O mercado financeiro encerrou o pregão de segunda-feira (26) — o primeiro após o segundo turno e a virada histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) — com notícias de queda de 14% no Ibovespa e alta de mais de 8% do dólar.
Segundo o economista Pedro Faria, isso acontece porque o mercado de ações funciona com base em especulação e projeções de ganhos futuros. Ou seja, quem opera no mercado de investimentos sempre vai considerar o potencial de ganhos a partir da vitória de um ou outro candidato com base nos planos de cada um deles. Nesse caso, Flávio, que é mais privatista, poderia gerar lucros maiores aos rentistas.
“Tem um elemento material e concreto: alteraram-se as projeções futuras de lucros. Se a gente pegar as ações de bancos, por exemplo, tiveram quedas muito fortes: XP, BTG. O que isso quer dizer? Quer dizer que as pessoas que são detentoras dessas ações fizeram a reavaliação de quanto elas vão valer no futuro, de quanto esses bancos vão ganhar no futuro”, exemplifica.
Declarações de Flávio durante a campanha indicavam a intenção de privatizar o Banco do Brasil, tirando o controle do Estado. Isso, explica Faria, geraria “lucros muito gordos” para os detentores das ações dos outros bancos. “A gente está falando de sair um banco público da concorrência com esses bancos e, mais do que isso, vender para esses outros bancos os ativos do Banco do Brasil”, explica.
“Essa é a parte material: estamos falando concretamente da projeção de lucros futuros. A gente vê, portanto, quem sai ganhando e quem sai perdendo com o resultado da eleição”, continua.
Pedro Faria explica que o “circuit breaker”, acionado logo no início do pregão de segunda-feira, é um dispositivo que dá uma “pausa para respirar”, diante de eventos que alteram sensivelmente as projeções do mercado financeiro.
“A bolsa que organiza as trocas de ativos faz esse mecanismo. Uma boa parte das negociações em bolsa de valores não é feita por pessoas de carne e osso, como nós. Elas são feitas por algoritmos. Hoje, com o uso de inteligência artificial, uma porcentagem grande das trocas já é feita. E você pode ter situações em que esses algoritmos, pelos cálculos que estão embutidos, entram numa situação, por exemplo: ‘Ah, o preço está caindo, vende logo para eu sair fora antes que caia mais’. Isso faz com que o preço caia ainda mais”, afirma, ao citar a especulação que rege o mercado de ações.
O economista reforça a diferença entre o mercado financeiro e a economia real e como, muitas vezes, para a população em geral, há uma confusão de que são a mesma coisa. “O que a gente vê aqui é que acaba que esses mercados financeiros reagem de maneira muito especulativa, desconectada da economia concreta. A gente que trabalha, que gera valor. E aí tem um empresário que se apropria dessa parte desse valor, e a gente continua, a vida continua rodando”, argumenta.
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