Pesquisas de boca de urna das principais emissoras de Israel apontam um impasse nas eleições, sem maioria clara para nenhum dos blocos liderados pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e por seu principal adversário, Gadi Eisenkot.
As projeções dos Canais 11, 12 e 13 dão uma ligeira vantagem ao bloco de Eisenkot, com 52 cadeiras, contra 50 dos partidos que apoiam Netanyahu. As estimativas diferem, porém, na distribuição das vagas entre as legendas.
O Likud, partido de Netanyahu, aparece com 25 cadeiras nas projeções dos Canais 11 e 13 e com 24 na do Canal 12. Já o Yashar, de Eisenkot, tem 21 cadeiras na estimativa do Canal 11, 22 na do Canal 12 e 23 na do Canal 13.
Apenas as projeções dos Canais 14 e 24 apontam vantagem para o bloco de Netanyahu. Segundo o Canal 14, a coalizão do premiê conquistaria 60 cadeiras, contra 43 do bloco de Eisenkot. Já a estimativa do Canal 24 atribui 55 assentos aos aliados de Netanyahu e 49 à oposição.
Apesar das diferenças entre as projeções, nenhuma indica que um dos blocos alcance a maioria necessária para formar governo. Das 120 cadeiras do Knesset, o Parlamento israelense, são necessários ao menos 61 assentos para garantir a maioria parlamentar.
A Lista Conjunta, bloco da esquerda israelense, deve conquistar dez cadeiras, segundo as projeções. Já o Ra’am (Lista Árabe Unida) aparece com sete assentos em todas as estimativas.
Votação não foi prorrogada
Mais cedo, 0 Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e outras três legendas de sua base de apoio pediram nesta terça-feira (27) que o horário de votação em Israel fosse prolongado por mais uma hora. Os partidos alegaram a formação de filas e a concentração de eleitores nos locais de votação. No entanto, a Comissão Eleitoral Central rejeitou o pedido, afirmando que não havia necessidade de estender o prazo.
Além do Likud, defenderam a prorrogação o Shas, o Otzma Yehudit, liderado pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o People of Israel, de Ofer Winter. Já o Yashar, partido do opositor Gadi Eisenkot, posicionou-se contra a medida e afirmou que não houve nenhuma ocorrência excepcional que justificasse a mudança. A sigla também alertou para a possibilidade de a iniciativa ser usada futuramente para contestar a legitimidade da eleição.
Em nota, a Comissão Eleitoral Central declarou que o comparecimento expressivo de diferentes setores da sociedade demonstrava forte engajamento público no processo democrático e que não havia identificado necessidade de ampliar o horário de votação.
A mobilização dos eleitores árabes e a insatisfação com a condução da guerra em Gaza estão entre os fatores que marcam as eleições parlamentares israelenses. A votação ocorre em meio à pressão sobre Netanyahu pelas falhas de segurança que antecederam os ataques de 7 de outubro de 2023 e à disputa entre o bloco governista e uma oposição formada por partidos de diferentes orientações políticas.
O comparecimento às urnas aumentou ao longo do dia, com longas filas nos locais de votação. Segundo o Comitê Eleitoral Central, 44,9% dos eleitores aptos haviam votado nas primeiras sete horas do pleito. O órgão afirmou que o índice havia superado os recordes anteriores. Mais tarde, de acordo com o Times of Israel, a participação chegou a 55,7% até as 16h, ante 47,5% no mesmo horário em 2022. O Jerusalem Post informou que o percentual alcançou 66,7% até as 18h.
Em meio à forte polarização, Netanyahu também denunciou supostas tentativas de fraude eleitoral. O primeiro-ministro, porém, não apresentou provas para sustentar as alegações.
O resultado pode influenciar a distribuição das cadeiras no Parlamento e as negociações para a formação do próximo governo. Como o sistema eleitoral é proporcional e diversas legendas disputam vagas, a composição de uma maioria depende de acordos entre partidos. Nesse cenário, o desempenho das siglas menores e a participação de diferentes segmentos do eleitorado podem afetar as articulações após a votação.
Participação árabe entra no centro da disputa
Os cidadãos palestinos de Israel representam cerca de 20% da população do país e constituem um segmento importante da disputa eleitoral. Historicamente, o comparecimento desse eleitorado tem sido inferior ao de outros grupos. Para esta votação, porém, havia expectativa de uma participação de 65% a 70%, segundo informações publicadas pelo jornal estadunidense The New York Times. Caso se confirme, uma mobilização maior poderá ampliar a representação dos partidos árabes e influenciar as negociações para a formação de uma coalizão.
A possibilidade de aumento da participação provocou reações entre integrantes da direita. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, pediu que seus apoiadores fossem votar e afirmou que o comparecimento nas comunidades árabes era “sem precedentes”. Em uma publicação na rede social X, ele declarou: “Não se desesperem! Ainda é possível vencer”, ao alertar para a possibilidade de um “governo de esquerda perigoso” chegar ao poder.
Netanyahu também convocou os eleitores de direita a comparecer às urnas e associou a mobilização de cidadãos árabes e de setores da esquerda a uma ameaça para seu bloco político. O primeiro-ministro afirmou que seus adversários estariam tentando “roubar a eleição”, sem apresentar provas de uma fraude generalizada. O comitê eleitoral israelense informou que não havia evidências de manipulação sistemática das cédulas, embora denúncias pontuais estivessem sendo apuradas, segundo o Times of Israel.
As declarações alimentaram críticas de políticos árabes, que acusaram representantes da direita de estimular a hostilidade contra cidadãos palestinos de Israel e de colocar em dúvida a legitimidade de seu direito ao voto. O debate ocorre em meio a preocupações com a violência criminal, a discriminação no acesso à moradia e as demolições de residências em comunidades árabes.
Também foram relatados problemas durante a votação. A organização jurídica Adalah informou ter recebido denúncias de filas prolongadas e lentidão no atendimento em localidades árabes do norte e do sul do país. O Times of Israel também relatou reclamações sobre procedimentos de identificação que estariam atrasando a votação em comunidades beduínas do Negev. As denúncias motivaram pedidos de apuração, mas não comprovam, isoladamente, uma política coordenada para impedir o voto.
A disputa em torno da participação árabe tem, assim, duas dimensões: o possível impacto sobre a distribuição das cadeiras parlamentares e as condições em que esses cidadãos conseguem exercer seu direito de voto. A definição da próxima coalizão dependerá, no entanto, da votação nacional e dos acordos firmados entre os partidos após a apuração.
Guerra em Gaza e cobrança por responsabilização
Além da participação eleitoral, a condução da guerra em Gaza e a resposta aos ataques de 7 de outubro permanecem entre os temas centrais da campanha. A oposição critica o governo pela falta de uma investigação estatal independente sobre as falhas de segurança e questiona os resultados da ofensiva militar, iniciada após os ataques liderados pelo Hamas.
Gadi Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas israelenses e líder do partido centrista Yashar, criticou a estratégia adotada em Gaza. Segundo a Reuters, ele argumenta que o Hamas continua exercendo poder no território e promete desmantelar a estrutura militar e governamental do grupo em até 18 meses.
A exigência de responsabilização também aparece entre candidatos que perderam familiares nos ataques. Shira Shapiro, do Yashar, entrou na disputa após a morte de seu filho, o sargento Aner Shapiro, durante o ataque ao festival de música Nova. Já Rafael Ben Shitrit, candidato pelo partido de oposição Yisrael Beitenu, deixou o Likud depois que seu filho, o sargento Elroy Ben Shitrit, morreu em 7 de outubro. Ele defende uma investigação independente sobre as falhas que permitiram os ataques.
Os dois casos ilustram como a experiência das famílias afetadas pela violência se traduz em diferentes posições políticas. Enquanto candidatos e partidos divergem sobre a condução da guerra e a possibilidade de acordos com o Hamas, a cobrança por explicações sobre os acontecimentos de 7 de outubro atravessa diferentes setores da oposição.
A eleição não determina diretamente quem ocupará o cargo de primeiro-ministro: os eleitores escolhem listas partidárias para as 120 cadeiras do Knesset. Para conquistar representação, cada partido precisa obter ao menos 3,25% dos votos válidos. Depois da apuração, as legendas negociam para formar uma coalizão capaz de reunir a maioria parlamentar, de pelo menos 61 cadeiras.
Por isso, além do desempenho do Likud e dos partidos de oposição, a votação das legendas menores e o peso dos representantes árabes podem ser relevantes para as negociações. A composição final do Parlamento definirá quais forças terão condições de sustentar o próximo governo e quais compromissos políticos precisarão assumir para formar uma maioria.

