A pauta da moda voltou a ser a necessidade de um ajuste fiscal. Pela esquerda e pela direita. Fora o fato de nenhum país do mundo haver quebrado em moeda própria, politicamente é precificar para o mercado financeiro uma vitória que foi justamente contra o mercado financeiro.
Sou e serei um inimigo contumaz de qualquer iniciativa do governo neste sentido. Mais do que isso: vou trabalhar para colocar em xeque o arcabouço fiscal e outros entulhos neoliberais que travam nosso desenvolvimento.
A agenda imediata é clara: retirar investimentos em infraestruturas do escopo do arcabouço e mexer no centro da meta de inflação. Aprendamos com o recado das ruas (luta por futuro) e com a história (a ajuste de 2015 derrubou Dilma Rousseff).
A vitória de Lula é épica e tem enorme alcance na vida do país e no mundo. Essa vitória pertence a cada brasileiro, a cada estudante, cada jovem, cada idoso, cada trabalhador, cada mulher e cada homem que fez dessa batalha, a maior batalha das suas vidas. Foi isso que fez a diferença nesses 20 dias de mobilização épica do povo brasileiro. Às ruas e as redes foram inundadas por uma onda popular gigantesca.
Vencemos um candidato escolhido a dedo pelo imperialismo que há anos vem construindo uma dissidência interna no país, a transformando em movimento de massa pró-EUA. Vencemos mais um novo 8 de janeiro, agora liderados por prefeitos de capitais. Notadamente São Paulo e Salvador tumultuando o transporte público de forma provocativa e, certamente, em posse de informações privilegiadas. Vencemos a leniência ativa do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Vencemos a clara representação do submundo da sociedade: o crime organizado, o tráfico de drogas, de armas e madeira e de mulheres; a utilização do sistema financeiro como instrumento funcional à circulação de dinheiro sujo e a transformação da fé legítima em forma de acolhimento da base da pirâmide em células sob o domínio de picaretas de todo tipo.
A luta política no país alcança novo patamar. No plano internacional, Donald Trump sofre uma derrota estratégica. Passaremos por tempos de intensa luta, pois o inimigo não reconhecerá a derrota. A sombra do golpe e da desestabilização estará sempre à espreita. Nesse momento, onde a contradição principal envolvendo os destinos do Brasil x interesses do imperialismo se agudizam, esquerda e centro terão como tarefa imediata deixar de lado suas diferenças e construir uma aliança patriótica em defesa do Brasil e das conquistas sociais. Derrotamos a tentativa de implantação de uma ditadura da mais-valia absoluta no Brasil.
Nossa resposta será a disputa por um projeto nacional de desenvolvimento que mantenha e transforme em prática o que se desenhou nas ruas e nas redes nesses últimos 20 dias, nas manifestações diárias que mobilizou milhões de jovens, trabalhadores e trabalhadoras, brasileiras e brasileiros de todos os setores em defesa da eleição de Lula como expressão de um projeto de Brasil soberano e inclusivo da maioria do seu povo.
Um governo de mobilização popular permanente, com inteligência e amplitude política suficiente para manter governabilidade institucional deverá buscar enfrentar os temas de nosso tempo, notadamente a nossa inadiável tarefa de reindustrialização do país e o desmonte das amarras neoliberais que adiam a realização do sonho brasileiro. O Brasil precisa crescer e estar à altura da sua grandeza e das necessidades do nosso povo.
Às esquerdas deverão transformar o conceito que se manifesta no movimento real. Devemos nos reinventar para um período novo de exigências em torno de uma hegemonia cultural de orientação nacionalista, desenvolvimentista, patriótica e antineoliberal.
Caberá ao meu partido, o Partido Comunista do Brasil, se colocar como força capaz de reaglutinar esse campo político que a história demanda conformar. Um nacionalismo revolucionário 4.0 que permita a construção de um programa que garanta o futuro da nação e crie as condições para enterrar o abismo que a extrema-direita tenta impor ao país.
Nosso mandato em Brasília estará na vanguarda deste movimento em torno da legitimação da quarta vitória do povo e a construção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. Dedicarei todas as minhas forças, ao lado do meu partido, para assegurar as bases para um novo salto civilizatório ao nosso país.
*Elias Jabbour é deputado federal eleito (PCdoB-RJ).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

