Ingerência

Sem provas, Bannon cobra de Trump isolamento do Brasil até anular eleição; Musk ecoa narrativa de fraude

Cálculo compartilhado pelo dono da rede social X ignora quase 5 milhões de novos votos

O bilionário estadunidense dono da rede social X e da Tesla, Elon Musk
O bilionário estadunidense dono da rede social X e da Tesla, Elon Musk | Crédito: Angela Weiss/AFP

O ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon e o bilionário Elon Musk, dono do X, questionaram, sem apresentar provas, o resultado das eleições que reelegeram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). Os ataques de fora vêm ao mesmo tempo em que, dentro do país, o Partido Liberal (PL) já reconheceu a vitória do petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL) desistiu de pedir a anulação da votação.

Bannon, um dos principais ideólogos do movimento Maga (sigla em inglês para “Faça a América Grande de Novo”), afirmou à Folha de S.Paulo, na segunda-feira (26), que espera que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressione o governo brasileiro até que o resultado seja revertido. “Acredito que o presidente Trump vai agir para isolar o regime marxista de Lula até que ele concorde em anular essa eleição roubada”, disse.

O estadunidense também afirmou, sem qualquer embasamento, que Flávio Bolsonaro foi o verdadeiro vencedor do pleito. “Flávio venceu a Presidência ontem, ele vai assumir a Presidência e concorrer à reeleição em 2030, enquanto Lula apodrece na prisão”, declarou.

Mais cedo, Bannon já havia defendido que Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, rompessem relações diplomáticas e comerciais com o Brasil. “Hoje o Brasil não tem um governo legítimo porque Lula roubou a eleição”, disse. Na rede social Gettr, ele publicou uma série de mensagens contestando o resultado. Em uma delas, compartilhou trecho de reportagem do The New York Times sobre a prorrogação do horário de votação com o comentário “Stolen in Brazil” (“roubada no Brasil”, em tradução livre). O discurso de Flávio Bolsonaro após a derrota também foi replicado por ele.

Questionado pela Folha sobre o recuo do próprio Flávio, Bannon insistiu: “O presidente Trump resumiu da melhor maneira: a eleição foi fraudada”. Quando perguntado sobre o fato de Trump ter dito que gosta de Lula, citou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do senador.

Não é a primeira vez que Bannon tenta deslegitimar o voto dos brasileiros. Em 2022, ele defendeu que o então presidente Jair Bolsonaro (PL) não reconhecesse a derrota para Lula, também sem provas.

‘A conta não fecha’

Elon Musk, que tem 241 milhões de seguidores no X, compartilhou um cálculo divulgado por um aliado trumpista que sugere ser improvável a virada de Lula no segundo turno e escreveu: “A conta não fecha”. A postagem republicada argumenta que todos os candidatos eliminados no primeiro turno somaram 9,33 milhões de votos.

O raciocínio, no entanto, desconsidera a entrada de quase 5 milhões de novos votos no segundo turno: 3 milhões vieram da queda da abstenção e 1,8 milhão da redução de brancos e nulos. Para o pesquisador de Relações Internacionais Ricardo Leães, a redução brusca da abstenção foi decisiva para a virada.

Na semana passada, Musk já havia reagido com um “Wow” a um gráfico do site de apostas Polymarket que mostrava Flávio Bolsonaro à frente na disputa, com 58% contra 42% de Lula. O empresário também já atacou Moraes e afirmou, sem provas, que o ministro interferiu nas eleições de 2022 para eleger Lula.

Trump fala em fraude, mas diz ‘gostar’ de Lula

A posição de Bannon vai além da do próprio Trump. Na segunda, o presidente estadunidense disse que as eleições no Brasil pareceram “fraudadas” e “muito corruptas”, também sem apresentar provas, e classificou a prorrogação do horário de votação como “muito estranha”. Na mesma fala, porém, afirmou: “Eu gosto do Lula, me dou muito bem com ele”. Questionado se tomaria alguma medida, respondeu: “Eu governo os Estados Unidos, não o Brasil”.

Trump não anunciou sanções nem iniciativas para reverter o resultado, mas também não parabenizou Lula, e o governo dos EUA ainda não deixou claro se reconhece formalmente a reeleição do petista.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, rebateu Trump. “Ele [Trump] está mal-informado. Quem tentou fraudar a eleição foi a Meta, obstruindo e restringindo as nossas colocações. Só se ele está se referindo à Meta”, afirmou ao g1.

Reconhecimento interno

Na noite de domingo, Flávio havia anunciado que não reconheceria o resultado e pediria a anulação da eleição. Na segunda, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu formalmente a vitória de Lula, assim como MDB, Republicanos, União Brasil e PSD, partidos que apoiaram o senador no segundo turno.

Sem sustentação política, Flávio recuou, abandonando o pedido de anulação e passando a concentrar a ofensiva em ações na Justiça Eleitoral para tentar cassar a chapa vitoriosa por suposto abuso de poder político e econômico. “Eu vou pedir sim a cassação da chapa do Lula por todos os abusos que ele cometeu”, afirmou em vídeo nas redes sociais, no qual também disse que vai transformar o Congresso em uma “fortaleza” contra o governo. Segundo integrantes da equipe jurídica, ouvidos pela CNN Brasil, 20 pedidos de cassação já foram apresentados.

Para o pesquisador de Relações Internacionais Ricardo Leães, a fala ambígua de Trump já indica o rumo que a Casa Branca deve tomar. “O Donald Trump, dizendo no primeiro momento que a eleição foi estranha e tudo mais, mas que ele não tomou tanto partido, que ele gosta do presidente Lula, meio que já sinalizando exatamente o caminho em que ele vai trilhar”, avaliou ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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