Fascismo

Professor de direito cubano vê desespero dos EUA em ameaças contra Cuba e convocação da CIA

Washington intensificou pressão sobre Cuba com retórica militar e chegou a convocar cubanos a colaborarem com a CIA

Dois homens passam de bicicleta por um outdoor que retrata o falecido líder cubano Fidel Castro, o ex-presidente Raúl Castro e o presidente Miguel Díaz-Canel, em Havana, em 16 de fevereiro de 2026.
Dois homens passam de bicicleta por um outdoor que retrata o falecido líder cubano Fidel Castro, o ex-presidente Raúl Castro e o presidente Miguel Díaz-Canel, em Havana, em 16 de fevereiro de 2026. | Crédito: (Foto de YAMIL LAGE / AFP)

À medida que se aproximam as estratégicas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para 3 de novembro, o presidente Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, intensificaram as ameaças contra Cuba.

Com seu habitual estilo histriônico de valentão, na última sexta-feira (23), Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos “cuidariam de Cuba” assim que a “situação com o Irã” fosse resolvida, em uma declaração que sugere uma possível invasão militar à ilha. Quase ao mesmo tempo, Rubio publicou uma mensagem insólita na qual convocou publicamente os cubanos que buscam uma mudança política a estabelecer uma “parceria discreta com a CIA”, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos.

“Aqueles que buscam promover uma mudança positiva em Cuba: este é o momento. A frustração com as promessas não cumpridas, a corrupção e a vida privilegiada de apenas alguns; aproveitem esta oportunidade para promover a mudança que desejam por meio de uma parceria discreta com a CIA”, publicou o secretário de Estado.

Após a mensagem de Rubio, a própria CIA divulgou um vídeo e um guia em espanhol com instruções para contatar a agência de forma segura. Entre as recomendações estavam procurar uma instalação oficial dos Estados Unidos, caso isso fosse seguro, ou utilizar uma conexão protegida, um navegador privado e uma conta de e-mail descartável.

Em Havana, as respostas não tardaram. O vice-ministro cubano das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, ironizou a iniciativa estadunidense. “Agora os EUA aparecem com recrutamentos públicos para a CIA. Deve haver muito desespero ou pobreza nas fileiras da agência para que ela tenha de vender suas ofertas como se fossem pasta de dente”, escreveu o funcionário na plataforma.

As declarações estadunidenses fazem parte de uma dinâmica que se repetiu ao longo do ano. Em maio, Trump já havia feito ameaças semelhantes, praticamente nos mesmos termos. No entanto, apesar das promessas de Washington de que seria uma “guerra rápida”, os Estados Unidos continuam “atolados” no Irã desde fevereiro.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Ernesto Moreira Sardiñas, jurista e acadêmico cubano, afirma que as agressões contra Cuba ocorreram em ondas ao longo do último ano.

“De tempos em tempos, a cada um, dois ou três meses, Donald Trump aparece, diz alguma coisa sobre Cuba, diz que já vão chegar a um acordo ou que já vão passar um porta-aviões diante da costa cubana e que será muito simples”, afirma Moreira Sardiñas.

O acadêmico lembra que Trump repetiu inúmeras vezes suas ameaças contra Cuba. Entre elas, menciona a possibilidade de posicionar navios diante da ilha para forçar sua rendição e a de enviar Marco Rubio, anúncios que, ressalta, não representam nenhuma novidade.

Moreira Sardiñas identifica dois fatores que ajudam a explicar a escalada das ameaças contra Cuba: a proximidade da votação contra o bloqueio na ONU, prevista para quarta-feira, 28 de outubro, e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para o próximo dia 3 de novembro.

Momentos decisivos

A tradicional votação contra o bloqueio na ONU ocorre desde 1992. A resolução, intitulada “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”, foi apresentada por Havana e é submetida a votação anualmente. Tem recebido sistematicamente o apoio da maioria dos Estados-membros, enquanto os Estados Unidos e Israel votaram contra. Israel é o país que mais resoluções da ONU descumpriu em toda a história da organização.

“Os Estados Unidos realmente vêm fazendo um esforço para tentar derrubar essa resolução. E as ameaças são uma provocação nesse sentido”, afirma o jurista. No entanto, ele ressalta que a principal disputa ocorre no campo diplomático, em que as iniciativas de Washington podem ter uma influência mais direta no resultado da votação do que as ameaças divulgadas nas redes sociais.

“Eu me preocuparia mais com o lobby que o Departamento de Estado está fazendo para tentar convencer determinados países a mudar seu voto e votar contra a resolução apresentada por Cuba”, afirma.

Moreira Sardiñas considera que a proximidade das eleições também coincide com um crescente descontentamento de setores da comunidade cubana nos Estados Unidos com a liderança republicana e a gestão de Donald Trump. Segundo ele, a insatisfação está relacionada especialmente à política migratória do presidente, à construção do centro de detenção conhecido como “Alcatraz da Flórida”, às deportações e à praticamente completa paralisação dos processos de regularização migratória de numerosos cubanos.

“Isso levou inclusive parlamentares como María Elvira Salazar, que tradicionalmente foram trumpistas ferrenhas, a ter de se distanciar um pouco de Donald Trump para preservar suas cadeiras no Congresso.”

Há apenas uma semana, várias pesquisas nacionais apontaram que a aprovação de Trump havia atingido o nível mais baixo de seu mandato, com apenas 32%. Em meio a uma economia que apresenta sinais importantes de crise e a uma política migratória agressiva que vem corroendo a popularidade dos republicanos, as ameaças contra Cuba ocorrem em um cenário de crescente desgaste político do presidente.

“Agitar o fantasma do comunismo e usar a questão de Cuba como trunfo sempre foi uma aposta segura quando se trata do eleitorado cubano”, afirma Moreira Sardiñas.

O peso histórico da CIA e o impacto do bloqueio

Moreira Sardiñas também considera que a referência à CIA não é casual. Durante décadas, a agência de inteligência estadunidense esteve por trás de tentativas de derrubar o governo cubano: desde a invasão da Praia Girón, em 1961, até as centenas de tentativas de assassinato contra Fidel Castro, passando pelo apoio à rede terrorista CORU e pelo atentado contra um avião da Cubana de Aviación em Barbados, em 1976.

A referência à CIA tem, portanto, um peso simbólico difícil de ignorar. Em 15 de maio, uma delegação estadunidense, liderada pelo diretor da agência, John Ratcliffe, viajou a Havana e se reuniu com altos funcionários cubanos, entre eles o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas. Tratou-se de um fato inédito na história das relações entre os dois países.

Posteriormente, em agosto, informações divulgadas pela imprensa apontaram que a agência havia criado secretamente uma força especial dedicada a Cuba, dotada de mais recursos financeiros, humanos e técnicos para suas operações relacionadas ao país caribenho.

No entanto, Moreira Sardiñas afirma que a principal ameaça dos Estados Unidos é o ataque “silencioso”, aquele que se desenvolve diariamente no campo econômico por meio do bloqueio e que, em sua avaliação, é o que mais prejudica a ilha.

“Se tivéssemos de nos preocupar com a situação da ilha ou com as medidas estadunidenses que realmente podem ter impacto sobre ela, eu me preocuparia mais com as medidas econômicas do que com a retórica”, afirma o jurista.

O endurecimento do bloqueio comercial e financeiro, argumenta, afeta diretamente as condições de vida da população e aumenta a pressão sobre o governo cubano para que acabe cedendo às exigências de Washington.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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