religiosas, redes de solidariedade e relações de confiança podem contribuir para que mulheres encontrem escuta e orientação.

Ela defende mais debates e rodas de conversa sobre violência doméstica, abusos e machismo, além da participação de profissionais capacitados para orientar mulheres que precisam de ajuda. “Precisamos ‘acordar’ para tudo que ocorre em nosso entorno”, alerta.

Iyá Itanajara ressalta que situações de constrangimento e violência verbal em espaços públicos também merecem atenção e podem ser sinais de que alguém precisa de apoio.

A Ialorixá pede mais empatia e sororidade, especialmente com mulheres que não conseguem pedir socorro. Para ela, é necessário construir redes em que a escuta não dependa de a vítima conseguir falar abertamente sobre o que está vivendo e nas quais o acolhimento possa abrir caminhos para buscar proteção. “É o momento de nos levantarmos da mesa e até virarmos essa mesa, quando o amor, o carinho e o respeito já não estão mais sendo servidos.”

Violência nem sempre começa com agressões físicas

A psicóloga e coordenadora do Lupa Feminista, Thaís Pereira Siqueira, explica que a culpabilização social das mulheres pelas violências que sofrem contribui para que muitas não procurem ajuda. “As mulheres são culpabilizadas socialmente pelas violências que sofrem, então sentimentos como culpa, vergonha, naturalização da violência, medo são sentimentos comuns que fazem com que as mulheres não denunciem”, expõe.

Para ela, uma relação abusiva nem sempre começa com agressões físicas. O controle, a manipulação emocional e a desvalorização constante também podem comprometer a autonomia e a liberdade das mulheres. “Uma relação pode estar se tornando abusiva quando a mulher começa a perder sua autonomia, tem suas relações com família e amigos sendo cada vez mais restritas, quando vai perdendo a confiança em si e vai perdendo sua liberdade.”

A psicóloga destaca que alguns sinais podem aparecer nas mudanças de comportamento da mulher, que passa a evitar conflitos e a abrir mão de aspectos da própria vida para manter a relação. “Vai modificando sua maneira de agir para evitar desagradar o companheiro, mede suas palavras antes de se expressar, abre mão de aspectos de sua vida para manter a relação em paz”, exemplifica.

Redes de apoio podem ajudar a romper o ciclo da violência

Siqueira também enfatiza o papel das redes comunitárias, dos movimentos feministas e dos espaços religiosos no acolhimento de mulheres em situação de violência. De acordo com ela, esses ambientes podem ser os primeiros lugares em que uma mulher consegue falar sobre o que está vivendo, antes de procurar uma delegacia, um serviço de saúde ou equipamentos da assistência social.

Para fortalecer essas redes, a psicóloga considera fundamental investir na formação de pessoas e grupos que atuam nos territórios, para que saibam identificar sinais de violência, orientar as mulheres e encaminhá-las aos serviços de proteção. “A formação com esses grupos é fundamental para fortalecer essas redes. Informação é poder, é preciso saber como agir para de fato auxiliar”, defende.

O acolhimento, acrescenta, também exige atenção às necessidades práticas das mulheres, que podem precisar de ajuda para se deslocar, se alimentar ou garantir os cuidados com os filhos. “Pensar em estratégias de segurança com as mulheres, apoiar materialmente aquelas que necessitam transporte, alimentação, alguém que possa cuidar das crianças”, destaca.

Siqueira alerta ainda para a importância de preservar a privacidade das vítimas e garantir que o apoio não se limite ao primeiro contato. “Não publicizar informações, respeitar o sigilo das situações, estabelecer um vínculo continuado no apoio.”

A psicóloga destaca que os movimentos feministas são fundamentais tanto na formação das redes de acolhimento quanto na atuação política. Segundo ela, esse trabalho precisa partir das necessidades concretas das mulheres e das realidades de cada território.

RS registra 64 feminicídios e 191 tentativas entre janeiro e outubro

O Rio Grande do Sul registrou 64 feminicídios consumados entre janeiro e outubro de 2026, segundo levantamento da Polícia Civil atualizado em 27 de outubro. No mesmo período de 2025, foram contabilizados 70 casos, o que representa uma redução de 8,57%. As tentativas de feminicídio também diminuíram: passaram de 217 para 191, uma queda de 11,98%. Já o levantamento da Lupa Feminista registra 72 casos de femicidios.

Os dados são da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, com análise da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam) e do Departamento de Polícia de Grupos Vulneráveis (DPGV). As informações sobre tentativas de feminicídio têm como fonte o Observatório de Violência Doméstica da Secretaria da Segurança Pública do RS.

Porto Alegre registrou 13 feminicídios entre janeiro e outubro, o maior número entre os municípios gaúchos. Sapucaia aparece em seguida, com quatro casos. Caxias do Sul, Lajeado, Nova Prata, Parobé, Rio Grande e Viamão registraram dois casos cada. Outros 35 municípios tiveram um caso cada.

Apesar da redução nos indicadores em relação ao ano anterior, os dados evidenciam a dimensão da violência contra as mulheres no estado. Entre as vítimas de feminicídio consumado, 82,8% não tinham medida protetiva de urgência vigente na data do crime. Em 17,2% dos casos, havia uma medida em vigor.

O levantamento também aponta que 59,4% das vítimas não tinham registro de ocorrência policial anterior ao fato. Em 37,5% dos casos, havia registro, enquanto em 3,1% a informação não foi identificada.

Companheiros e ex-companheiros concentram os casos

A maior parte dos feminicídios foi cometida por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Os atuais companheiros foram responsáveis por 30 casos, equivalentes a 46,9% do total. Já os ex-companheiros aparecem em 21 ocorrências, ou 32,8%.

O documento também registra casos envolvendo relacionamentos eventuais, ex-namorados, filhos, netos, padrastos e outros vínculos familiares. Em três ocorrências, o autor tinha um relacionamento eventual com a vítima.

Em relação aos antecedentes policiais dos autores, 47,7% tinham registros anteriores, enquanto 23,1% não possuíam antecedentes. Outros 26,2% tinham antecedentes relacionados à violência doméstica. Em 3,1% dos casos, a informação não foi identificada. Quanto à situação dos autores, 75,4% estavam presos, 18,5% morreram e 3,1% estavam foragidos.

As residências foram o principal local de ocorrência dos feminicídios no estado. Segundo os dados da Polícia Civil, 73,4% dos crimes ocorreram dentro de casa. Outros 25% foram registrados em vias públicas, enquanto 1,6% não tinham o local informado.

A arma branca foi o instrumento mais frequente, correspondendo a 46,9% dos casos. As armas de fogo aparecem em 25% das ocorrências. Também foram registrados casos de asfixia (9,4%), agressão (4,7%) e queimadura (1,6%). Em 6,3% dos registros, o instrumento utilizado não foi informado.

O levantamento aponta ainda 102 órfãos em decorrência dos feminicídios registrados entre janeiro e outubro de 2026. Das vítimas, 46 tinham filhos, enquanto 18 não tinham.

Entre os órfãos, 13 tinham até quatro anos; 22 estavam na faixa de quatro a 12 anos; e 13 tinham entre 12 e 18 anos. Outros 11 tinham mais de 18 anos. Em 43 casos, a idade não foi informada.

Janeiro teve o maior número de feminicídios

Na distribuição mensal, janeiro concentrou o maior número de feminicídios consumados, com 11 casos. Fevereiro, julho e outubro registraram oito ocorrências cada. Em março, foram seis; em abril, sete; em maio, cinco; em junho, quatro; em agosto, quatro; e em setembro, três.

A segunda-feira e o sábado foram os dias da semana com mais registros. Foram 14 casos às segundas-feiras e 15 aos sábados. Aos domingos, ocorreram 11 feminicídios; às terças-feiras, oito; às quintas-feiras, seis; e às quartas e sextas-feiras, cinco em cada dia.

Editado por: Katia Marko

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